Por Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br)
A Semana do Jornalismo teve início na manhã desta segunda-feira (21) com Carlos Tramontina. Dono de uma carreira de mais de quatro décadas, sendo 24 anos como âncora do telejornal local de São Paulo na Rede Globo (SPTV 2ª edição), o jornalista conversou com os alunos sobre sua trajetória profissional e o cenário da profissão. A palestra foi mediada por Fernando Silvestre e Victória Guedes, diretores do Núcleo de Eventos da Jornalismo Júnior.
A abertura do evento contou com discursos do professor Wagner Souza e Silva, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), e de Luana Riva e Bernardo Medeiros, presidente e vice-presidente da Jornalismo Júnior. Eles oficializaram o início da Semana do Jornalismo, organizada pela empresa, que completa 22 anos na próxima quarta-feira (23), e anunciaram a entrada do convidado.
‘6 e ônibus’
Antes das perguntas se iniciarem, os diretores de Eventos apresentaram brevemente a história de Carlos Tramontina que, além de toda carreira na emissora Globo, também é autor de três livros e participou de podcasts e projetos digitais. Eles, claro, também citaram uma das marcas mais memoráveis de Tramontina na televisão: o meme “6 e ônibus”.
A brincadeira serviu de gancho para um ponto que foi muito salientado pelo jornalista durante o começo da palestra: a forma como as imagens passaram a ser compartilhadas de maneira que o proprietário não as tenha mais sob o próprio controle. “A gente não é mais dono da nossa imagem; ela é usada, manipulada e utilizada por outros como querem”, relata.
A primeira pergunta foi sobre o que o motivou a seguir a carreira do jornalismo e como ingressou no mercado de trabalho. Tramontina contou que o interesse pela área começou ainda na infância devido ao hábito de leitura que possuía e que, desde cedo, também percebeu facilidade para escrever e falar em público. Para ele, a leitura ocupa um papel central na formação profissional. “Leitura é a mãe de tudo que a gente faz”, afirmou.
Durante a faculdade, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), ele conciliou os estudos com diferentes experiências profissionais. No primeiro ano, trabalhou na biblioteca da instituição e, posteriormente, no terceiro e quarto ano de curso, na Volkswagen. Seu objetivo inicial era trabalhar na Folha de S.Paulo, mas a trajetória tomou outro rumo quando conseguiu um estágio de três meses na TV Globo e foi contratado. Disse também que permaneceu por tanto anos na empresa porque gostava tanto das condições de trabalho, quanto das amizades que fez lá — ainda que a rotina permanecesse a mesma por tantos anos. “Não mudei porque tinha bom salário para me manter, boas condições de trabalho e fiz grandes amigos”, conta.
O jornalista contou que, após o afastamento necessário da redação durante a pandemia do Covid-19, se viu com novos objetivos e aspirações. Relatou que sua saída da emissora ocorreu de maneira muito amigável e partiu dele próprio, no primeiro semestre de 2022.

Após decidir deixar a emissora, ele explorou novos universos do campo da comunicação como o Freedom Project, da CNN, e os podcasts Portas Abertas e Tramonta News, dos Estúdios Flow. Tramontina detalhou que demorou para se adaptar ao formato “conversa” que o modelo Podcast exige, já que trabalhou por muitos anos escrevendo e lendo na TV, e que no começo escrevia toda a entrada dos programas.
Mesmo assim, não abandonou o hábito de anotar e mostrou um caderno que constantemente atualiza com pesquisas utilizadas durante seus trabalhos e projetos e alguns recortes de jornais diversos que considera importantes e não quer esquecer. “Eu nunca deixei de fazer minhas pesquisas, minha ‘lição de casa’”, falou.
Nesse novo momento da carreira, Tramontina disse que se considera mais um comunicador do que um jornalista, especialmente por realizar trabalhos que não seriam compatíveis com a atuação de um profissional vinculado a uma emissora, como, por exemplo, realizar campanhas publicitárias.
