Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br)
Décadas atrás, James Dean acendia um cigarro em “Juventude Transviada” e Uma Thurman fumava com displicência em “Pulp Fiction” – cenas que ajudaram a consolidar o cigarro como símbolo de rebeldia e charme no imaginário do século XX. Hoje, é Hailey Bieber quem representa essa estética: a modelo se tornou o rosto do cigarro nas redes sociais, uma cigarette girl, ao posar com um para a Interview Magazine. O casamento da cantora Dua Lipa seguiu a mesma linha, com cigarros distribuídos nas mesas da recepção para os convidados. Entre celebridades e ícones pop, o cigarro deixou de ser tratado como vício e voltou a ser tratado como estilo. Essa mesma lógica parece ecoar entre a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012).
Para a psicóloga Viviane Lahorgue, esse movimento não é novidade: “hoje em dia, houve um retorno ao ato de fumar como lifestyle. Não importa se é tabaco ou outra coisa. É uma volta à idealização do fumar como transgressão. E a transgressão tem um quê de fascinante”, explica.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no entanto, mostram um cenário diferente do que essa estética sugere. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 feita pelo instituto, a experimentação de cigarro tradicional entre escolares de 13 a 17 anos caiu de 22,6%, em 2019, para 18,5%, em 2024. O uso recente do produto (nos 30 dias anteriores à pesquisa) recuou de 6,8% para 5,6% no mesmo período. À primeira vista, os números parecem desmentir a ideia de um “retorno do tabagismo” entre os mais jovens.
A queda do cigarro tradicional não significa, porém, o fim do hábito de fumar entre a Geração Z, apenas uma mudança de forma. A pesquisa também revela que a experimentação de cigarro eletrônico (CE) entre adolescentes quase dobrou no período, passando de 16,8% para 29,6%. Enquanto o cigarro convencional perde espaço, esse novo produto parece sustentar, entre os mais jovens, o mesmo imaginário de transgressão que atravessa décadas de história do tabagismo.
O cigarro eletrônico e o mito do “mais seguro”
Parte da popularidade do CE se apoia na promessa feita pela indústria de que o dispositivo seria uma alternativa menos nociva para quem já fuma e não consegue parar. Segundo o médico João Paulo Lotufo, coordenador do projeto antitabágico do Hospital Universitário da USP, a promessa não se confirma na prática. “Quem fuma o cigarro eletrônico tem de cinco a seis vezes mais nicotina no organismo do que quem fuma o cigarro tradicional”, afirma. Para ele, o problema vai além da dependência: a inflamação pulmonar, a pneumonia gordurosa causada pelas essências utilizadas nos líquidos e as substâncias cancerígenas presentes no vapor também representam riscos à saúde do usuário.
Um dos casos mais graves envolvendo CE aconteceu nos Estados Unidos. Entre o verão de 2019 e fevereiro de 2020 o país registrou 68 mortes e mais de 2800 internações por insuficiência respiratória relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos. Tal quadro ficou conhecido como EVALI, E-cigarette or Vaping Use-Associated Lung Injury (lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou vaporizador).
Lotufo lembra que a chegada da Covid-19 dificultou o diagnóstico de novos casos. A inflamação pulmonar causada pelo Coronavírus, segundo ele, até foi confundida com a inflamação provocada pela própria EVALI.

