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Bocha: tradição esquecida ou esporte de integração?

Mesmo com os estereótipos, essa herança italiana permanece viva nas canchas recreativas e paralímpicas

Por Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br) bocha

Quando se fala em esporte no Brasil, é comum que futebol, vôlei e outras modalidades de grande visibilidade dominem as conversas. Presentes diariamente na televisão, nas redes sociais e nas grandes competições, esses esportes concentram investimentos, patrocinadores e a maior parte da atenção do público. Enquanto isso, modalidades com longa tradição no país seguem longe dos holofotes. Entre elas está a bocha, um esporte centenário que atravessou gerações e que reúne praticantes em torno de uma paixão compartilhada. 

Trazida ao Brasil por imigrantes italianos entre o final do século 19 e o início do século 20, a bocha encontrou em São Paulo um terreno fértil para se desenvolver. Ao longo das décadas, tornou-se presença constante em clubes recreativos, associações culturais e centros comunitários. 

Mesmo assim, ela ainda convive com estereótipos. Para muitos brasileiros, a bocha é vista apenas como um passatempo para idosos ou uma atividade restrita a clubes antigos. A realidade, porém, é diferente: trata-se de uma modalidade estratégica, competitiva e que, na versão paralímpica, colocou o Brasil entre as maiores potências do mundo.

Das primeiras civilizações às canchas paulistas

A história da bocha é muito mais antiga do que sua chegada ao Brasil. Segundo o jornalista e escritor Davi Lima de Oliveira, autor do livro Bocha – Lazer e Alto Rendimento, as primeiras evidências da prática remontam à região da atual Turquia, milhares de anos antes de Cristo.  Em entrevista ao Arquibancada, Oliveira detalhou o surgimento e histórico do esporte: “As primeiras evidências da bocha são da Turquia, mas quem deu essa concepção que ela tem hoje foi a Itália. Ela organizou a modalidade e padronizou as regras”, explicou.

Foi justamente por meio dos imigrantes italianos que a bocha chegou ao Brasil entre os anos de 1875 e 1935. Em um primeiro momento, ela era praticada como forma de lazer: ajudava a diminuir a saudade da terra natal e fortalecia o convívio entre famílias e comunidades. As primeiras canchas foram construídas ao lado de igrejas, em terrenos de terra batida, nos fundos das casas ou em associações formadas pelos próprios imigrantes. 

Il Gioco delle Bocce (1882), de Ruggero Focardi, é uma das representações mais conhecidas da bocha na arte italiana [Imagem: Wikimedia Commons]

A imigração italiana levou a bocha para diferentes regiões do Brasil, especialmente para estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Na capital paulista, bairros como Mooca, Brás e Bixiga ajudaram a consolidar a prática, que mais tarde se espalhou para clubes recreativos, praças e outras cidades do estado. 

“Ela chegou ao Brasil como bocha de fundo de quintal. Quando o pessoal não tinha o que fazer, uns iam para a igreja e outros iam jogar bocha.”

Davi Lima De Oliveira

Com o passar dos anos, essas partidas informais deram origem a campeonatos, federações estaduais e, posteriormente, à Confederação Brasileira de Bocha e Bolão (CBBB), sem perder sua essência de convivência entre amigos e famílias. Além da tradicional bocha recreativa, existem diferentes variações praticadas ao redor do mundo, como a Petanca, popular na França, a Rafa, principal variante disputada no Brasil, e a bocha paralímpica

Segundo Oliveira, especialmente na região Sul, os campeonatos movimentam dezenas de clubes e atraem atletas de alto nível praticamente todos os finais de semana. Já em São Paulo, continua presente em clubes e centros esportivos, mas o cenário já não é o mesmo de décadas atrás: o fechamento de canchas, a diminuição do número de praticantes e a popularização de outras modalidades reduziram a visibilidade do esporte e o contato das novas gerações com ela.

Simples na aparência, estratégico na prática

A bocha é um jogo de regras simples: o objetivo é lançar bolas coloridas — as chamadas bochas — o mais próximo possível de uma pequena bola-alvo, conhecida como bolim. As partidas podem ser disputadas individualmente, em duplas ou em trios: no individual, cada atleta joga com quatro bochas; já nas duplas e nos trios, cada jogador utiliza duas. Em cada jogada, os competidores podem optar por aproximar sua bocha do bolim, afastar as bolas do adversário ou deslocar o próprio bolim para uma posição mais favorável, sempre em busca da maior pontuação possível. Geralmente, vence quem alcançar primeiro 12 ou 15 pontos, dependendo do regulamento da competição.

A aparente simplicidade, porém, esconde um esporte que exige concentração, planejamento e controle emocional. Durante as jogadas, os atletas (e o público) devem manter o ambiente silencioso, já que qualquer distração pode comprometer a precisão dos lançamentos. A estratégia costuma decidir o resultado das partidas: a posição de cada bola influencia a jogada seguinte e obriga os atletas à antecipar movimentos e a pensar à frente das jogadas, como acontece em um jogo de xadrez.

