Jornalismo Júnior

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Os manguezais do Recife: do aterramento à valorização 

Entre séculos de urbanização e a urgência da crise climática, os manguezais ressurgem como símbolos culturais e aliados na absorção de CO₂, na proteção costeira e na preservação da biodiversidade
Colagem com vários elementos que representam os manguezais.
Por Manuela Neves (manuelanevesmiranda@usp.br) 

Recife surgiu sobre uma planície costeira de ilhas, alagados e manguezais, onde água e terra moldaram a cidade anfíbia. Durante décadas, os mangues foram associados à doença, à sujeira e ao atraso urbano. Hoje, porém, sua devastação é alvo de críticas. O manguebeat e a crescente conscientização climática reforçaram a importância ambiental, econômica e social dos manguezais para o mundo e para as comunidades tradicionais, como a Ilha de Deus — comunidade tradicional de pescadores na zona sul do Recife. 

Apesar de sua relevância socioambiental, os manguezais do Recife seguem ameaçados. Desde a ocupação portuguesa no século XVI, o aterramento dos mangues reduziu drasticamente suas áreas, processo agravado hoje pela expansão urbana desordenada, pelo descarte de resíduos, pela carcinicultura predatória e pela poluição hídrica. Assim, embora reconhecidos como aliados contra a crise climática, os mangues continuam degradados por modelos de ocupação que ameaçam a sua permanência — uma tensão que remonta à própria história de urbanização da capital pernambucana.

Foto de rio poluído com esgoto em Recife.
 O Rio Capibaribe recebe grande parte do esgoto não tratado do Recife; o excesso de nutrientes faz com que as árvores ao redor desse rio sejam imensas [Imagem: Reprodução/Clemente Coelho]

O que é um manguezal? 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, o professor do Instituto de Ciências Biológicas da “Universidade de Pernambuco (“UPE”)” e presidente do Instituto Bioma Brasil, Clemente Coelho Júnior, descreveu os manguezais como ecossistemas costeiros típicos de regiões tropicais e subtropicais, formados em áreas de água salobra — onde os rios encontram o mar. Caracterizam-se por um regime constante de inundações determinado pelas marés e por solos lodosos com pouco oxigênio, o que obriga as plantas a captar o gás diretamente do ar por meio de raízes aéreas denominadas pneumatóforas. Essas estruturas também auxiliam na prevenção contra a erosão marinha sobre a costa. Tal ambiente extremo favorece o desenvolvimento de uma vegetação altamente adaptada: o mangue

Na linguagem popular, “mangue” refere-se à vegetação, ao ecossistema e às populações que nele vivem. No Recife, destacam-se espécies como o mangue-vermelho (Rhizophora mangle), o mangue-preto (Avicennia schaueriana) e o mangue-branco (Laguncularia racemosa). 

Relevância ambiental

Os manguezais sustentam a vida a partir de uma dinâmica ecológica baseada na produção e na reciclagem de matéria orgânica. Folhas, galhos e frutos do mangue são decompostos por bactérias e fungos, formando detritos ricos em nutrientes que alimentam organismos microscópicos, caranguejos, moluscos e peixes. Por isso, o ecossistema é considerado um verdadeiro “berçário” natural. 

De acordo com Coelho, “o primeiro benefício que a sociedade tem com esse ecossistema é o de manutenção da biodiversidade marinha, e muitas dessas espécies são de importância econômica: peixes, camarões, crustáceos”. Segundo o professor, entre 70% e 80% da fauna costeira utiliza o manguezal para a reprodução. Além disso, aves, répteis e mamíferos também habitam a região. 

Foto de várias capivaras em meio os lixo.
Em Recife, jacarés-de-papo-amarelo, capivaras, socós e garças são comuns. [Imagem: Reprodução/Clemente Coelho]

O mangue também exerce um papel no combate às mudanças climáticas. Segundo Coelho, essa vegetação absorve até cinco vezes mais CO₂ que florestas terrestres e armazena no solo até dez vezes mais carbono por hectare que a Amazônia. 

O processo de urbanização 

O processo de urbanização do Recife começou com a chegada dos portugueses em 1537, e foi intensificado, no século XVII, pela ocupação holandesa. A partir de então, Recife se desenvolveu no eixo comercial e, em 1827, tornou-se a capital da província de Pernambuco, substituindo Olinda. No século XIX, a lógica positivista de progresso que dominava as capitais europeias chegou à cidade e a perspectiva técnico-científica de modernização urbana ampliou a atuação de médicos e de engenheiros – representados por uma elite branca minoritária – no desenvolvimento da urbe recifense. 

