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10 anos da estreia histórica da Equipe Olímpica de Refugiados

Dos Jogos Rio 2016 ao primeiro pódio em Paris 2024, a delegação ampliou a visibilidade da crise dos refugiados e consolidou o esporte como ferramenta de inclusão

Por Ana Germano (anabrgermano@usp.br), Israel Willian Valdez (israelvaldez@usp.br) e Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.brrefugiados

Há 10 anos, em 5 de agosto de 2016, a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio marcou a estreia histórica da Equipe Olímpica de Refugiados. Criada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a iniciativa teve como objetivo garantir a participação desses atletas nos Jogos. 

Embora não tenha conquistado medalhas em sua primeira participação, a equipe chamou a atenção por seu simbolismo e por suas atuações nas competições. Atualmente, apenas uma atleta da delegação conquistou medalha para a equipe, com um bronze em Paris 2024. Tal conquista reflete não só o empenho e o talento da atleta, como também simboliza uma vitória coletiva e a resiliência da delegação.

A crise humanitária que chegou às Olimpíadas

Quando o Comitê Olímpico Internacional anunciou, no final de 2015, a criação da Equipe Olímpica de Refugiados, o mundo enfrentava uma crise sem precedentes de deslocamento forçado. No início daquele ano, esse tema já era apontado pelas Nações Unidas como um dos maiores desafios humanitários do século 21. De acordo com dados divulgados pela ACNUR, apenas no primeiro semestre de 2014, mais de 5 milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas por consequência de guerras, perseguições e violações de direitos humanos. 

O aumento desse contingente foi impulsionado por conflitos prolongados em diferentes regiões do mundo: a Somália vivia uma guerra civil desde 1991, após a queda do presidente Siad Barre; o Sudão enfrentava confrontos em regiões como Darfur, Kordofan do Sul e Nilo Azul; enquanto o Sudão do Sul, independente desde 2011, mergulhou em uma guerra civil a partir de 2013. Ao mesmo tempo, a guerra na Síria, iniciada em 2011 após manifestações contra o governo de Bashar al-Assad, provocava um dos maiores êxodos da história recente e se tornava o principal símbolo da crise global de refugiados. 

Ao todo, mais de 46 milhões de pessoas viviam em situação de deslocamento forçado naquele momento — maior número registrado desde o início da série histórica da Agência da ONU para Refugiados. Em meio a esse cenário, a ACNUR e o Comitê Olímpico Internacional começaram a discutir formas de incluir atletas refugiados nos Jogos Olímpicos para que os esportistas pudessem continuar a competir em alto rendimento e, ao mesmo tempo, dar visibilidade à realidade enfrentada por milhões de pessoas deslocadas à força. 

A estreia histórica nos Jogos do Rio 

As conversas entre os órgãos começaram em 2014 e resultaram, no ano seguinte, na criação da primeira Equipe Olímpica de Refugiados, anunciada em outubro para disputar os Jogos Rio 2016. Essa iniciativa permitiu que atletas que já competiam em alto rendimento antes de serem obrigados a deixar seus países voltassem ao cenário olímpico, desta vez sem representar uma delegação nacional. 

Em entrevista ao Arquibancada, o oficial de comunicação do ACNUR no Brasil, Miguel Pachioni, explica que a equipe foi estruturada em um período reduzido, o que fez com que seus integrantes chegassem ao Rio sem um ciclo olímpico completo de preparação. “Essas pessoas não tiveram a oportunidade de ter um treinamento ao longo do ciclo olímpico de quatro anos”, conta.

Para viabilizar a participação desses atletas, também era necessário que eles tivessem sua condição de refugiados reconhecida pelos países de acolhida. Pachioni explica que a documentação ainda representa uma barreira em muitos lugares, mas destaca que, no Brasil, o solicitante de refúgio já pode emitir documentos como CPF e carteira de trabalho enquanto aguarda a análise do pedido, o que facilita sua integração. 