Nas competições oficiais, as bolas precisam seguir padrões de tamanho e peso; na bocha Rafa, por exemplo, elas costumam pesar entre 900 g e 1,2 kg [Imagem: Unsplash]

Uma modalidade que transforma vidas

Se a bocha tradicional ainda é pouco conhecida fora dos clubes, a versão paralímpica elevou o esporte a um novo patamar. Presente no programa dos Jogos Paralímpicos desde 1984, a modalidade tornou o Brasil uma das principais referências mundiais – com conquistas em Campeonatos Mundiais, Copas do Mundo e Paralimpíadas.

Apesar de compartilhar o mesmo objetivo da bocha tradicional, a versão paralímpica possui regras adaptadas para atletas com deficiências motoras severas, principalmente pessoas com paralisia cerebral ou condições neurológicas semelhantes. Dependendo da classe funcional, alguns competidores utilizam rampas, calhas e o auxílio de um assistente esportivo para realizar os lançamentos.

Para o professor e coordenador técnico na área do esporte adaptado no Instituto Barueri Paraolímpico, Caio Oliveira, o impacto do esporte vai muito além das competições. Em entrevista ao Arquibancada, o professor ressalta a importância da modalidade para a vida dos praticantes: “A bocha é uma janela para outras vivências. Muitos alunos chegam com uma rotina restrita, limitada praticamente à casa, à escola e às terapias. Quando entram no esporte, passam a conhecer outras pessoas, participam de viagens, de competições e desenvolvem uma independência que antes parecia distante”.

Para muitos atletas, a bocha paralímpica é a primeira oportunidade de viver o esporte competitivo. A classificação funcional torna essa experiência mais justa e acessível e respeita as características de cada competidor [Imagem/Acervo Instituto Barueri Paraolímpico]

Segundo Caio, a transformação não acontece apenas dentro da quadra. A convivência com outros atletas fortalece a autoestima, amplia o círculo de amizades e contribui para o desenvolvimento emocional e social. Esse impacto também se estende às famílias. De acordo com o professor, muitos responsáveis chegam aos projetos inseguros sobre o potencial dos filhos e acabam por descobrir novas possibilidades de autonomia através da prática esportiva. Estratégia, concentração e controle emocional continuam sendo determinantes para o desempenho dos atletas, independentemente da classe funcional. 

“Quem vê uma partida pela televisão pode pensar que basta lançar a bola, mas existe toda uma leitura de jogo. Cada movimento é pensado e cada lançamento tem uma intenção específica.”

Caio Oliveira

Nos últimos anos, a criação de projetos esportivos em instituições e centros de treinamento municipais ampliou o acesso de pessoas com deficiência à modalidade. Ao mesmo tempo, o crescimento do número de competições nacionais ajudou a revelar novos talentos e fortalecer o Brasil no cenário internacional. 

A versão paralímpica utiliza seis bolas vermelhas e seis azuis, confeccionadas em couro e com peso de até 287 gramas. Vence quem terminar a partida com o maior número de bolas próximas ao bolim; em caso de empate, o vencedor é decidido em um tie-break [Imagem/Acervo Instituto Barueri Paraolímpico]

Para Caio, no entanto, as medalhas são consequência de um trabalho que começa muito antes do alto rendimento. “Nosso objetivo não é formar apenas campeões paralímpicos. Queremos formar pessoas mais independentes, confiantes e capazes de ocupar diferentes espaços da sociedade. Se o resultado esportivo vier, ótimo. Mas ele nunca é o único objetivo”, afirma. Esse olhar ajuda a compreender porque a bocha paralímpica ganhou tanta relevância nos últimos anos: a versão adaptada tornou-se uma importante ferramenta de inclusão e mostra que o esporte pode ser um instrumento de desenvolvimento humano tão potente quanto a competição.

“O maior resultado não é ganhar uma medalha. É ver um aluno, que antes quase não saía de casa, criar amizades, viajar pela primeira vez e descobrir que é capaz de fazer coisas que nunca imaginou.”

Caio Oliveira

Para além de revelar atletas de alto rendimento, a bocha paralímpica ampliou o significado da modalidade ao oferecer oportunidades de socialização, autonomia e participação esportiva para pessoas com deficiência. Ela reforça uma característica que acompanha a história da bocha desde sua chegada: a capacidade de reunir pessoas em torno de um mesmo espaço, independentemente da idade ou das limitações físicas. É justamente essa característica que fortalece o questionamento sobre um dos estereótipos mais persistentes relacionados ao esporte: etarismo.