A necessidade de surpreender
Ao falar sobre o momento atual da imprensa, Tramontina afirmou que o jornalismo vive uma de suas maiores crises. Para ele, o desafio está na disputa de atenção com as diferentes plataformas que podem oferecer informações ao público de maneira quase imediata. Segundo o jornalista, uma das principais preocupações nos tempos de Antena Paulista, era de não repetir as “mesmas coisas” da abertura do programa na semana anterior.
Na sua opinião, os telejornais costumam ser muito dependentes das informações provenientes de manifestações oficiais ou de figuras de autoridade e suas declarações. Ele considera necessário encontrar maneiras de apresentar os acontecimentos de forma que despertem o interesse do espectador e, como exemplo, citou o caso que ocorreu em 2000, quando o então governador de São Paulo, Mário Covas, foi agredido fisicamente por professores da rede estadual que estavam em greve.

A busca pela novidade, no entanto, ele ressaltou, não significa deixar de lado a relevância. Tramontina explicou que, quando decidia o que deveria entrar no jornal, considerava quatro aspectos: o que é novo, o que é importante, o que mexe com o público e o que possui significado na vida das pessoas. Para ele, essa preocupação também está relacionada à própria sobrevivência do Jornalismo.
“Um dos desafios que a imprensa tem hoje é de reconquistar a atenção do público, e uma das formas de fazer isso é surpreendendo.”
Carlos Tramontina
Entre a velocidade e a apuração
O jornalista também comentou as mudanças provocadas pela pandemia no consumo de informação. Para ele, o período consolidou diferentes alternativas para a obtenção de notícias e obrigou veículos tradicionais, especialmente a televisão, a se adaptarem a um público que havia mudado seus hábitos. Apesar das dificuldades, ressaltou que a crise não diminui a importância da profissão: “A turbulência não tira a relevância do Jornalismo”.
A transformação na forma de consumir notícias modificou o trabalho das redações e o telejornal passou a enfrentar o desafio de oferecer algo além da notícia inicial. Tramontina destacou que, nesse cenário, é necessário entregar a informação mais completa possível ao espectador. Ainda que, em sua opinião, um dos principais desafios seja conseguir entregar informações de qualidade mesmo diante da pressão por velocidade que a profissão exige.
Ele frisou que, mesmo com o tempo limitado, o jornalista precisa preservar etapas fundamentais do trabalho como apuração, correção, explicação e a busca pelo outro lado da história. “O nosso objetivo é contar da maneira mais próxima possível da realidade como as coisas ocorreram”, afirmou.
A construção da credibilidade
Na parte final da palestra, Tramontina respondeu às perguntas dos estudantes que foram desde a relação entre jornalismo e influenciadores digitais até a sua relação com a credibilidade que construiu ao longo da trajetória e os caminhos para quem pretende seguir a profissão.
Ao ser perguntado sobre influenciadores digitais, ele questionou a escolha de determinadas pessoas como fontes de informação apenas pela quantidade de seguidores ou pelo alcance que possuem nas redes. Para o jornalista, a credibilidade é construída ao longo do tempo e está relacionada à responsabilidade com que o profissional trabalha. Quanto à questão do sensacionalismo, ressaltou que, para surpreender o público, não se deve recorrer ao sensacionalismo — ou seja, não se deve buscar provocar uma emoção ou resposta exagerada diante de determinado fato.
Questionado sobre como se preparar para uma entrevista, explicou que busca conhecer não apenas o trabalho atual do entrevistado, mas também sua trajetória e as transformações em seu pensamento ao longo do tempo.
Ao final, o jornalista resumiu parte do que considera necessário para a formação de um bom profissional: escrever e pensar bem, ser curioso, ouvir e estar disposto a aprender — além de uma dose de sorte. Também destacou a importância da paciência e de compreender que um acontecimento pode ter mais de uma explicação.
“Toda história tem mais de uma forma de ser contada.”
Carlos Tramontina
*Foto de capa: Júlia Berlim








