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Eleições 2026 | Conheça Vera Lúcia, candidata à Governadora de São Paulo pelo PSTU 

Operária, sindicalista e socióloga, construiu sua trajetória política na militância trabalhista e disputa o pela primeira vez o Palácio dos Bandeirantes
Na imagem, a candidata Vera Lúcia do PSTU
Por Maju Pinheiro (majupinheiro@usp.br)*

Em 2026, Vera Lúcia (PSTU) disputa pela primeira vez o cargo de Governadora de São Paulo. Sua trajetória política teve início em Sergipe, onde cresceu e começou a militar no movimento sindical. Cofundadora do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados, a candidata construiu sua atuação política junto aos trabalhadores e já concorreu à Presidência da República em 2018 e 2022, à Prefeitura de São Paulo em 2020 e, por quatro vezes, à Prefeitura de Aracaju, capital de Sergipe.

Filha mais velha de uma família de dez irmãos, Vera é natural de Inajá, do povoado de Cercadinho, localizado no sertão pernambucano. Ainda na infância, seus pais mudaram-se para Paulo Afonso, no sertão da Bahia, em busca de melhores condições de vida e de garantia de educação aos filhos. Mais tarde, a família se estabeleceu em Aracaju.

Em entrevista à J.Press, Vera recordou a relação com a sua terra natal após a mudança para a cidade. “A palavra saudade, o termo saudade, eu conheci desde muito cedo: saudade da minha terra, saudade do meu lugar, o cheiro da minha terra, da comida da minha terra, da música”, contou.

Embora tenha deixado a região aos sete anos e construído sua vida na cidade, ela afirma que os costumes e os vínculos familiares permaneceram. Seus pais, mas especialmente sua mãe, fizeram questão de manter a família próxima de suas origens. “Eu sou uma mulher urbana de certa forma, mas com os pés fincados no sertão”, declarou. 

Na imagem, a família de Vera Lúcia
Na imagem, Vera ao lado de familiares [Imagem: Acervo pessoal]

Vera começou a trabalhar aos 14 anos e, desde então, conciliou empregos como garçonete, faxineira e datilógrafa com os estudos, até que a necessidade de trabalhar a levou a interromper o ensino médio. “A vida de quem é muito pobre, estudar não chega a ser uma escolha”, afirmou. Para ela, a evasão escolar também precisa ser compreendida a partir das condições que levam jovens a deixar a escola. “No meu caso, foi por causa da pobreza mesmo. Eu parei de estudar quando ainda estava no primeiro ano do ensino médio e só retomei depois, por meio do supletivo.” 

Aos 19 anos, passou a trabalhar em uma indústria de calçados, onde entrou em contato com o movimento sindical. “Foi na fábrica que eu aprendi a fazer isso de forma organizada e coletiva. E foi no partido que aprendi a entender por que a gente é pobre, mesmo produzindo toda essa riqueza”. afirmou.

Chegada à política

A militância acabou se tornando parte central de sua vida. Em 1989, Vera ingressou no PT, partido que, segundo ela, reunia diferentes setores da classe trabalhadora e movimentos de luta social. Três anos depois, deixou a legenda por discordar de seu projeto político. “O PT não tinha um projeto de ruptura com o sistema capitalista. Ele abrigava vários militantes que tinham essa perspectiva, mas, enquanto partido, já tentava conciliar os interesses da classe trabalhadora com os capitalistas, inclusive fazendo alianças para garantir a viabilidade eleitoral dos mandatos”, explicou.

O rompimento ocorreu em meio a debates sobre os rumos do partido e da esquerda brasileira. Em Sergipe, Vera e outros militantes romperam com o PT em solidariedade à Convergência Socialista, corrente expulsa da legenda após divergências em torno da campanha pelo impeachment de Fernando Collor. “Foram dois anos de debate para discutir que tipo de partido a classe trabalhadora servia para o intento de mudar o sistema capitalista”, relatou. Desse processo, nasceu o PSTU, organização da qual Vera participa desde sua origem.

Na imagem, Vera Lúcia no início de sua militância
Legalizado em 1995, o PSTU hoje tem como presidente o metalúrgico José Maria de Almeida [Imagem: Acervo pessoal]

Aos 39 anos, Vera ingressou na universidade. Em meio à militância partidária, ao trabalho e à vida familiar, fez um cursinho pré-vestibular e, posteriormente, foi aprovada no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe (UFS). “Eu trabalhava, eu era dirigente do partido, e dona de casa, com filho e marido”, contou. Durante o período do cursinho, também foi candidata a deputada federal. 

Para Vera, a universidade era uma possibilidade distante de sua realidade. O ingresso só se tornou viável quando as condições de vida permitiram que ela retomasse os estudos: “Eu só consegui entrar com 39 anos de idade, porque minhas filhas já estavam crescidas, o meu salário já era melhor, eu já não pagava mais aluguel”, afirmou. A jornada de trabalho de seis horas também facilitou a conciliação. “Então foram uma soma de fatores que possibilitaram, apesar de todo sacrifício, retomar o estudo e concluir uma coisa que foi a razão da saída dos meus pais do sertão.”

A luta como necessidade

Depois de mais de três décadas de militância, Vera afirma que continua acreditando na política como instrumento de transformação social. Para ela, a permanência na militância está relacionada à própria necessidade de organização coletiva diante das desigualdades sociais. 