Isabella Puente de Andrade, mestre em história ambiental pela “Universidade Federal de Pernambuco (“UFPE”)”, afirma em seu trabalho “Filhos da lama, irmãos de leite dos caranguejos” que a presença dos manguezais na capital era indesejada pela classe economicamente dominante por três razões centrais: contrariava o discurso científico da época, ocupava áreas estratégicas e abrigava uma população pobre, majoritariamente composta de ex-escravizados.

À época, a “Teoria dos Miasmas” defendia que a transmissão de algumas doenças, como a febre amarela, era causada por maus cheiros. Nesse contexto, os mangues, devido ao forte odor desse tipo de vegetação, passaram a ser vistos como grandes focos de infecção, o que serviu de justificativa sanitária para os aterramentos urbanos. Posteriormente, com a aceitação dos estudos microbiológicos de Pasteur, que demonstraram que doenças infecciosas são causadas por microrganismos, e não por “ares corrompidos”, a teoria foi refutada. O fato de os manguezais estarem em locais com possibilidade de valorização, como zonas próximas a rios e ao litoral, também serviu de justificativa para os aterramentos e para as drenagens por causa da especulação imobiliária.

Além disso, o processo de abolição da escravidão fez com que muitos negros ex-escravizados migrassem para áreas de mangue, onde poderiam morar, comer e trabalhar. Desenvolveu-se, assim, um perfil social característico da população que viria a morar nos mocambos — habitações erguidas às margens do mangue: negros e pobres. 

Com a difusão de ideais eugenistas — racistas e muito difundidos no Brasil, principalmente até a metade do século XX —, a perseguição às populações subalternas se traduziu também na repressão aos espaços que ocupavam. O processo político de destruição dos mocambos teve início na administração de Sérgio Loreto, momento em que foi realizada a urbanização do Derby e de Boa Viagem, bairros da capital. Em 1939, no Estado Novo, esse processo foi institucionalizado com a criação da Liga Social Contra o Mocambo, que oficializou a remoção dessas habitações e que impulsionou a urbanização dos manguezais em nome da “revitalização” e do embelezamento.

Foto antiga com um grupo de homens olhando construção com crianças e outras pessoas sentadas na frente.
O médico Amaury de Medeiros (de braços cruzados), importante sanitarista do governo Sérgio Loreto [Imagem: Reprodução/Medeiros, 1926, p. 135

A partir da segunda metade do século XX, porém, esse paradigma começou a ser questionado. Com a Teoria Miasmática já descredibilizada e o surgimento de novas abordagens ecológicas, os manguezais começaram a surgir na ciência como sistemas de importância socioambiental. No campo intelectual, autores como Josué de Castro já haviam antecipado essa virada ao destacar o mangue como fonte de vida, e não de degradação. 

Nesse sentido, a partir da década de 70, após a implementação do Código Florestal, que definia manguezais como áreas de preservação permanente (APP), os aterramentos de zonas de mangue reduziram significativamente, mas a queda maior foi a partir da década de 90.

Entretanto, alguns casos mais recentes de aterramento de manguezais em Recife reacenderam críticas, como a construção da Via Mangue, uma via que liga os bairros do Pina e de Boa Viagem e que suprimiu parte da vegetação do Parque dos Manguezais, uma unidade de conservação municipal.

Cidade de Recife vista de cima.
Parque dos Manguezais, Via Mangue e Boa Viagem [Imagem: Reprodução/Portal da Copa/ME, Wikimedia Commons]

Outro exemplo emblemático foi o aterramento realizado para a construção do Parque das Graças, na zona norte, que superou o previsto pela licença ambiental concedida pela Secretaria do Meio Ambiente e Sustentabilidade. A obra recebeu críticas de ambientalistas, entre eles o professor  Coelho, que destacou: “o manguezal compõe a área verde da cidade, uma cidade pouco arborizada, principalmente na zona norte, porque está sendo intensamente verticalizada”. O pesquisador evidencia a contradição entre a destruição do manguezal e a necessidade de preservar áreas verdes em uma região já carente de arborização. 

Um problema urbano que pressiona os manguezais do Recife é o saneamento da capital. De acordo com Clemente, menos da metade da cidade possui saneamento básico. Esse esgoto não tratado é despejado nos rios em enormes quantidades, o que causa uma elevada taxa de decomposição que emite gases, como o enxofre, responsável pelo cheiro de ovo podre, na atmosfera. 