O oficial ressalta, no entanto, que a escolha do Rio de Janeiro para receber a primeira Equipe Olímpica de Refugiados não ocorreu por conta da maior facilidade de integração proporcionada pela legislação brasileira, mas foi resultado de uma articulação entre COI, ACNUR e as autoridades envolvidas para garantir que os atletas pudessem competir nos Jogos em igualdade de condições com as demais delegações.

A estreia da equipe aconteceu na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. A delegação composta por dez atletas vindos da Síria, Sudão do Sul, República Democrática do Congo e Etiópia, que competiram no atletismo, judô e natação, desfilou sob a bandeira olímpica e foi a primeira equipe de refugiados da história dos Jogos.

Pachioni, que acompanhou os jogos no Rio de Janeiro, afirma que a repercussão da estreia superou as expectativas da organização. “Eu me lembro muito bem desse time ter sido ovacionado pela torcida que estava no Maracanã. Parecia que era a delegação brasileira entrando no estádio”, relembra. Segundo ele, a principal intenção era despertar solidariedade e aproximar o público da realidade das pessoas refugiadas. O interesse dos espectadores também se refletiu durante as competições, quando o ACNUR recebeu mensagens de pessoas que buscavam saber onde poderiam acompanhar as provas dos atletas da equipe. 

Nos bastidores, a presença da equipe também mudou a dinâmica da Vila Olímpica. De acordo com Pachioni, os atletas chegaram ao Rio praticamente como desconhecidos, mas, à medida que suas histórias passaram a se tornar públicas, ganharam reconhecimento entre os próprios competidores. “Eles começaram os Jogos de forma bastante anônima. De repente, estavam tomando café da manhã ao lado do Michael Phelps”, conta. Para ele, essa convivência aproximou os atletas e fortaleceu o reconhecimento da delegação dentro do ambiente olímpico.

Embora não tenham conquistado medalhas, alguns resultados chamaram a atenção. O judoca Popole Misenga, natural do Congo, venceu sua luta de estreia e avançou às oitavas de final da categoria até 90 kg. Já a nadadora síria Yusra Mardini venceu sua bateria dos 100 metros borboleta, desempenho que deu visibilidade à equipe durante os Jogos.

Conheça alguns atletas da estreia

Papole Misenga — Judô

Ainda criança, Papole se perdeu da mãe, que foi assassinada durante os conflitos que se estendiam pela República Democrática do Congo. Oito dias depois de fugir dos conflitos, foi encontrado em uma área florestal e levado para a capital, Kinshasa, onde começou a praticar judô em um centro para crianças resgatadas.

Em 2013, durante o Mundial de Judô no Rio de Janeiro, o atleta pediu refúgio no Brasil após denunciar que seu treinador o trancava em uma jaula durante dias com apenas café e pão para comer caso perdesse alguma competição. Papole passou então a treinar no Instituto Reação e, em seguida, conquistou uma vaga na primeira Equipe Olímpica de Refugiados — onde tornou-se o primeiro atleta refugiado a vencer uma luta em Jogos Olímpicos. 

Desde que pediu asilo e participou do Rio 2016, Popole se reconstruiu: encontrou apoio, se casou, teve filhos e continua a treinar [Imagem: Reprodução/Instagram/@acnurbrasil]

Yusra Mardini — Natação

A nadadora Yusra Mardini tinha 18 anos quando integrou a primeira Equipe Olímpica de Refugiados. Apenas um ano antes, em 2015, Mardini fugiu da guerra civil na Síria rumo à Europa e, durante a travessia do Mar Egeu, ajudou a empurrar o barco que transportava refugiados após uma pane no motor. 

Depois de chegar à ilha grega de Lesbos, ela viajou para o norte sob orientação esporádica de contrabandistas com um grupo de solicitantes de refúgio. Não muito tempo depois de chegar à Alemanha, começou a treinar no clube Wasserfreunde Spandau 04, em Berlim.   

