Por Isabela Slussarek (isabelaslussarek@usp.br)
Nascido em 2 de dezembro de 1946, em Reggio di Calabria, sul da Itália, Giovanni Maria Versace, mais conhecido como Gianni Versace, foi um dos maiores nomes da indústria da moda do século 20. Filho de costureira, seu primeiro contato com a moda foi ao ver sua mãe Francesca trabalhar em sua própria boutique. Gianni passou a infância ao lado de seus dois irmãos, Donatella e Santo Versace.
Após se formar no ensino médio, trabalhou por anos no ateliê da família, onde se encontrou no ramo e se apaixonou pela elegância dos clientes. Aos 22 anos, desenhou sua primeira coleção de roupa, o que deu início à fama de seu nome. Em 1972, Gianni se mudou para Milão, o coração da moda italiana.

O início de tudo
A marca Versace foi criada em 1978, em Milão. Donatella e Santo passaram a trabalhar com o irmão, como diretora publicitária e diretor geral, respectivamente. Durante as décadas de 1970 e 1980, a moda italiana deixou de lado as tradições adotadas nos anos anteriores e abraçou a ousadia, o uso de cores, estampas atípicas e o glamour, através do pioneirismo de Gianni.
“A minha moda é um espelho do mundo que nos circunda e do nosso modo de vida. No meu trabalho, sempre procuro colocar minhas experiências de vida e nunca temo correr os riscos necessários.”
Gianni Versace
Na época, a moda focava em criar roupas com menos sensualidade para as mulheres, como ternos e calças. O objetivo do estilista era criar uma marca que explorasse a beleza feminina, a extravagância e o “exagero”. A alfaiataria buscava ser sexy, com decotes e fendas que valorizassem o corpo das clientes.
Para Gian Sena, designer gráfico do La Moda, Gianni olhava a mulher com uma sensualidade própria, enquanto marcas tradicionais impuseram a sensualidade sobre a mulher. “Ele ajudou a reforçar o senso de empoderamento feminino através da roupa, algo que muitos estilistas viam como vulgaridade”, alega. O designer acrescenta que as peças da marca trazem uma revolução estética de não ter medo de inovar — aderir aos clichês e à inovação ao mesmo tempo.
Em março de 1978, ano de criação, a marca lançou sua primeira coleção feminina — Gianni Versace Donna — como um presente para sua irmã. Em setembro, criou sua coleção masculina e o sucesso da marca foi instantâneo. Gianni, ao lado de grandes nomes, como Giorgio Armani, Franco Moschino, Gianfranco Ferré e Valentino, foi responsável por transformar Milão na capital da moda.
Gianni passou a ser admirado por usar materiais não convencionais em suas peças, como plástico, borracha e metal. Em 1982, criou o tecido “Oroton” que misturava a maleabilidade da peça com uma textura metálica e brilhante — usado até os dias de hoje. No mesmo ano, a Versace expandiu seus negócios para o ramo das joias e utilidades domésticas, como porcelanas e móveis.

No final da década de 1980, a empresa criou o Atelier Versace, responsável pela produção de alta costura e por vestir grandes nomes como Princesa Diana, Elton John e Madonna. Em 1994, a marca passou a se inspirar no movimento punk, muito popular em Londres. Couro, correntes, alfinetes e uma modelagem justa ganharam força.
Em 1992, a passarela foi dominada pela coleção Miss S&M, com características ousadas, uso do preto e do dourado, e inspirada no bondage — prática de amarrar e imobilizar um parceiro para fins eróticos ou estéticos. A coleção virou um verdadeiro símbolo e ícone da marca. Donatella vestiu uma peça durante o Met Gala de 1996 e, desde então, as celebridades usam a coleção.