Atletas do Instituto Barueri Paraolímpico já conquistaram medalhas em competições de nível nacional. Em alguns momentos, chegaram a levar o jogo para seis parciais – reflexo da grande competitividade que existe na modalidade [Imagem/Acervo Instituto Barueri Paraolímpico]

O peso do estereótipo bocha

Apesar da história centenária, a bocha ainda convive com um rótulo difícil de superar: o de “esporte de idoso”. A associação é tão comum que, para muitos, essa é a única imagem que vem à mente. O estigma, porém, não surgiu por acaso. Durante décadas, foram justamente os clubes recreativos e as associações comunitárias frequentadas por aposentados que mantiveram a bocha viva. Enquanto outras modalidades conquistavam espaço na televisão, a bocha permaneceu concentrada em ambientes tradicionais, o que afastou naturalmente o público mais jovem.

Para Oliveira, essa visão já não representa a realidade do esporte: “Isso é mais um mito do que uma verdade. Existem muitos jovens jogando e muitas mulheres também. O problema é que a mídia praticamente não mostra a modalidade, então as pessoas continuam com essa imagem de que só idoso joga bocha”, afirma. 

Como o esporte aparece pouco nos meios de comunicação, poucas pessoas têm contato com ele e, consequentemente, menos jovens conhecem a bocha e a impressão de que ela pertence apenas às gerações mais velhas continua reforçada. Para ele, a falta de divulgação cria um ciclo difícil de romper. “Para a bocha só falta o glamour”, resume. “Na Itália, na China e em outros países há transmissões na televisão aberta. Aqui, não. Os campeonatos acontecem em várias canchas ao mesmo tempo, espalhadas por diferentes clubes e um jogador muitas vezes nem chega a assistir o outro competir. Isso dificulta a divulgação e tira visibilidade da modalidade.”

 Caio compartilha uma visão semelhante. Para o professor, a questão está menos relacionada à idade e mais às oportunidades de acesso, especialmente no quesito educacional: “A bocha é para todos. O que falta é que crianças e adolescentes tenham contato com a modalidade desde cedo, assim como acontece com o futebol, o vôlei ou o basquete. Quando eles conhecem o esporte, normalmente se surpreendem”, ressalta.

Caio defende que existam projetos em escolas que mostrem às crianças e aos adolescentes os esportes adaptados, a fim de desenvolver um olhar mais inclusivo [Imagem/Acervo Instituto Barueri Paraolímpico]

Essa percepção revela um contraste importante: enquanto modalidades populares costumam ser apresentadas às crianças ainda na escola, a bocha raramente faz parte desse primeiro contato com esportes. Muitos praticantes conhecem a modalidade apenas na vida adulta ou por influência de familiares que já frequentavam clubes tradicionais.

Além desses obstáculos, outro desafio está relacionado aos próprios espaços de prática. Em diferentes cidades paulistas, antigas canchas deram lugar a estacionamentos, salões de eventos ou outras estruturas consideradas mais rentáveis pelos clubes. Com menos locais para jogar, a modalidade também perdeu parte de sua presença cotidiana. Para Oliveira, essa dificuldade poderia ser amenizada com um trabalho mais integrado entre clubes, federações e meios de comunicação. 

“A bocha precisa aparecer mais. Hoje existe campeonato praticamente todo fim de semana, existem grandes atletas, existe público. O que falta é mostrar isso para quem está fora desse meio.”

Davi Lima de Oliveira

Tradição que resiste bocha

Mesmo diante desses desafios, a bocha continua a encontrar formas de permanecer viva. Clubes tradicionais seguem promovendo campeonatos, projetos sociais apresentam a modalidade para novos praticantes e instituições voltadas ao esporte paralímpico ampliam o acesso de pessoas com deficiência às competições de alto rendimento. Para Caio, o maior legado da bocha está na capacidade de transformar vidas e criar oportunidades de convivência, desenvolvimento e inclusão – característica que talvez explique porque a modalidade resiste, mesmo distante dos holofotes. 

“O esporte transforma vidas não apenas pelos resultados, mas pelas oportunidades que oferece. Quando um atleta descobre que pode competir, viajar, fazer amigos e conquistar independência, ele percebe que a bocha é muito maior que um jogo.”

Caio Oliveira

Oliveira compartilha da mesma percepção. Depois de décadas dedicadas à modalidade, ele acredita que o maior desafio da bocha hoje não está dentro das canchas, mas fora delas: convencer as pessoas a experimentar um esporte que ainda é cercado por preconceitos e pouco conhecido pelo grande público. 

Mais de um século após chegar ao Brasil pelas mãos dos italianos, a bocha ainda ocupa um espaço discreto no cenário esportivo nacional. Porém, entre canchas de terra, clubes tradicionais e quadras paralímpicas, segue a demonstração de que tradição e inovação podem caminhar lado a lado. Se ainda enfrenta dificuldades para conquistar visibilidade, também mostra que seu valor vai muito além das medalhas ou dos campeonatos: está nas histórias que preserva, nas amizades que constrói e nas oportunidades que cria para diferentes gerações e realidades.

“Quem nunca jogou bocha deveria ir a uma cancha pelo menos uma vez e experimentar. Tenho certeza de que muita gente mudaria completamente a imagem que tem do esporte.”

Davi Lima de Oliveira

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