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Marina Silva: ‘Os verdadeiros transgressores da democracia são aqueles que não obedecem às leis’

No teatro histórico da PUC-SP, figuras da política brasileira se reuniram para debater as eleições de 2026
Por Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br) e Renata Paes (renatapaes777@usp.br)

Na segunda-feira, dia 3, foi comemorado 38 anos da aprovação do fim da censura política, artística e ideológica no Brasil. Para celebrar a consolidação de um dos marcos da redemocratização do país, o  teatro TUCA da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) recebeu a 13ª edição do “Direitos Já: Ato em Defesa da Democracia e da Soberania Nacional”, organizado pelo “Direitos Já! Fórum pela Democracia”.

O evento reuniu lideranças políticas como Marina Silva (Psol), candidata ao Senado por São Paulo em 2026; Márcio França (PSB), candidato a vice-governador na chapa de Fernando Haddad (PT); Erika Hilton (Psol), candidata a reeleição como deputada federal por São Paulo; e o ex-senador Eduardo Suplicy (PT).  O debate  contou com a presença de cerca de mil espectadores para discutir os desafios e o futuro da democracia brasileira.

A organização foi criada em 2019 e surgiu como “uma iniciativa da sociedade civil em defesa dos valores fundamentais expressos na Constituição Cidadã”, de acordo com a página oficial do Fórum. Desde então, a organização segue realizando eventos com nomes da política nacional em cidades como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.

Amanda Sobreira, coordenadora de Articulação Política do movimento “Direitos Já!”, abriu o encontro relembrando a origem do fórum. “Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, observamos uma escalada do discurso autoritário na política. Foi então que surgiu a ideia de construir um projeto que se consolidasse como uma frente ampla em defesa da democracia”, afirmou.

Na abertura, o coordenador-geral da organização Fernando Guimarães destacou a importância do processo eleitoral deste ano. Segundo ele, cabe à sociedade eleger um Congresso comprometido com a Constituição de 1988. Ao final de 2026, 54 senadores deixarão suas cadeiras no Congresso Nacional. Especialistas apontam que devido a renovação histórica no Senado, a eleição de outubro será a mais importante e decisiva dos últimos anos. 

Guimarães ressaltou ainda que a liberdade religiosa é um dos pilares fundamentais de uma sociedade democrática. Durante sua fala, convidou ao palco representantes de diversas tradições religiosas para uma saudação ecumênica. Pastores, missionários, representantes de religiões de matriz africana e da tradição islâmica,católicos, espíritas e freis participaram do momento. 

A fala dos convidados do fórum foi iniciada pelo ex-ministro do Empreendedorismo e dos Portos, Márcio França, que destacou a posição do estado de São Paulo como polo definidor das eleições. O Estado é o maior colégio eleitoral do país. “Na penúltima eleição, perdemos por 7,5 milhões de votos no estado. Em 2022, foram 2,3 milhões de votos no segundo, que permitiram a vitória da oposição. São Paulo está mudando”, declarou.

O candidato reafirmou seu compromisso com a luta democrática e relembrou suas candidaturas passadas. Em 2018, França concorreu à reeleição pelo governo do Estado de São Paulo e, em 2022, participou da disputa por uma vaga no Senado do estado paulista.

Pluralidade de vozes em cena

O ato contou com uma curadoria diversa de participantes, descrita por Fernando Guimarães como “focada na pluralidade política e no apoio a vozes femininas”. Dentre os escolhidos, a presença de Alda Marco Antônio, vice-presidenta do PSD, e de Nádia Campeão, presidenta do PCdoB, representaram a vontade dos idealizadores do fórum de transformar a política em um “lugar mais diverso”. 

Durante sua fala, Alda Marco Antônio lamentou a necessidade de se defender a manutenção da democracia, mesmo 38 anos após o fim do regime ditatorial no Brasil. De acordo com ela, essa fragilidade do sistema democrático fere especialmente a população feminina, vítima de uma sociedade patriarcal.

“Se a democracia é importante para todos, é ainda mais importante para as mulheres.”

Alda Marco Antônio

Dentre as convidadas femininas, a presença de Hildegard Angel, jornalista e fundadora do Instituto Zuzu Angel, destacou-se. Filha da estilista perseguida pela ditadura, a escritora afirmou estar “cansada de esperar pela democracia”, e confessou acreditar que esta é a eleição mais importante dos últimos anos. “Eu represento aqueles que morreram na ditadura, e não tenho mais tempo para esperar que eles parem de nos matar”, disse Hildegard. 

O tema da disputa eleitoral deste ano esteve presente no evento, usado como exemplo da força democrática por muitos participantes. Pedro Taques (PSDB), ex-governador de Mato Grosso e candidato ao Senado pelo estado, ressaltou a importância da participação popular no processo eleitoral e defendeu que interesses coletivos devem prevalecer sobre projetos individuais de forma a priorizar o bem-estar geral da nação. “A democracia é o que nos faz diferenciar o ‘organismo geral’ do indivíduo”, afirmou. 