‘Armani veste esposas, Versace veste amantes’
Giorgio Armani e Gianni tinham uma rivalidade sútil nos bastidores. Os dois revolucionaram a moda italiana, mas de formas diferentes. Armani era conhecido pelo seu estilo clássico e elegante, enquanto Gianni pela ousadia e sensualidade. A frase “Armani veste esposas, Versace veste amantes” — reproduzida no mundo da moda — é creditada a Anna Wintour, ex-editora-chefe da Vogue americana, e define a visão dada a cada marca.
Em 2015, Armani deu uma entrevista ao The Sunday Times Magazine, considerada polêmica pela família Versace, o que trouxe à tona a história de rivalidade entre as duas marcas novamente. Giorgio citou uma conversa que teve com Gianni durante um de seus desfiles, alegando que o dono da Versace tinha dito “eu visto vagabundas. Você veste senhoras de igreja”.
Em entrevista ao jornal The Independent, Donatella disse, em tradução livre: “Acho extremamente rude e sem sentido que o Sr. Armani voltou a colocar palavras na boca do meu irmão, principalmente porque ele infelizmente não está mais entre nós para responder.” Para ela, a única coisa que saía da boca de seu irmão quando o assunto era moda era a palavra “glamour”.
As indiretas não impactavam no respeito entre os dois. Em 2012, para uma nova edição da biografia de Gianni, Armani escreveu o prefácio. Descreveu o colega como um “criador extraordinário” e confessou que, apesar de esconderem, os dois tinham curiosidade sobre o trabalho um do outro. Para Armani, a rivalidade aconteceu pelos dois não se conhecerem por completo.
No livro, Armani afirmou: “Quinze anos após sua morte, o que eu lembro de Gianni Versace? Sua incrível exuberância, um senso de felicidade que mistura tudo — ideias, tendências, memórias, arte — com certa indiferença e vitalidade.”
O último andar pela passarela
No dia 6 de julho de 1997, Gianni desfilou sua última coleção, nomeada “Atelier Versace FW 1997”. A coleção de alta costura de outono-inverno foi apresentada no Hotel Ritz, em Paris. As peças eram dominadas pela cor preta e elementos religiosos, como as cruzes de jóias inspiradas na exposição “Glória de Bizâncio“, do Metropolitan Museum of Art — Museu Metropolitano de Artes, em português.
Nove dias depois, o artista foi assassinado pelo serial killer Andrew Cunanan. Ao voltar de sua caminhada matinal pela Ocean Drive, em Miami Beach, Gianni foi baleado em frente a sua mansão, Casa Casuarina. O assassino de 27 anos era procurado pelo FBI — Federal Bureau of Investigation (Departamento Federal de Investigação, em português) por outros quatro assassinatos. Cunanan cometeu suicídio oito dias depois.