Yusra lançou uma autobiografia que foi base para a trama do filme “As Nadadoras”, lançado em 2022, que relata a história dela e de sua irmã, Sara Mardini [Imagem: Reprodução/Instagram/@yusramardini]

Anjelina Nadai Lohalith Atletismo

Ainda criança, Anjelina foi forçada a fugir de casa e viver no norte do Quênia quando a guerra chegou a sua aldeia no Sudão do Sul. Desde então, a atleta nunca mais viu ou falou com os seus pais — mas ouviu dizer que eles ainda estão vivos, embora a fome tenha assolado a região. 

Depois de vencer competições escolares no campo de refugiados onde vivia durante o segundo grau, Anjelina foi selecionada pela Fundação Tegla Loroupe para treinar em Ngong, nas proximidades da capital do Quênia. Nos Jogos do Rio, Anjelina competiu nos 1.500 metros pela Equipe e foi uma das mais jovens atletas a entrar para o Programa de Mentoria da Fundação Esporte a Serviço da Humanidade.

Anjelina também competiu no Campeonato Mundial IAAF 2017, em Londres, como parte da equipe de refugiados da World Athletics [Imagem: Reprodução/Instagram/@anjelinenadia]

Paris, Los Angeles e a expansão da equipe

Depois da estreia no Rio de Janeiro, em 2016, a Equipe Olímpica de Refugiados passou a crescer a cada edição dos Jogos. Em 2021, na cidade de Tóquio, no Japão, a delegação quase triplicou de tamanho ao passar de 10 para 29 atletas. 

Embora a primeira medalha ainda não tivesse chegado, alguns resultados chamaram a atenção: a sul-sudanesa Anjelina Nadai Lohalith melhorou a própria marca nos 1.500 metros em relação aos Jogos do Rio (4:31.65 contra 4:47.38 de 2016), enquanto o camaronês Dorian Keletela venceu sua bateria dos 100 metros rasos com o tempo de 10.33 segundos. Outro momento marcante foi a queda do sul-sudanês James Nyang Chiengjiek logo no início da prova dos 800 metros, quando disputava as primeiras posições. Apesar de concluir a corrida, o acidente comprometeu seu desempenho.

Nos Jogos de Paris, em 2024, a Equipe Olímpica de Refugiados alcançou seu principal marco desde a criação. Com uma delegação recorde de 36 atletas, a maior de sua história, o time conquistou sua primeira medalha olímpica. A boxeadora camaronesa Cindy Winner Djankeu Ngamba garantiu o bronze ao derrotar a francesa Davina Michel nas quartas de final da categoria até 75 kg e tornou-se a primeira atleta da equipe a subir ao pódio. 

Em declaração oficial à CNN, Cindy ressaltou a importância da equipe e como o projeto busca a reparação e a estruturação de algo novo e único. A atleta reforçou que, por mais que sua vitória tenha sido em um esporte individual, essa não foi apenas uma conquista sua, e sim um lembrete do que pessoas nas mesmas condições podem fazer com o apoio e incentivos certos.

“Espero que, [ao ganhar] uma medalha nas Olimpíadas representando os refugiados em todo o mundo, as pessoas nos vejam como atletas que estão famintos e querem almejar alto por si mesmos”

Cindy Ngamba, em entrevista à CNN

Cindy Ngamba, atleta da Equipe Olímpica de Refugiados

Ngamba mudou-se para o Reino Unido aos 11 anos e viveu anos sob risco de deportação. A boxeadora recebeu o status de refugiada pela ONU porque a homossexualidade é criminalizada em seu país natal e ela poderia ser presa e sofrer perseguição caso fosse obrigada a retornar [Imagem: Getty Images/Globo Esporte]

Para os Jogos de Los Angeles 2028, o Comitê Olímpico Internacional já confirmou a continuidade da equipe e reafirmou o compromisso de oferecer uma oportunidade para atletas que não podem representar seus países de origem. A expectativa é que a delegação seja novamente formada por esportistas apoiados pela Bolsa para Atletas Refugiados do COI e represente diferentes modalidades.

