Por Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br)
A Semana do Jornalismo teve início na manhã desta segunda-feira (21) com a mesa “Uma vida no ar: Jota conversa com Carlos Tramontina”. Dono de uma carreira de mais de quatro décadas, o jornalista contou para os alunos sua história. A palestra foi mediada por Fernando Silvestre e Victória Guedes, diretores do núcleo de Eventos da Jornalismo Júnior.
A abertura do evento — que é patrocinado por Editora Unifesp, Summus Editorial, Jota, Quatro Cinco Um, Elle e Copiadora do Crusp — teve discursos do professor Wagner Souza e Silva, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), e de Luana Riva e Bernardo Medeiros, membros da presidência da Jornalismo Júnior, que oficializaram o início da Semana.
‘6 e ônibus’
Os diretores de Eventos apresentaram Carlos Tramontina que, além de toda carreira na emissora Globo, também é autor de três livros e participou de podcasts e projetos digitais. Eles também citaram uma das marcas mais memoráveis de Tramontina na televisão: o meme “6 e ônibus”.
A brincadeira serviu de gancho para abordar como imagens se tornaram compartilháveis sem que o proprietário as tenha sob controle. “A gente não é mais dono da nossa imagem; ela é usada e manipulada por outros como querem”, relata.
Em seguida, o primeiro questionamento da mesa foi sobre a motivação dele para seguir a carreira do jornalismo e seu ingresso no mercado. Tramontina contou que o interesse pela área começou na infância, devido ao hábito de leitura e a facilidade que tinha em escrever e falar em público.
Durante a graduação na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), conciliou os estudos com diferentes experiências profissionais. Trabalhou na biblioteca da instituição e na Volkswagen. Seu objetivo inicial era atuar na Folha de S.Paulo, mas a os planos tomaram outro rumo quando conseguiu um estágio na TV Globo. Foi contratado e lá permaneceu por anos. Apesar da rotina inalterada, conta que permaneceu na empresa pois “tinha bom salário, boas condições de trabalho e grandes amigos”.
Após afastamento da redação durante a pandemia do Covid-19, se viu com novos objetivos e aspirações. Relatou que sua saída da emissora, em 2022, ocorreu de maneira amigável e partiu dele próprio.
Ao deixar a emissora, Tramontina explorou novas possibilidades na comunicação, como o Freedom Project, da CNN, e os podcasts Portas Abertas e Tramonta News, dos Estúdios Flow. Ele afirmou que demorou para se adaptar ao formato “conversa” de podcast, já que, por muitos anos, leu e escreveu para a TV.
Nesse novo momento da carreira, se considera mais um comunicador do que um jornalista, especialmente por realizar trabalhos que não são compatíveis com a atuação vinculada a uma emissora, como realizar campanhas publicitárias.
A necessidade de surpreender
Carlos Tramontina afirmou que o jornalismo vive uma de suas maiores crises. Para ele, o desafio é a disputa de atenção com as diferentes plataformas que oferecem informações ao público de maneira quase imediata. Na época de Antena Paulista, ele se preocupava com não repetir o que foi dito no programa anterior.
De acordo com o jornalista, telejornais são muito dependentes de informações provenientes de manifestações oficiais ou de figuras de autoridade. Ele considera necessário encontrar maneiras de apresentar os acontecimentos de forma interessante para o espectador. Como exemplo, citou o caso ocorrido em 2000, quando o então governador de São Paulo, Mário Covas, foi agredido fisicamente por professores da rede estadual em greve.
A busca pela novidade no anúncio da noticia, no entanto, não significa deixar de lado a relevância. Tramontina explicou que, quando decidia o que deveria entrar no jornal, considerava quatro aspectos: o que é novo, o que é importante, o que mexe com o público e o que possui significado na vida das pessoas. Para ele, essa preocupação está relacionada à sobrevivência do Jornalismo.
Entre velocidade e apuração
O jornalista comentou as mudanças provocadas pela pandemia no consumo de informação. Para ele, o período consolidou diferentes alternativas para o acesso a notícias e obrigou veículos tradicionais a se adaptarem a um público com hábitos distintos. Apesar das dificuldades, “a turbulência não tira a relevância do Jornalismo”, defende.
Tramontina destacou que, nesse cenário, é necessário entregar a informação mais completa possível ao espectador, apesar da pressão por qualidade e velocidade. Mesmo com o tempo limitado, o jornalista deve preservar etapas fundamentais, como apuração, busca pelo outro lado e revisão do texto.
A construção da credibilidade
Na parte final da palestra, Tramontina respondeu a perguntas dos estudantes. Elas envolveram: relação entre jornalismo e influenciadores digitais, sensacionalismo e caminhos para quem pretende seguir a profissão.
O jornalista defendeu que fontes não devem ser escolhidas com base em quantidade de seguidores ou por alcance nas redes, mas por credibilidade construída com tempo e ressaltou também que não se deve recorrer ao sensacionalismo para surpreender o público. Ao final, resumiu o que considera necessário para a formação de um bom profissional: boa escrita e escuta, curiosidade, disposição para aprender, paciência — e sorte.
“Toda história tem mais de uma forma de ser contada.”
Carlos Tramontina
*Imagem de capa: Júlia Berlim/Jornalismo Júnior