Para o médico, a associação entre cigarro e glamour se adaptou à modernidade. “É só assistir o filme do Oscar com Leonardo DiCaprio [Uma Batalha Após a Outra] e ver quantas cenas com CE existem”, observa, ao comentar o papel da indústria cinematográfica na normalização do hábito. Na avaliação dele, cenas como essa, hoje, aparecem sem julgamento, associadas a personagens admirados, e reforçam, indiretamente, a ideia de que o hábito é comum e sem grandes consequências.
“O cigarro eletrônico está para os jovens de hoje como o cigarro tradicional estava para nossos pais ou avós. Modismo, marketing agressivo, rebeldia…”
– Dr. João Paulo Lotufo, médico pediatra
Cultura pop, redes sociais e pertencimento
Se o cinema cumpriu o papel de normalizar o cigarro no passado, hoje essa função cabe, com mais intensidade, às redes sociais, segundo a psicóloga Viviane Lahorgue. Para ela, a lógica de consumo rápido de conteúdo, típica das redes sociais, intensifica esse processo: “As pessoas não têm mais paciência de ver um filme. O que está no TikTok é mais rápido, está na mão. Você vê o que te interessa e já passa para o próximo.” Nesse cenário, basta que uma figura admirada apareça fumando para que o gesto vire referência, “se ali quem é legal está fumando, eu quero ser igual aquela pessoa”, resume e cita o caso da cantora Sabrina Carpenter, que, recentemente, apareceu com um cigarro no clipe da música “House Tour”.

A psicóloga afirma que esse tipo de exposição não depende de um incentivo explícito, uma breve aparição fumando já cumpre essa função. “O influenciador tem o papel de influenciar, transformar a vida das pessoas a partir da sua própria”. É justamente a associação com uma imagem, não com um discurso explícito, que torna eficaz essa exposição entre os mais jovens.
A busca por identificação, segundo Lahorgue, está diretamente ligada à busca por diferenciação em relação à família e por aceitação entre os pares, processo típico da adolescência. Para ela, o uso de cigarro entre jovens costuma ser tratada, de forma equivocada, como resultado da influência de terceiros, como se amigos tivessem “desencaminhado” o adolescente. Na avaliação da psicóloga, essa leitura inverte a ordem dos fatos, visto que é o próprio jovem que busca pertencer a determinado grupo e, por isso, passa a adotar os comportamentos associados a ele.
“Estar pertencente significa fazer parte de uma comunidade. Isso é importante para todo mundo.”
– Viviana Lahorgue, psicóloga
Apesar da força desse imaginário nas redes sociais, o médico João Paulo Lotufo pondera que ele não corresponde ao comportamento da maioria dos jovens brasileiros. Dados do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) mostram que apenas 11,7% da população brasileira é fumante, percentual apurado a partir de uma amostra de 16.608 pessoas – tal amostra representa o país de forma estratificada, dividida por regiões geográficas, estados e porte dos municípios, além do grau de urbanização de cada área.
Já o uso atual de cigarro eletrônico, embora mais frequente entre os mais jovens, também está distante de ser majoritário: 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos relataram uso no ano de 2023. Números que, para o médico, mostram que a exposição constante a essa estética não se traduz, necessariamente, em consumo generalizado. “É natural que o jovem o faça mais, mas não é todo mundo que usa”, resume.
Caminhos de prevenção
Diante desse cenário, Lotufo defende que as medidas de prevenção devem começar antes mesmo da adolescência, dentro de casa e da escola. Ele chama atenção para o fato de que “pais ou amigos fumantes são a porta aberta para que os filhos experimentem, brincando, e virem dependentes”, afirma. Para ele, aconselhamentos breves na família e programas contínuos de prevenção nas escolas são medidas capazes de, pelo menos, retardar a experimentação.

Para Lahorgue, no entanto, estratégias tradicionais precisam se adaptar à linguagem da Geração Z para serem eficazes. “Para atingirmos tal população, devemos utilizar a linguagem deles”, afirma. Na avaliação da psicóloga, a eficácia de uma campanha depende menos do conteúdo do alerta e mais de ela ser compreendida pelo receptor.
No entanto, a mudança de linguagem não substitui a necessidade de acompanhamento mais próximo por parte de escolas e famílias – um ponto em que ambos convergem, ainda que a partir de abordagens diferentes. Uma age de maneira mais estrutural, apoiada em programas tradicionais, outra fica mais atenta aos códigos culturais que fazem a mensagem ser compreendida pelos jovens.
*A capa desta matéria usa uma imagens editadas do Wikimedia Commons, Oxfordian Kissuth, Harald Krichel, Georges Biard e Museum Rotterdam

