Por Maju Pinheiro (majupínheiro@usp.br)
Um sintetizador é capaz de reproduzir o som de um piano, de um violino, de uma bateria ou de criar frequências que nunca existiram na natureza. Em um único instrumento, diferentes frequências se encontram para formar novas possibilidades sonoras. São Paulo parece funcionar da mesma maneira. Entre avenidas e ruas que permanecem acordadas quando boa parte da cidade já dorme, a metrópole combina pessoas, culturas e identidades distintas para produzir um ritmo próprio. É nessa mistura que, ao longo das últimas décadas, a música eletrônica ajudou a redefinir não apenas a noite paulistana, mas também a maneira como a metrópole é vivida por quem a ocupa.
Antes de São Paulo
As transformações tecnológicas do século 20 redefiniram a maneira de fazer música. O engenheiro e músico norte-americano Robert Moog, por exemplo, em 1964, inventou o sintetizador modular a partir de osciladores elétricos que produziam sons, com intermédio de um teclado.
Inicialmente restritos a estúdios e centros de pesquisa, os sintetizadores ganharam projeção quando a compositora Wendy Carlos gravou, em 1968, o álbum Switched-On Bach, reinterpretando obras de Johann Sebastian Bach inteiramente com um sintetizador Moog. O disco, que se consolidou como um dos mais vendidos de todos os tempos, também comprovou o sucesso dos sintetizadores, que ultrapassaram o universo da música, chegando até o cinema. Em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), do diretor Stanley Kubrick, Wendy Carlos adaptou eletronicamente composições clássicas para a trilha sonora.

Do rock de Pink Floyd ao pop de David Bowie, diferentes artistas passaram a incorporar sintetizadores às suas produções. Mas até que essas novas sonoridades cruzassem o Atlântico e encontrassem espaço nas pistas brasileiras, havia um oceano de distância — não apenas geográfica, mas também cultural e comercial.
Em uma época em que discos, equipamentos e informações dependiam de importações, o que chegava ao Brasil desembarcava de forma fragmentada, muitas vezes nas bagagens de DJs (disc jockeys, em inglês, que significa operador de discos). Sem internet e com raras lojas onde era possível comprar discos e revistas importadas, boa parte do público generalizava tudo aquilo que soava eletrônico, que recebia o rótulo de “techno”.
Inspiradas nas discotecas do tempo de guerra francês, as casas noturnas chegam até Nova Iorque, em um contexto de resistência da população negra e latina LGBTQIA+. Surge, então, a cultura ballroom — nos bailes, marcados por desfiles e batalhas de dança, identidade, arte e moda se cruzavam, funcionando como um ambiente de acolhimento e liberdade especialmente para drag queens e mulheres trans.

É na capital paulista, porém, que a música eletrônica deixa de ser simplesmente “techno” para se desdobrar em estilo de vida. A partir do fim dos anos 1980 e, principalmente, ao longo da década de 1990, endereços como Nation, Hell’s Club e Sound Factory espalharam-se por diferentes regiões de São Paulo.
Quando a cidade virou pista
Para o jornalista, DJ e pesquisador musical Camilo Rocha, essa conexão entre São Paulo e a música eletrônica não aconteceu por acaso. Segundo ele, a capital sempre foi uma cidade receptiva às influências vindas de fora. Assim como ocorreu anteriormente com o rock e, mais tarde, com o hip hop, a música eletrônica encontrou uma metrópole multicultural, aberta à circulação de novas referências culturais. “Os estilos vieram muito influenciados pela Europa e pelos Estados Unidos. Depois, o Brasil desenvolveu uma identidade própria”, afirmou.
Mas não foi apenas a abertura cultural que aproximou São Paulo da música eletrônica. A própria dinâmica da cidade ajudou a moldar a cena. Marcada pelo ritmo acelerado de trabalho e pela intensidade da vida urbana, a capital criou uma demanda por espaços de escape.
“É uma cidade da correria. Existe muito essa lógica do work hard, play hard: as pessoas trabalham intensamente e procuram lugares onde possam viver essa intensidade de outra forma”
Camilo Rocha
Há também uma dimensão estética nessa relação. Para Camilo, cidades grandes e industriais costumam estabelecer uma afinidade particular com a música eletrônica. Não por acaso, alguns dos principais polos do gênero surgiram em centros urbanos como Berlim, Chicago e Detroit — esta última considerada o berço do techno. São cidades marcadas por paisagens industriais, concreto, fábricas e um ritmo urbano intenso, características que também fazem parte da identidade paulistana.
Música como comunidade
Em seu livro Bate-estaca: como DJs, drag queens e clubbers salvaram a noite de São Paulo (Veneta, 2024), Camilo defende que a cena eletrônica paulistana foi construída por uma rede de pessoas que encontraram na noite um espaço de convivência, criatividade e pertencimento. Na Rua Augusta, mais precisamente no Nation Disco Club, a “montação” — gíria que deriva do universo das travestis de rua — também fazia parte das pistas, e passou a significar um modo de se vestir mais extravagante ou fashion.

Numa época em que a expressão “GLS” — Gays, Lésbicas e Simpatizantes — ainda fazia parte do vocabulário para designar espaços de diversidade, a pista de dança tornava-se um dos poucos lugares onde era possível experimentar outras formas de existir. Foi no Nation, também, que DJs como Mau Mau, Mauro Borges e Renato Lopes introduziram a eletrônica como algo maior que um gênero musical: com discos que vinham de fora, novos comportamentos, estéticas e formas de sociabilidade foram criadas. Nas palavras de Mauro Borges, em trecho de Bate-estaca, “a experiência de ser gay sempre precisou do clube”, relacionando a noite não só com o lazer, mas também com identidade.

