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Da rejeição ao ouro: a carreira de André Heller

Quando a necessidade de tratamentos alternativos para sua condição respiratória fez nascer um medalhista olímpico

Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br)

O esporte toca vidas. No caso de André Heller, ex-jogador de voleibol, a necessidade de se exercitar como tratamento da asma foi o início de uma jornada que chegou ao ouro olímpico. Dentre títulos, clubes e países, Heller descobriu a importância da disciplina, guiada por treinos dentro e fora de quadra. Quando se aposenta e a rotina acaba, ele teve de se reinventar, encontrar uma nova paixão — mas sem abandonar o mundo esportivo. 

O fantástico mundo do voleibol

Dentro de quadra, seu coração palpitava. Primeiro jogo da vida. O nervosismo era tanto que quase o impedia de jogar. Um pequeno André Heller de 14 anos havia sido negado na peneira para o time de voleibol da escola, mas ao tentar o passar no processo seletivo do time da cidade de Nova Hamburgo (RS), Frangosul, passou. “O treinador disse que eu tinha um talento especial para o esporte”, conta ao Arquibancada

O jogador começou no esporte como uma forma de controlar seu quadro de asma, já que sua família não tinha dinheiro para tratamentos médicos. Seus pais, que mantinham a casa com três filhos, perguntaram a um pediatra o que poderiam fazer para melhorar sua condição, e o doutor respondeu: “Ele pode praticar esportes”, e esportes ele praticou.

Para melhorar sua condição respiratória, Heller jogava uma espécie de Futebol de Botão com bolinhas de isopor — nele, só se podia jogar assoprando [Imagem: Acervo pessoal/André Heller]

O garoto tentou natação, mas não conseguia flutuar na água e era alérgico ao cloro. “Basquete também não deu certo, eu era alto e magro, mas desengonçado demais”, explica. Seu perfil esguio o fez tentar atletismo, mas só achou seu lugar no voleibol.

Certa tarde, alguns amigos da escola bateram em sua porta e o chamaram para ir ao processo seletivo do clube Frangosul: “Inicialmente, falei que não iria. Pensei, ‘como eu vou para o clube se nem passei no time da escola?’ Me convenceram dizendo que ninguém passaria, [pois] nenhum de nós sabia jogar, estávamos indo só conhecer o lugar. Fiz a peneira e fui aprovado”.  O time foi seu primeiro lar, onde começou a jogar de central, posição que manteve até o fim da carreira. 

Pode parecer estranho ouvir um homem de quase dois metros de altura dizer que um dia pensou que não teria espaço em uma equipe de vôlei — mas Heller admite ter sido retraído na infância: “Eu era muito tímido, me sentia inseguro, era muito ruim para mim”. Ainda assim, aceitou a oportunidade, não só pelo tratamento da asma, mas por uma perspectiva de progresso. 

“Nesse primeiro momento, eu ainda não entendia o que significava ser atleta”, confessa. No primeiro ano, não ia a todos os treinos, até porque era incerto se desejava ser jogador.  Foi no ano seguinte que “o bichinho do esporte” o picou: estava perdidamente apaixonado pelo vôlei. Quando entendeu que a constância significava melhora, passou a não perder  nenhum treino e a praticar em casa. Conforme progredia, Heller já se sentia motivado: “Não vou falar que comecei a me destacar, mas tive uma sensação de que algo legal estava acontecendo comigo, eu estava aprendendo”.

“O processo de evolução foi incrível para mim; na verdade, melhor do que qualquer medalha” 

André Heller

Participou de todas as categorias de base do clube e foi chamado para se juntar à categoria profissional do Frangosul devido a seu desempenho. Quando entrou, junto dos jogadores mais velhos, quase nem jogava, apenas coletava as bolas nos treinos. Ao terminar a escola, se deparou com um impasse: todos seus amigos prestavam vestibular, mas ele queria seguir uma carreira no esporte. 

Não é hobby, é profissão! 

A decisão em casa foi que tentaria continuar no vôlei por um ano, apoiado financeiramente por suas irmãs. “Me falaram assim: ‘se der certo nesse tempo, tu segues. Se não der certo, para e se vira sozinho’. Elas ajudavam comprando joelheira, tênis, essas coisas”. Heller diz que, naquele ano, “voou alto”: jogava cada vez mais no time, até o dia em que atingiu a idade estabelecida para a promoção oficial  à equipe adulta. 

“Cheguei na idade necessária para ter um salário e um contrato, então fui ao clube para assiná-lo”, conta o atleta. Mas no momento de assinar o contrato, teve uma surpresa: “Ao invés de fecharmos o acordo, me avisaram que o time tinha acabado”. Saiu de lá desolado,  e no trajeto a pé para casa andou vagarosamente, para pensar.  Crente de que seu sonho teria chegado ao fim, o atleta relembra que, durante a caminhada, passou em frente a um posto de gasolina com um anúncio: contratando frentistas. “Lembro de ensaiar fortemente como entraria e falaria que estava disponível para o emprego. Pensei, vou trabalhar no posto”. 