Como parte da homenagem tradicional do ato, destinada a figuras da militância que tenham realizado ações de grande impacto social,  o ativista Chico Whitaker subiu ao palco para receber a honraria da noite. Em seu discurso, o político de 94 anos relembrou o voto de cabresto, prática associada à coação de eleitores por líderes políticos locais, especialmente durante a República Velha

Whitaker destacou que, embora a compra de votos e outras formas de influência ilegal sobre o eleitorado sejam atualmente proibidas e punidas pela legislação brasileira, essas práticas persistem como uma “moda” no país. Segundo ele, o Orçamento da União estaria sendo usado nos dias de hoje para a compra de votos por uma seção corrupta do Congresso, ato que enfraqueceria a confiabilidade da população na política.

Palco preto com um telão com a bandeira do Brasil ao fundo. Na frente, um senhor branco de roupas claras
Francisco Whitaker foi vereador pela cidade de São Paulo, eleito em 1988 pelo Partido dos Trabalhadores (PT) [Imagem: Laura Cristofoletti/Jornalismo Júnior]

Whitaker aproveitou a fala para promover a criação de um selo para candidatos eleitorais: o “Não Compro Votos”, uma declaração proposta pelo ativista destinada a incentivar a transparência entre os participantes da disputa. Para ele, leis como a “Lei da Ficha Limpa” foram insuficientes para deter a corrupção no período de eleições, o que torna necessário o compromisso individual de políticos com a garantia de justiça e honestidade no processo. 

Eduardo Suplicy e o Senado, mais uma vez

 O economista e ex-senador por três mandatos Eduardo Suplicy (PT) respondeu a uma pergunta exclusiva feita pela J. Press. Questionado sobre a importância de ter duas mulheres — Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) — como candidatas ao Senado pelo estado de São Paulo, Suplicy disse ser uma chapa fundamental. “Como senador por 24 anos, inclusive colega da Marina Silva, sei o quão importante é esse cargo e, especialmente, com a qualidade dessas duas figuras”. Para ele, Tebet e Marina são candidatas fortes que representam bem o povo brasileiro e que têm sua confiança.

Eduardo Suplicy, candidato a deputado federal por São Paulo nesta eleição, revelou também a sua pretensão de se juntar às duas possíveis senadoras para colocar seu plano de Renda Básica de Cidadania em ação. O projeto consiste em um pagamento mensal universal, suficiente para cobrir despesas essenciais de vida, entregue a todos os cidadãos do país sem qualquer requisito prévio, com o objetivo de promover maior igualdade na distribuição de renda.

Sob a ótica de Marina

O principal momento do fórum foi o discurso de Marina Silva (Rede), liderança política com mais de quatro décadas de atuação na defesa do meio ambiente e na luta pelos direitos das mulheres. A candidata ao Senado iniciou sua fala citando o Latinobarómetro, pesquisa anual de opinião pública realizada em 18 países da América Latina com cerca de 20 mil entrevistados. “Em um questionário feito em 2022, apenas 48% dos latino-americanos se mostraram favoráveis à democracia. Fiquei me perguntando o que se passava pela cabeça dos outros 52%. Esse é um resultado grave”, afirmou.

Para a ativista, a democracia precisa ser “tangibilizada”, ideia que, segundo ela,  materializou-se no encontro pela reunião pacífica de pessoas com visões distintas em torno de um propósito comum: a defesa do direito de existir. Marina também apontou a presença de pessoas negras e indígenas no evento como um exemplo concreto desse processo. “Há poucos anos, esses grupos eram impedidos de acessar a universidade. A luta de muitos dos presentes possibilitou que, por meio das cotas, essa ocupação se tornasse realidade. Isso também é tangibilizar a democracia”, defendeu.

Marina também chamou atenção para a pauta dos direitos das mulheres. Segundo ela,  a vida das brasileiras é “extenuante” pois, além de enfrentarem a chamada tripla jornada de trabalho, as mulheres ainda precisam adotar estratégias para evitar situações de violência. A candidata ao Senado defendeu medidas que vão desde o funcionamento ininterrupto de delegacias da mulher até a instalação de postes de iluminação em bairros periféricos para melhorar a segurança dessa população.

Palco com fundo preto com um telão ao fundo. Na frente, uma mulher parda com roupas claras
Durante as eleições presidenciais de 2010, Marina Silva se destacou como a primeira mulher negra a disputar o cargo à Presidência no Brasil [Imagem: Laura Cristofoletti/Jornalismo Júnior]

A importância do respeito às leis também esteve presente em seu discurso. Ela argumentou que uma característica comum aos países que mais avançaram democraticamente é a existência de normas amplamente respeitadas. “Aqueles que não obedecem às leis são os verdadeiros transgressores da democracia. É preciso impedir a chegada de psicopatas como esses ao poder. Fazemos assim um favor ao regime democrático”, declarou.

Ao encerrar  sua fala, Marina afirmou que celebra a democracia por ser o único regime capaz de permitir trajetórias como a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — um operário que se tornou Presidente da República — e a dela própria — filha de seringueiros e analfabeta até os 16 anos que se tornou uma das principais ambientalistas do país.

“Só nesta forma de governo a menina preta, pobre, nascida na Amazônia poderia se tornar deputada federal, ministra e candidata à Presidência e ao Senado.”

Marina Silva

[Capa: Renata Paes/Jornalismo Júnior]

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