Em 1985, o Conselho Federal Medicina (CFM) deixou de considerar a homossexualidade como desvio sexual, resultado da pressão de movimentos por direitos gays. Entretanto, a epidemia da AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), marcada por uma cobertura midiática frequentemente sensacionalista, reforçou estigmas e alimentou discursos preconceituosos que associavam a infecção exclusivamente à população homossexual.
A cidade passa a notícia
Sem redes sociais, a própria comunidade era responsável por manter a cena viva. As informações circulavam de forma quase artesanal: pela oralidade, por panfletos distribuídos em bares, lojas de discos e outras festas, ou entre DJs e frequentadores que compartilhavam novidades sobre a programação da semana.

À medida que os clubbers, como ficaram conhecidos os frequentadores das casas noturnas, ganhavam força na cidade, eles também começaram a conquistar espaço na imprensa. Na década de 1990, a coluna de Erika Palomino na Folha de S.Paulo passou a registrar os personagens, as festas e os comportamentos que definiam a noite paulistana, o que contribuiu para apresentar esse universo a um público mais amplo.
Em paralelo, surgia o RRaurl que, em 1997, foi criado como um site de divulgação despretensiosa da cena eletrônica brasileira, iniciativa que partiu do próprio Camilo Rocha, juntamente com o DJ Gil Barbara e a jornalista Gaía Passarelli. “Eu tinha acabado de voltar da Inglaterra, e já tinha visto a internet como um veículo de comunicação alternativo. Naquela época, com a internet ainda muito nova, era algo meio revolucionário”, contou Camilo.
Mais tarde, surgiu a preocupação de documentar essa revolução de música, cultura e comportamento: “A gente estava muito preocupado com o presente. Mas lembro que chegou um momento em que comecei a achar que a galera precisava colocar o ano nos flyers. Você pegava o convite de uma festa, via o dia e o mês, mas não fazia ideia de que ano aquilo tinha acontecido”, explicou.
Entre identificação e tendência
Hoje, a lógica de circulação das festas é outra. Para Camilo Rocha, as redes sociais e os influenciadores passaram a desempenhar um papel importante na divulgação de novos espaços. Casas como o Iccarus, no centro de São Paulo, e festas realizadas no topo do Edifício Martinelli ganharam grande visibilidade a partir da repercussão em perfis especializados e criadores de conteúdo. “As redes sociais e os influenciadores têm um papel enorme de ajudar a promover esses lugares”, de acordo com o entrevistado.
O escritor, porém, faz uma distinção entre visibilidade e pertencimento. Segundo ele, enquanto as redes ampliam o alcance da cena, elas também atraem um público motivado apenas pela novidade. “A essência de uma cena underground é que você tem uma certa fidelização. As pessoas vão porque acreditam naquele movimento, fazem parte daquela subcultura, da identidade delas”, explica. Para Camilo, parte dos frequentadores que chega pelas redes sociais busca conhecer “o lugar do momento” e, quando surge outro espaço em evidência, simplesmente migra para ele. “É mais um interesse pela novidade do que pelo envolvimento com a cultura que está em torno daquilo”, resumiu.
Da mesma forma, nem sempre a música eletrônica é associada aos protagonistas negros, latinos e LGBTQIA+ que a construíram. Ao longo dos anos, a popularização do gênero contribuiu para consolidar uma imagem frequentemente associada a raves clássicas, com DJs homens, brancos e heterossexuais. Para a DJ e produtora de conteúdo Isabella Lopes, conhecida como Dona Sucos, esse imaginário acaba invisibilizando as minorias que ajudaram a criar e manter a cena desde suas origens. Para ela, enquanto travesti, discutir representatividade também significa resgatar e ocupar esses espaços.
“Aquele discurso de que já existem DJs demais, e que precisamos de mais gente dançando, eu concordo em partes. Mas existem homens brancos, cisgêneros e DJs demais. A gente precisa de mais diversidade”
Dona Sucos

Ontem e hoje
Mais de três décadas depois da consolidação da cena clubber paulistana, a pista de dança continua em movimento — mas passou a disputar espaço com a lógica do mercado. Para Camilo Rocha, clubes e festas precisam encontrar uma forma de manter sua essência sem abrir mão da sustentabilidade financeira. “No final das contas, pagar as contas pressiona qualquer negócio”, afirmou.
Atrair novos públicos e manter a identidade da cena, no entanto, não depende apenas da iniciativa privada. Camilo defende que o poder público também desempenha um papel importante na manutenção da cultura noturna. Cidades como Berlim, Amsterdã e Londres compreenderam que a música eletrônica não representa apenas entretenimento, mas também patrimônio cultural, turismo e desenvolvimento econômico. Em São Paulo, segundo ele, a lógica ainda privilegia os grandes eventos. “É uma visão muito empresarial. Você apoia a grande festa no Anhangabaú, mas não fomenta a base da cena”, explicou.

A visão é compartilhada por Dona Sucos. Para ela, reconhecer oficialmente a música eletrônica como patrimônio cultural só faz sentido se esse reconhecimento vier acompanhado de incentivo à cena. “Sim, até porque é cultura, é lazer. Essas coisas são essenciais para a vivência humana também”, declarou.
À medida que regiões antes alternativas passam a despertar o interesse do mercado imobiliário, bares, clubes e espaços culturais dão lugar a novos empreendimentos. O processo, que marcou a transformação da Rua Augusta, pode repetir-se em bairros como a Barra Funda, hoje um dos principais polos da vida noturna paulistana.