Em alguns dias, no entanto, soube da abertura do Ulbra, novo time em Canoas, cidade vizinha a Novo Hamburgo. O técnico era o mesmo de seu clube anterior, o que o motivou a fazer uma ligação. “Do que você precisa, Ganso?”, perguntou a voz familiar, chamando-o por seu antigo apelido. O atleta pediu por uma tentativa de teste, aceita pelo antigo treinador. Depois disso, foi contratado — poderia seguir no esporte.

Por ser um time novo, o Canoas precisava passar por um processo seletivo para participar da Superliga.  “Era uma competição que reunia vários times que queriam entrar na elite do vôlei brasileiro. A disputa era acirrada”, reconta o jogador. Heller ganhou espaço no time após o central titular da equipe quebrar o cotovelo durante uma partida, o que deixou o posto vago. 

Vinha se destacando, pelo desenvolvimento de força e impulsão no salto, devido aos treinos duas vezes por dia. “Entrei no lugar dele e arrebentei no campeonato, fui muito bem”. O time se classificou para o torneio e ficou em sexto lugar na próxima temporada. Nos dois anos seguintes, conquistaram o título brasileiro   “Foi na minha segunda temporada lá que fui convocado para a Seleção Brasileira Adulta”.

Em certos momentos de sua carreira, Heller fez terapia, ioga e meditação guiada: “Eu entendi que esse poderia ser meu diferencial competitivo” [Imagem: Acervo pessoal/André Heller]

Uma viagem mundial

Em 1998, durante um treino, um responsável do clube abordou Heller e outro colega para contar sobre a convocação de ambos para a Seleção Brasileira. A imprensa os fotografou e as imagens saíram no jornal da cidade, fato que “enlouqueceu” seus pais, felizes pelas conquistas do filho. Logo foi treinar com a Seleção, junto de alguns de seus maiores ídolos, como Maurício Lima. “Não sabia como me comportar. Nem tinha coragem de ir ao banheiro quando estava no quarto deles, ia ao banheiro da recepção”, diz. 

Agora na equipe nacional, o nível havia subido, o que, para ele, significava uma oportunidade para evoluir. Seu primeiro campeonato foi a Liga Mundial, atual Liga das Nações — o atleta começou a viajar o mundo, cada semana num novo país. Heller ainda não era titular, mas atuava em algumas partidas e descreve o nervosismo como similar ao de seu primeiro jogo: “Era uma sensação muito próxima, a diferença é que agora eu tinha mais recursos para gerenciar a ansiedade”.

Também em 1998, jogaram o Mundial de Vôlei, em que atingiram o quarto lugar. Nos anos que sucederam, o jogador permaneceu na seleção durante a Copa do Mundo e realizou seu grande sonho: participar das Olimpíadas, na edição de Sydney. O time chegou em uma cidade vizinha, chamada Camberra, onde fizeram a aclimatação. “Tinha outras equipes, do basquete, do atletismo, já houve uma integração. Recebemos os uniformes, as malas, tudo lindo”, conta Heller. “A chegada em Sydney foi maravilhosa, porque na Vila Olímpica te entregam um monte de presentes de patrocinadores e tem um restaurante gigantesco com tudo que se pode imaginar”, adiciona. 

A dinâmica com o time era fácil. Segundo o jogador, sempre foram amigos: Giba, Ricardinho, André Nascimento — todos eram próximos. O central era classificado pelos colegas, no entanto, como “um cara muito disciplinado”. Chegava até a ser intolerante com algumas atitudes: “Porque aquilo era o sonho da minha vida, eu não negociava. Em algum momento, isso até se mostrou desagradável, eu era tão engajado que chegava a ser chato”. Na ocasião, a Seleção Brasileira acabou em sexto lugar, mas não seria o último contato de Heller com o evento.

Quando retornou ao Ulbra, foi demitido do time. Mesmo na Seleção, o atleta continuava como reserva, e o clube anunciou que não desejava “banco de luxo”. Assim, foi convidado para participar do Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, onde foi campeão brasileiro. Alternava entre campeonatos pelo Minas e pela equipe nacional, sem nunca parar de treinar. 

Nasce um campeão olímpico 

Chega 2004 — em sua segunda Olimpíada, era titular. O time brasileiro chegou com grandes expectativas para a edição de Atenas: Bernardinho havia assumido como técnico, e a Seleção havia conquistado diversos títulos entre 2001 e 2004. “Chegamos com a imagem de time imbatível”, e realmente eram. “Nunca pensamos que éramos os melhores, mas tínhamos convicção de que ninguém havia se preparado tanto quanto a gente”, diz. Na final, perderam o segundo set, mas conquistaram a vitória com um placar de 3 a 1.