“A luta política é uma condição, uma necessidade para você mudar uma sociedade ou para você manter uma sociedade.”
Vera Lúcia

Para a candidata, em uma sociedade dividida em classes, os trabalhadores precisam se organizar coletivamente para reivindicar direitos e transformar a sociedade. “Nós precisamos travar essa luta política de forma coletiva, de forma organizada e geral, de todos os setores de oprimidos e explorados”, afirmou. A partir dessa perspectiva, defende que a mobilização social seja capaz de alterar não apenas as políticas públicas, mas as próprias estruturas política, jurídica e econômica da sociedade capitalista.

Na imagem, Vera Lúcia, à dir
Em 2022, Vera integrou a chapa do PSTU à Presidência da República ao lado de Kunã Yporã, também conhecida como Raquel Tremembé, indígena maranhense [Imagem: Acervo pessoal]

O projeto para São Paulo

Intitulado “Por um governo socialista dos trabalhadores e do povo pobre em São Paulo”, o programa de governo do PSTU para São Paulo defende a substituição dos grandes grupos econômicos no poder por uma gestão da classe trabalhadora e dos setores populares. Segundo o documento, a fiscalização das políticas públicas, a elaboração do orçamento estadual e a definição das prioridades do governo passaria por participação popular a partir de conselhos populares em locais de trabalho, estudo e moradia.

Caso eleita, Vera pretende iniciar o primeiro ano de governo com a reestatização de serviços estratégicos, como Metrô e Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), e a suspensão de novas privatizações. A candidata também propõe reconstruir a educação pública, com o fim das escolas cívico-militares e da plataformização do ensino, além da implantação da Tarifa Zero em todo sistema de transporte público estatal.

Entre as primeiras medidas previstas está o enfrentamento ao feminicídio, por meio de uma rede estadual massiva de casas-abrigo, centros de amparo e Delegacias da Mulher 24 horas em todas as regiões, junto da licença remunerada e estabilidade para vítimas de violência doméstica. Vera também propõe o combate à dupla jornada por meio da socialização do trabalho doméstico, com lavanderias, creches e restaurantes públicos.

Para a habitação, a candidatura prevê a desapropriação de imóveis vazios, a suspensão de despejos e a regularização de ocupações. Também estabelece o fim imediato da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, sem redução de salários ou direitos. 

A segurança pública aparece entre as áreas em que o partido propõe mudanças estruturais. O programa defende a extinção da Polícia Militar e a unificação das forças de segurança em uma polícia civil, além do uso obrigatório de câmeras corporais e de investigação independente de casos de violência policial. Para o enfrentamento ao crime organizado, a proposta é investigar também suas estruturas financeiras, incluindo empresas, bancos e contratos públicos.

Quanto à economia, apresenta um plano de obras públicas para ampliar o saneamento, construir hospitais, creches e escolas, expandir a malha ferroviária e combater enchentes. Com um auxílio de um salário mínimo aos desempregados, propõe mudanças na tributação, com redução de impostos sobre itens básicos, anulação de dívidas essenciais para famílias de baixa renda e maior cobrança sobre grandes empresas e fortunas. Planeja também a estatização da Embraer e da Avibras e a criação de um polo público de tecnologia e Inteligência Artificial.

Já para a saúde, prevê o fim das Organizações Sociais e a reestatização de hospitais e serviços privatizados, com gestão pública direta e contratação de profissionais por concurso. O programa inclui ainda a construção e ampliação de hospitais, ambulatórios, centros de diagnóstico, serviços de reabilitação e leitos nas regiões com maior déficit, além de um plano estadual para reduzir e dar transparência às filas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Uma mulher negra na política

Para Vera, as propostas apresentadas pelo PSTU estão relacionadas à própria experiência de militância e à compreensão de que diferentes formas de opressão fazem parte da realidade vivida pela classe trabalhadora. Essa perspectiva também aparece quando fala sobre sua identidade como mulher negra e sobre os obstáculos que enfrenta na política.

“Eu me deparo toda hora com preconceito. Um preconceito por ser uma mulher, por ser negra, por ser pobre e principalmente porque sou de um partido socialista e revolucionário.”
Vera Lúcia

Na imagem, Vera Lúcia e Hertz Dias
Em 2018, Vera se juntou a Marina Silva (Rede) como as únicas mulheres negras a concorrerem à Presidência da República. Ao lado de Hertz Dias, presente na foto, integrou uma chapa totalmente negra [Imagem: Acervo pessoal]

Segundo Vera, as desigualdades também se manifestam na disputa eleitoral, desde a falta de recursos para campanhas até a ausência em debates e o menor tempo de propaganda nos meios de comunicação. “Nós não recebemos os mesmos recursos para disputar as eleições, ou seja, nós não temos as mesmas condições materiais”, disse.

A candidata relaciona essas experiências às condições enfrentadas pela própria classe trabalhadora. Para ela, a eleição reproduz desigualdades que ultrapassam o período eleitoral: “Na eleição eu vivo aquilo que a classe trabalhadora vive todos os dias, que é a opressão permanente e a luta permanente por melhores condições de vida e de trabalho”. Sua identidade como mulher negra, então, aparece articulada à trajetória de trabalhadora e militante, em uma leitura que também incorpora o combate ao racismo e ao machismo como parte da luta política.

[Imagem de capa: Acervo pessoal]


*Esta reportagem foi realizada pela repórter Maju Pinheiro sob a supervisão da diretora de redação Gabriella dos Santos

Na imagem, a régua do especial de eleições 2026 da J.press

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