O despejo de esgoto nos rios também aumenta a taxa de doenças de veiculação hídrica, porque os coliformes fecais humanos têm bactérias, fungos e vírus. Sendo assim, o mangue por si só não está diretamente associado à veiculação de doenças, mas a presença de esgoto nos rios que o circundam está – o mesmo vale para o cheiro. Ana Mirtes da Silva Ferreira, moradora e ativista da Ilha de Deus, em entrevista à Jornalismo Júnior, afirma que o cheiro dos manguezais da área nobre não é o mesmo dos da Ilha, que recebe diretamente os esgotos de bairros valorizados, como Boa Viagem, Candeias e Piedade. 

“O preconceito começa com o poder público, pelo fato de que o cuidado que eles não têm com o mangue aqui da Ilha de Deus, eles têm com os manguezais da área nobre.” 

Ana Mirtes da Silva Ferreira, moradora da Ilha

Ilha de Deus e a sobrevivência comunitária 

Diversas comunidades da cidade praticam a pesca tradicional, como a comunidade da Ilha de Deus, da Vila São Miguel, de Santo Amaro, do Coque e de Brasília Teimosa, por exemplo. Entretanto, a Ilha de Deus é a única delas reconhecida como comunidade tradicional pesqueira. Mirtes afirma que mais de 90% dos moradores da Ilha sobrevivem da pesca de sururus, de caranguejos, de mariscos diversos, de peixes e de camarões. Segundo a pesquisa Morada de Peixe (2019), do projeto Caranguejo Antenado, estima-se que a região movimente em torno de R$2 milhões e 400 mil ao ano. 

A ilha está localizada entre os bairros da Imbiribeira e Pina, na zona sul do Recife, dentro do perímetro do Parque dos Manguezais. Mirtes, que trabalha no coletivo Poupança Comunitária, um dos diversos projetos que formam novas lideranças locais, descreve a Ilha como uma comunidade potente, com ampla participação feminina em suas lutas, mas que enfrenta muitos desafios para preservar o mangue. 

Como principais impasses, Mirtes cita o desaparecimento de algumas espécies da região, a previsão de escassez de pescado no futuro, a pressão da especulação imobiliária e o assoreamento dos rios. O aratu, o mororó e o camarão da água salgada tornaram-se raros. Os jovens já não querem trabalhar com a pesca, pois veem as dificuldades que os pescadores enfrentam. A especulação imobiliária circunda o território da Ilha, sufoca os territórios pesqueiros e altera o cenário local. Os rejeitos da pesca, como as cascas dos mariscos, acumulam-se nos rios e não há nenhum auxílio do governo para a retirada dessas sobras. São as queixas dos trabalhadores que, com as próprias mãos, coletam, higienizam e embalam os frutos do mar que, posteriormente, serão servidos nas mesas de restaurantes luxuosos. “São lutas que não cessam, a gente vence uma, aparecem dez”, diz a moradora. 

Valorização e movimento manguebeat 

Em 1991, Fred Zero Quatro, vocalista da banda Mundo Livre S/A, lançou um texto de crítica social que propunha mudanças urgentes para um Recife em crise: o Manifesto Caranguejos com Cérebro. A proposta era promover uma revolução cultural por meio da fusão entre tradição e modernidade, misturando ritmos como maracatu, hip-hop, punk e música eletrônica; nasce o movimento manguebeat. 

O nome do manifesto ressignifica a obra “Homens e Caranguejos”, de Josué de Castro. No livro, Castro descreve o “homem-caranguejo”: indivíduo marcado pela miséria dos mangues que acaba mimetizando os próprios caranguejos, sobrevivendo da lama e do rio. Ao falar em “Caranguejos com Cérebro”, o movimento reivindica consciência e capacidade de transformação social para esses sujeitos. 

O principal dirigente do movimento foi Chico Science, líder da banda Nação Zumbi, que, com o álbum “Da Lama ao Caos”, de 1994, levou o manguebeat além da “manguetown” – apelido dado ao Recife pelo movimento – e difundiu o movimento nacionalmente. No famoso trecho de “A Cidade”, uma das principais faixas do álbum, “A cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”, há uma metáfora acerca da topografia social da capital, pois, enquanto os ricos se mudavam para arranha-céus cada vez maiores (subindo), os pobres encontravam-se afundados na lama, lutando para sobreviver (descendo), o que expõe a desigualdade social alarmante da cidade naquele período. 

“Para Recife, a maior e mais gritante diferença não está relacionada à ecologia, está relacionada à cultura, porque nós temos muito enraizado o movimento manguebeat, ou movimento cultural mangue.” 

Clemente Coelho Junior 

(A capa desta matéria usa imagens editadas de Fernando Frazão disponíveis na Agência Brasil, e de SIERRA LEONE NATIONAL TOURISM BOARD, Eythar-gubara e Dappasolomon001 disponíveis no Wikimedia Commons)

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