Gerenciado pela Fundação Olímpica para Refugiados e financiado pelo COI por meio da Solidariedade Olímpica, o Programa de Apoio a Atletas Refugiados concede bolsas financeiras e estruturais para que esportistas de alto nível treinem e busquem a classificação para os Jogos Olímpicos. Na prática, esse suporte integral cobre necessidades essenciais de preparação no país de acolhimento, o que inclui infraestrutura, comissão técnica, moradia, alimentação, assistência médica e custos de competições internacionais. 

Os Comitês Olímpicos Nacionais (CONs) dos países que acolhem os refugiados são os responsáveis por identificar esses atletas, enviar as propostas ao COI e administrar os fundos recebidos. Receber a bolsa não garante vaga automática nos Jogos, mas torna o atleta elegível para ser escolhido na lista final da delegação.

Segundo o Comitê Olímpico, para um atleta refugiado estar apto a ser um bolsista, ele deve comprovar suas condições e capacidades de maneira bem rigorosa. O atleta precisa ser formalmente reconhecido como refugiado ou beneficiário de proteção internacional no país onde vive, pela ACNUR perante o governo local; deve comprovar resultados expressivos e nível técnico competitivo para justificar investimento olímpico e manter o equilíbrio geográfico, de gênero e de modalidades já existentes na delegação.

Muito além da medalha: o legado da equipe olímpica de refugiados 

Passados dez anos da estreia da Equipe Olímpica de Refugiados, o principal legado da iniciativa não pode ser medido apenas pela medalha conquistada ou pelos número de atletas e modalidades. Ao colocar pessoas refugiadas no maior evento esportivo do mundo, o projeto ampliou a visibilidade da causa e incentivou outras iniciativas de inclusão por meio do esporte, dentro e fora das competições de alto rendimento.

Segundo Pachioni, um dos principais resultados foi a mudança na forma como a sociedade passou a enxergar as pessoas refugiadas. A repercussão da equipe nos Jogos Olímpicos contribuiu para que clubes, projetos esportivos e organizações buscassem formas de incluir essa população em suas atividades e passassem a reconhecer seu potencial para além da condição de deslocamento forçado.

O representante do ACNUR destaca que atividades de lazer e recreação têm um papel importante nesse processo. Para ele, criar oportunidades para que crianças refugiadas participem de um jogo de futebol, de um campeonato ou de outras práticas esportivas ajuda a fortalecer vínculos sociais e combater a discriminação. “Assim, conseguimos assimilar socialmente que pessoas refugiadas fazem parte da nossa realidade e devem estar integradas não apenas no esporte, mas na vida”, destaca.

Além de desenvolver habilidades sociais e contribuir para o combate ao preconceito que muitas vezes ceifam ideias e sonhos dessas crianças, a prática de esportes contribui para a criação e percepção de autoestima do indivíduo em formação. Para uma criança refugiada, ver esses atletas atuando em nível olímpico pode impulsionar ainda mais suas ambições e seus sonhos, vendo-os como um referencial de perseverança e determinação durante seu crescimento.

Pachioni reforça que esses atletas merecem ser reconhecidos pela capacidade de superação, pelo talento e pelo potencial de não perder seus objetivos de vista. Segundo ele, sonhar e permanecer em busca desses sonhos é o que simboliza a resiliência do grupo e de tantas outras pessoas refugiadas espalhadas pelo mundo. Além disso, essa capacidade também depende muito de um processo de acolhimento em relação às pessoas em si e não apenas em relação à situação pela qual elas estão passando. 

“Os atletas que participaram dos Jogos demonstram que ninguém deve ser definido pela sua experiência de deslocamento, mas pela capacidade de superar as adversidades e pelo talento que possuem”

Miguel Pachioni

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