por Sara da Franca (saradafranca@usp.br)
Em uma das cenas de Insaciável (Saccharine, 2026), Hana (Midori Francis) está explorando sua foryou e se depara com um vídeo sobre como perder peso, seguido de outro sobre body positivity: ela se interessa pelos dois. É louvável querer o próximo bem consigo mesmo, mas o desejo de se encaixar nos padrões deve ser válido para si próprio, aparentemente. No novo body horror de Natalie Erika James, a fome para alcançar a miragem do corpo perfeito é exibida nas telas de cinema brasileiras a partir desta quinta-feira (06).
Hana não tem o físico padrão que vê todos os dias em seu feed. Anota suas tentativas de perda de peso na agenda de manhã, mas lida com os episódios de compulsão alimentar à tarde. À noite, ela nega a porção de batata frita. Mas é sonhando em ter, de alguma maneira, o corpo da sua instrutora da academia, Alanya (Madeleine Madden), que faz com que seu desejo perdure — mesmo que isso signifique tomar cápsulas com cinzas humanas para que a balança diminua os números do visor.
Em uma inveja confundida com inspiração na amiga Melissa (Annie Shapero), que emagreceu com as cápsulas e indicou-as a Hana, a protagonista, estudante de medicina, se vale do cadáver de suas aulas de anatomia para produzir as próprias pílulas artesanais milagrosas, mas que trazem consigo uma entidade: Bertha, nome do corpo quase anamórfico que ela analisa na universidade, e que passa a aterrorizá-la. Não há mais paz, mesmo que nunca parecesse ter havido.
Um corredor cheio de metáforas possíveis para abordar o terror em um assunto historicamente feminino — vide a ausência de personagens masculinos relevantes na trama. Encarar o querer, a pressão, os traumas geracionais, a satisfação e a insatisfação em uma corrida decrescente em quilogramas que não tem linha de chegada. Perceber que é hora de parar, mas há o desejo. O desejo é infinito, e leva aos altos e baixos do processo.
Hana quer muito o corpo que acredita ser perfeito para si, a partir dele todos os outros trunfos serão possíveis: a atenção da garota que gosta, o fim dos sarcasmos da mãe, estar longe de ter o mesmo destino calórico do pai. Ao mesmo tempo, é preciso lidar com os fantasmas do processo, no seu caso: Bertha. A protagonista não engorda, pois é alimentando de forma compulsória o próprio espírito que a persegue que, temporariamente, ele vai embora, mas ela tem que lidar com toda a bagunça depois — boa alegoria de uma das dinâmicas que mantêm um transtorno alimentar.
Midori Frances transmite bem as impressões e expressões de uma jovem pós-Tumblr — está longe de glorificar um potencial distúrbio alimentar em uma comunidade virtual — que entende o limiar entre estar contente com suas próprias medidas e querer se adequar para brilhar aos olhos de alguém. Essa autoestima funciona para os outros, mas não para si enquanto não houver mudança. Ela não vê problema algum no sobrepeso da amiga, mas a percepção muda quando olha para si mesma, tudo é miserável enquanto os quilos não forem embora.

pontos altos de Insaciável
[Imagem: Reprodução/IMDb]
Insaciável é uma jornada fria e opaca. Mesmo com seus tons pastéis, James não deixa nada saboroso — a vida de Hana é retratada em tons acinzentados, com poucos momentos de calor e alegria genuína. Perto dos poucos amigos, fica à sós com seus pensamentos até quando está acompanhada, sempre descobrindo e tentando resolver seus problemas sozinha. Uma mente vazia de vitalidade, oficina para assombrações.
Todos os lugares têm as cores de uma atmosfera que demonstra a artificialidade do que se consome e do que se quer virar. A comida é empecilho, natureza-morta que não provoca apetite. Não mata a fome, prolonga-a, e a próxima mordida é sempre a próxima, cheia de vazio e nunca suficiente.
Mas se as coxas estão afinando e o sorriso de Alanya está lá, que mal tem? Deseja-se impressionar, acima de tudo. Que o ciclo continue! — levando a uma repetição cansativa no longa, que não decide para que lugar ir e segue com comportamentos previsíveis em sua maior parte: Hana segue a cartilha de querer mudar para impressionar terceiros, lida com as aparições de Bertha, não consegue evitar as mesmas atitudes, passa por situações que desejam ser cômicas em algum momento e repete o ciclo — até chegar a um final premeditado em que deseja ser a (anti-) heroína.
Se a profundidade em ser mais que um terror de assombração foi esboçada com a premissa em abordar transtornos alimentares e as contradições enfrentadas ao querer emagrecer na atualidade, essa se perde em retratar tudo o que já se espera e reconhece de maneira superficial e rápida.
A jornada isolada de Hana percorre os caminhos de alguém que apreciava os debates sobre a inexistência de um corpo perfeito, mas que desejava ter uma aparência específica. Com o decorrer do filme, sua narrativa se limita a alguém que se dirige à amiga Josie (Danielle Macdonald) com “Você queria que eu fosse gorda e infeliz para sempre”. A protagonista não lida, realmente, com o choque entre os discursos de autoaceitação, pressão estética e responsabilidade com o próprio físico, o que deixa o roteiro, também assinado por Natalie Erika James, um tanto quanto morno.
Em meio às repetições do processo obsessivo com o emagrecimento, pouco se fala de onde vieram as motivações que levaram Hana a fazer o que fez. Se ela responde à mãe: “Não era isso que você sempre quis?” sobre estar magra, não se sabe se isso é legítimo. A mãe queria mesmo? Era receio de se parecer com o pai ausente, com obesidade mórbida? Há apenas um sabor sutil do que poderia ter contribuído para o banquete.
Seja o motivo romântico, os históricos familiares que levam Hana a prosseguir com sua martirização ou o entendimento do porquê está sendo perseguida por um fantasma e como acabar com isso, nada atravessa a narrativa como algo realmente profundo, mas uma fuga do roteiro para chegar a um final — que quer aparentar ser mais do que, de fato, é: busca contínua. Como um doce plasticamente bonito em que o gosto que não supera a estética.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
Não surpreende quem já teve de lidar com siglas como Ana, Mia e NFs em um mundo que já parece distante do que era o vivido no Tumblr dos anos 2010, porém é justo no que apresenta. No mais, há de se lidar com a diversidade de sabores que envolvem alimentar os próprios fantasmas. Do doce na ponta da língua ao amargo do remédio. Insaciável mesmo é o desejo de sempre consumir.

Insaciável já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Reprodução/IMDb]
