Jornalismo Júnior

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Dia 01 | A Feira do Livro 2026: Entre livros e encontros, o evento chega a São Paulo

Em sua quinta edição, o festival gratuito reúne leitores, escritores e editoras na maior feira literária a céu aberto

Por Maju Pinheiro (majupinheiro@usp.br)

Iniciada no último sábado (30), a Praça Charles Miller, no Pacaembu, recebe a maior Feira do Livro de São Paulo. Ao longo dos nove dias de programação gratuita — de 30 de maio a 7 de junho — o espaço se divide em três palcos, tablados literários e tendas, onde acontecem atividades que vão de sessões de autógrafos a podcasts ao vivo. 

Realizado pela Associação Quatro Cinco Um, pela Maré Produções e pelo Ministério da Cultura, a feira conta com a presença de mais de 160 expositores, os quais abordam diferentes temas, como literatura, política, cultura e jornalismo, e garantem opções para todos os gostos.

A diversidade também se reflete no público, que reúne famílias, crianças, jovens, e até animais de estimação que circulam pelos espaços do evento. Para facilitar o acesso dos visitantes, vans gratuitas conectam a estação de metrô Paulista ao Pacaembu e incentivam o uso do transporte público. 

O mundo todo é Brasil

Para além de autores e autoras brasileiras, o festival conta com participações internacionais, como a de Tracy Mann. Nova-iorquina e escritora, ela lançou um livro de memórias sobre seus anos baianos, quando viveu a cena cultural de Salvador, na Bahia, ao lado de Gilberto Gil e Dominguinhos.

Na mesa Enquanto Corria a Barca, com a mediação de João Paulo Cuenca, discutiu-se O mundo todo é Bahia (Laranja Original, 2026), a mais nova obra de Tracy, que, com seu sotaque estadunidense, contou sobre sua vida no Brasil, em Nova Iorque e o mundo que há entre eles.

Estudante do Berklee College of Music, Tracy chegou até a Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursou um seminário. A música, então, cercou sua vida por todos os lados: descobriu a sanfona ao conviver com Dominguinhos, juntamente das letras que escreveu para Gilberto Gil.

Tracy Mann se emocionou ao lembrar de Preta e Pedro, filhos já falecidos de Gilberto Gil [Imagem: Divulgação / Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro]

Ao mesmo tempo em que vivia a efervescência cultural da Bahia, enfrentou os anos de chumbo da ditadura cívico-militar brasileira, que se somavam à sua condição de imigrante — Tracy temia não conseguir renovar seu visto de estudante. Preocupada em deixar o Brasil, foi Gil que a acalmou: “Não se preocupe tanto em deixar a Bahia para trás. O mundo todo é Bahia, Tracy”. Foi ali que Tracy entendeu que a Bahia não era necessariamente um lugar físico, mas sim uma vivência, um sentimento que traz dentro de si. 

Quando questionada sobre o motivo de escrever um livro de memórias, Tracy revelou desejar que elas ficassem, de certa forma, vivas: “Ao recontá-las eu mantenho elas vivas em mim e no mundo.”

Mais do que literário

Entre as diferentes mesas que passaram pelo primeiro dia da Feira do Livro, esteve a Folha na Praça — programação especial promovida pela Folha de São Paulo —, na qual os jornalistas Gabriela Biló e Eduardo Scolese compartilharam os bastidores de quem está na linha de frente da cobertura política. Quando a introduziu, Paulo Werneck, idealizador  e coordenador do evento, destacou que o mundo do livro tem uma forte ligação com o mundo do jornalismo: “A Feira do Livro também é um festival de jornalismo”.

Com mediação da jornalista Flavia Lima, o debate teve como ponto de partida os livros Juízo Final (Fósforo, 2026), de Gabriela Biló, e 1461 Dias na Trincheira (Autêntica, 2025), de Eduardo Scolese. No Palco da Praça, os três discutiram os anos do governo de Jair Bolsonaro  e o que esse período significou para o jornalismo brasileiro.

Segundo Scolese, editor de Poder na Folha de S.Paulo, um dos episódios mais emblemáticos da cobertura política em Brasília ocorreu quando os principais veículos de comunicação foram impedidos de permanecer na portaria do Palácio da Alvorada. Ao longo do mandato, a imprensa testemunhou um agravamento das hostilidades, que passaram de ataques verbais a casos de agressão física. 

Gabriela Biló, Eduardo Scolese e a mediadora Flavia Lima
[Imagem: Divulgação / Terebi/ A Feira do Livro]

A questão da neutralidade jornalística também entrou em debate. Para Biló, seu fotojornalismo defende sua perspectiva do mundo. Questionada se isso não serviria de argumento para aqueles que acusam o jornalismo de partidarismo, ela respondeu que seu viés é sempre a democracia. “Se defender isso é me descredibilizar, então estou sendo descredibilizada do jeito certo”, disse.

Às vésperas do início do governo Bolsonaro, Scolese foi convidado a assumir a editoria de Política da Folha de S.Paulo, desafio que ganharia uma nova dimensão com a chegada da pandemia. A partir dali, o tema da saúde mental passa a existir na redação dos jornais, reflexo presente no livro de Scolese que funciona como um registro histórico do cotidiano sob Bolsonaro.

Flavia ainda relembra de quando Biló se envolveu em uma grande controvérsia. Com uma fotografia feita com a técnica de múltipla exposição, foi acusada de manipulação ao sobrepor o presidente Lula, recém-eleito, a uma imagem do vidro que golpistas estilhaçaram ao invadir o Palácio do Planalto. Na época, Biló respondeu que o fotojornalismo é arte, e arte pode incomodar.

“Fotojornalismo pode ser arte, a depender da sua intenção, e arte é intencional. Fotojornalismo é futurologia. Hoje, quando olhamos e pensamos em tudo que aconteceu naquele momento, que Lula tinha um plano de assassinato em curso, a foto nunca foi tão precisa”
Gabriela Biló

A conversa destacou o preço da democracia: a constante vigilância. O período Bolsonaro os preparou para cobrir épocas em que a própria democracia é colocada em risco. Flavia Lima destacou que essa situação pode voltar a ocorrer caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente neste ano. Biló então recordou uma fotografia tirada durante as Jornadas de Junho de 2013, em que um cartaz dizia: “não haverá retorno ao normal”. “Era premonitório. Não houve”, disse. 

*  [Imagem de capa: Divulgação / Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro]

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