“Foi um jogo que aconteceu do jeito que tinha de acontecer”

André Heller

Seu pai foi atleta e treinador de voleibol por alguns anos quando era jovem, mas não tinha mais contato com o esporte quando teve André [Imagem: Acervo pessoal/André Heller]

Até hoje, Heller diz que a sensação de ser medalhista olímpico é indescritível. “Existem vários objetivos no decorrer da vida. Você vai atingindo alguns e outros não, mas depois que você completa uma meta e estabelece outra, a que passou perde um pouco o brilho, porque outras vêm em seguida”, explica. “Essa medalha nunca perde o brilho. Você acabou de me perguntar: como é ser campeão olímpico? E, por um segundo, eu parei e pensei, caramba, eu sou campeão olímpico”, finaliza. 

A despedida

Após seu período no Minas, foi jogar na Itália, onde ficou de 2004 a 2008, mas não se identificou com o estilo de treinamento. Como alguém acostumado com uma rotina intensa de treinos em quadra e musculação, guiado pela disciplina, Heller estranhou o estilo de vida dos atletas italianos. Enquanto no Brasil ia à academia duas vezes por dia, no país europeu ia duas vezes por semana. 

Em 2008, participou das Olimpíadas de Pequim. Já existia uma certa carga de trabalho nas costas dos jogadores, fazia oito anos desde que disputaram sua primeira Olimpíada juntos. Chegaram bem preparados: “Fizemos um bom campeonato, mas sempre com um olho nos Estados Unidos, que estavam jogando demais. E, de fato, os encontramos na final e não demos conta, eles acabaram vencendo”. 

Com 33 anos, sabia que havia a possibilidade de não ser mais convocado para a Seleção: além da idade “avançada” (para os padrões esportivos), novos jogadores competentes chegavam a cada ciclo. Alguns de seus colegas de quadra pediram dispensa da equipe nacional, mas Heller decidiu que não faria o mesmo. Falou para Bernardinho que não diria não à Seleção, pois isso era contra sua natureza; o técnico teria de não convocá-lo. 

Voltou ao Brasil e jogou mais dois anos em Belo Horizonte. Em 2010, foi para Campinas, onde foi contratado pelo Vôlei Renata. Nos anos sem jogar pela Seleção, teve de se reinventar — os treinos para competir pelo Brasil o preparavam fisicamente para a temporada de clubes. “Eu também estava mais velho, fui obrigado a entender que já não faria mais o que estava acostumado a fazer. Sentia de maneira muito notória que, depois dos 33, comecei a descer uma ladeira”. 

Sua experiência foi aproveitada pelo Renata: era capitão da equipe. Além disso, participava de ações fora de quadra, com patrocinadores, para outras empresas. Foi aí que descobriu o que faria depois da aposentadoria. Em 2014, aconteceu seu último jogo. Pouco antes, a equipe de marketing do time pediu para Heller gravar vídeos da “rotina de sua última semana no voleibol”. Ele não conseguiu. 

Naquela partida, o atleta estava lesionado e não pôde jogar. Sentado no banco, na metade do último set, quase não conseguia controlar as lágrimas que escapavam de seus olhos. A cada ponto fazia contagem regressiva: “Daqui a seis pontos paro de jogar, daqui a cinco pontos paro de jogar…”. Ao final, chorava incontrolavelmente. Os jogadores de ambos times passaram para um lado da quadra, o pegaram no colo e o jogaram para cima, comemorando uma carreira completa. “Eu não estava triste, estava emocionado. Era muito grato, na verdade”, revela. 

Depois das quadras

No primeiro momento, assumiu uma posição no projeto do Renata, até hoje continua como embaixador. Fez uma especialização em Gestão Aplicada no Esporte pela Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo e pensou em terminar a faculdade de educação física. No entanto, logo percebeu que queria manter contato com as empresas e decidiu adentrar o mundo corporativo. Trancou a faculdade no sétimo semestre e embarcou em outra graduação, em Gestão de Empreendedorismo.

Segundo Heller, um de seus maiores aprendizados da carreira é que às vezes não se tem controle sobre o que acontece, então é importante encarar esses momentos como possibilidades de aprendizado [Imagem: Acervo pessoal/André Heller]

“Fiz mais algumas especializações para poder fazer da melhor forma o que faço”. Hoje, Heller é palestrante: compartilha sua perspectiva do esporte como uma plataforma poderosa de educação e transformação e tem uma escola de voleibol junto de sua esposa, Marcelle Mendes, também ex-jogadora.

O esporte é uma coisa muito séria. Eu me transformei, me eduquei e me construí nele. Então eu me sinto responsável por espalhar essa minha visão sobre o que ele é

André Heller

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