O enterro de Gianni aconteceu em Milão, e contou com a presença de grandes nomes da indústria. Donatella e Santo estavam na Itália ensaiando para os desfiles de moda quando souberam da notícia. Eles divulgaram um comunicado agradecendo “todos aqueles que desejam respeitar, em silêncio, sua dor”.
As investigações nunca chegaram a uma conclusão da motivação do assassinato. A principal teoria aceita foi abordada no livro Favores vulgares – A história real do homem que matou Gianni Versace (Vestígio, 2018). Segundo a autora Maureen Orth, os dois se conheceram em São Francisco, em 1990. Cunanan é natural da Califórnia e Gianni estava lá para fazer o figurino de uma ópera.
Cunanan era garoto de programa, como afirmou sua mãe, e envolveu-se afetivamente e sexualmente com as quatro outras vítimas — todos homens — mas nunca foi provado que tivesse uma relação com Gianni. Donatella nega qualquer hipótese da relação entre os dois, pois, segundo ela, eles nem chegaram a se conhecer.
Em entrevista ao The Guardian, Antonio D’Amico, namorado de Gianni por 15 anos, também alega que o designer não conhecia seu assassino: “Eles nunca se conheceram […] tanta coisa foi ficcionalizada. Infelizmente, Gianni morreu, infelizmente esse cara o matou, infelizmente aconteceu: mas agora, deixemos isso para lá.”
Versace e as supermodels
Gianni foi fundamental para o nascimento das supermodelos no mundo da moda. Na década de 1990, as modelos Linda Evangelista, Christy Turlington, Cindy Crawford, Tatjana Patitz, Claudia Schiffer e Naomi Campbell eram chamadas de Big Six — As Grande Seis, em português — e eram presenças confirmadas nos desfiles da Versace. Para Bruna Aniez, jornalista e pós graduada em moda pela Universidade de São Paulo (USP), o estilista foi responsável por transformar a visão de todos sobre a profissão de modelo.
“Antes as modelos eram usadas como manequins. Gianni transformou cada uma em uma mulher Versace”, acrescenta Bruna. A jornalista alega que a intenção era fazer as consumidoras se sentirem supermodelos ao comprarem peças desfiladas pelas mulheres que representavam a marca. Fora das passarelas, o designer construiu uma relação pessoal com todas, que formaram grande carinho pela marca e pela família Versace.
Após a morte de Gianni, Bruna afirma que “Donatella conseguiu aproveitar a relação do irmão com as supermodelos, mas, hoje em dia, existe uma escassez desse grupo. Ela traz para perto modelos que sentem que podem representar a marca, mas nenhuma que seria realmente uma supermodelo.”
A Versace sempre foi ligada à cultura pop e transformou grandes celebridades em personificações da marca. Nos anos 2000, Donatella criou o Jungle Dress usado por Jennifer Lopez no Grammy. A peça virou característica da marca e sempre foi associada à artista. Assim como no caso da Jennifer, Donatella criou um grande carinho pela cantora Dua Lipa, que, nos últimos anos, virou a garota propaganda da Versace.
Bruna alega que a falta de supermodelos no mercado impactou diretamente na escolha de artistas da indústria pop como representantes. “A gente não tem uma pessoa que é uma supermodelo e que vai atingir muitos consumidores. Os cantores têm essa capacidade. A Versace se preocupa em ser popular, e, para se manter, precisa estar alinhada com pessoas populares”, acrescenta.
Entre o presente e o passado
Em entrevista exclusiva à Folha de S. Paulo, Gianni declarou sua gratidão pelo trabalho de Donatella. “Ela é minha preciosa conselheira, principalmente porque tem um ponto de vista feminino. Algumas vezes, a última palavra é dela”, alegou. Também reconheceu o trabalho feito entre os três irmãos: “Eu, Santo e Donatella temos uma sinergia que tornou possível realizar sucessos.”
Com a morte do artista, Santo assumiu a presidência e Donatella a vice-presidência e direção criativa. Em 1998, apresentou sua primeira coleção sozinha: a Primavera/Verão 1998, durante a Semana de Moda de Milão. Gianni deixou alguns esboços de peças, mas a execução final de todo o desfile foi realizada por sua irmã.
No início de sua carreira como designer, Donatella buscava validação e se sentia insegura de expressar seu gosto pessoal nas criações da Versace. “O que eu conhecia era o estilo do Gianni e achava que era isso que as pessoas queriam de mim, então tentei seguir seus passos. Mas não era exatamente o meu estilo”, alegou Donatella.
“Eu queria ter sucesso para o Gianni, porque ele se importava muito com a empresa e eu sabia que ele gostaria que ela continuasse. Mas eu estava com medo e não tinha confiança.”
Donatella Versace
Para Gian Sena, Donatella enfrentou algumas críticas ao assumir o cargo por dois motivos: as pessoas estavam acostumadas com o trabalho de Gianni e existia um preconceito com as mulheres que lideram grandes empresas. Bruna afirma que ela foi bem recebida, muito em razão da situação que enfrentava. “A Donatella entra com toda essa força e consegue sustentar a marca. Acredito que, por apresentar coleções que Gianni já tinha deixado em acervo, ela não sofreu duras críticas.”

Entre 2004 e 2012, a marca deixou de realizar desfiles de alta costura, ao focar apenas em coleções para os editores de moda. Em 2018, a família vendeu a empresa para o Grupo Michael Kors. No mesmo ano, a coleção Primavera/Verão 2018 prestou homenagem ao Gianni e aos 20 anos de sua morte.
Donatella trouxe às passarelas releituras de grandes clássicos criados pelo estilista, com estampas e elementos considerados a alma da marca. Ao final do desfile, a irmã desfilou ao lado das modelos mais importantes para a Versace durante a liderança de Gianni, como Helena Christensen, Cindy Crawford, Naomi Campbell, Claudia Schiffer e Carla Bruni.
“A gente nunca perdeu o Gianni Versace, eu sempre gosto de pensar nisso. A gente teve uma nova versão, pois o que a Donatella trouxe nunca desviou da visão dele, tanto na parte empresarial quanto na comercial.”
Gian Sena
Em janeiro de 2019, as marcas Michael Kors, Jimmy Choo e Versace formaram um conglomerado de luxo, o Capri Holdings. Donatella permaneceu na direção criativa. Após quase 30 anos de direção, a irmã de Gianni anunciou sua saída como estilista da marca em março de 2025. Dario Vitale foi nomeado como sucessor de Donatella, que optou por ser embaixadora oficial da Versace.
“Eu não apenas acho que a troca de direção criativa é algo positivo, mas também necessário. O público da moda, hoje em dia, procura algo diferente, que talvez esses diretores criativos mais antigos e estabilizados não pudessem propor”, afirma Gian. Bruna acredita que Donatella já vinha se preparando para a sua saída, com todas as homenagens e trabalhos feitos nas últimas coleções. Também alega que a marca precisava se reinventar e que a chegada de um novo diretor — que não é da família Versace — pode trazer resultados positivos.
