Por Helena Brambilla (helenacbrambilla@usp.br)
Com o boom do TikTok, as redes sociais se tornaram importantes ferramentas capazes de criar trends, que são formatos de vídeos que regem tendência do mercado. Elas podem ser músicas, vídeos e até danças. A nova trend do momento é empreender. Seguindo o novo padrão, influenciadoras como Manuela Cit, 22 anos, e Antonella Braga, 17 anos, se destacam como as novas jovens empreendedoras da internet.
Um estudo feito pelo Panorama PME Brasil, em 2025, mostra que os jovens da Geração Z já representam 11% dos fundadores das PMEs (Pequenas e Médias Empresas) brasileiras.
Segundo o relatório do MindMiners, feito com mais de 4 mil brasileiros, as características dessa geração e seus anseios são marcados por uma identidade fluida e empreendedora. Eles se diferenciam das outras gerações ao se relacionarem com as marcas. Os Baby Boomers, por exemplo, cresceram no período do pós-Segunda Guerra Mundial e tiveram o seu consumo impactado pela industrialização e o otimismo. Enquanto a Gen Z, que corresponde a 1.082 dos entrevistados, tem o consumo baseado em trends do mundo digital.
Além disso, uma pesquisa feita com alunos da Faculdade de Economia, Administração, Contábeis e Atuariais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (FEA PUC-SP) concluiu que os jovens são estimulados a se desenvolverem pessoalmente e profissionalmente, pois a evolução tecnológica acelera o aprimoramento intelectual e empreendedor. Segundo o estudo, a Gen Z busca formas mais rápidas de crescer e alcançar independência financeira e encontra no empreendedorismo a saída mais comum para realizar seus anseios.
Em entrevista à J.Press, Liz Minto, bacharel em Business/Commerce pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), bacharel em Administração pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) e Empreendedorismo e o jovem digital, explicou a razão dos jovens da Geração Z têm optado por empreender.
J.Press – Existem fatores sociais, políticos ou econômicos que levam uma geração a empreender? Quais seriam eles?
Liz Minto – Com certeza. Um dos principais fatores sociais é o avanço da internet e das tecnologias digitais, que transformaram a forma como os jovens enxergam suas possibilidades de futuro. Antes, a comparação era limitada ao círculo próximo, como colegas de escola, familiares ou vizinhos. Atualmente, o jovem se compara com pessoas do mundo inteiro, tendo contato com diferentes modelos de carreira, estilos de vida e, inclusive, formas de construir riqueza. Essa ampliação de referências permite visualizar possibilidades que antes pareciam distantes ou inacessíveis.
No Brasil, esse fenômeno é intensificado por fatores como a desigualdade social, a falta de oportunidades e os desafios de ascensão por meio do trabalho. Nesse cenário, existem jovens que empreendem por necessidade, buscando uma alternativa de geração de renda, enquanto outros empreendem por oportunidade, motivados pela exposição a novos exemplos de empreendedores e pela visão de que o empreendedorismo pode transformar suas trajetórias pessoais e profissionais, tornando possível a construção de riqueza e dos seus próprios sonhos.
Embora a política tenha um papel relevante no desenvolvimento econômico e social de um país, muitos jovens passaram a perceber que não podem depender exclusivamente das estruturas existentes para construir seu futuro. O modelo tradicional de carreira, baseado em trabalhar por muitos anos e depender da aposentadoria pelo sistema previdenciário, passa a ser questionado por uma geração que busca maior autonomia, flexibilidade e possibilidade de crescimento financeiro. Esse movimento também é influenciado pelas mudanças demográficas do Brasil, com o envelhecimento da população e os desafios futuros relacionados ao equilíbrio entre o número de pessoas aposentadas e a quantidade de jovens economicamente ativos contribuindo para o sistema.
J.Press – A Geração Z já representa 11% dos fundadores de pequenas e médias empresas no país. Existem impactos econômicos futuros que podem ser acarretados pela ampla quantidade de empreendedores ou o aumento do empreendedorismo entre os jovens é um fenômeno passageiro?
Liz – Acredito que o aumento do empreendedorismo entre os jovens não seja um fenômeno passageiro, mas o início de uma transformação estrutural. Dado que os pequenos empreendedores desempenham um papel fundamental na economia, sendo responsáveis pela geração de empregos, pelo pagamento de impostos, pela circulação de renda, pela inovação e pela criação de riqueza. Quanto maior a capacidade de criar e desenvolver negócios sustentáveis, maiores tendem a ser os impactos positivos no crescimento econômico e no desenvolvimento social do país a longo prazo.
J.Press – Essa nova forma de pensar e empreender também transforma a maneira como essa geração constrói relações profissionais e pessoais? Se sim, de que maneira isso ocorre?
Liz – Sim. Essa nova forma de pensar e empreender transforma tanto as relações profissionais quanto as pessoais. Valores como autonomia, propósito e ambição passam a orientar as decisões dessa geração, desenvolvendo características como resiliência, responsabilidade, visão de longo prazo e maior maturidade. Empreender exige dedicação, consistência e capacidade de lidar com incertezas, o que acelera o desenvolvimento pessoal e profissional.
Ao mesmo tempo, essa jornada costuma ser mais solitária do que uma carreira tradicional, o que também influencia a forma como os jovens constroem seus relacionamentos. Alguns passam a buscar parceiros que compartilhem objetivos e estilos de vida semelhantes, enquanto outros optam por adiar ou redefinir prioridades pessoais para focar na construção do negócio.
“Em ambos os casos, o empreendedorismo tende a impactar não apenas a carreira, mas também a forma como essa geração se relaciona, organiza seu tempo e projeta seu futuro.”
Liz Minto
J.Press – Na sua opinião, o empreendedorismo virou um ideal romântico para a Gen Z, ou existe maturidade suficiente para lidar com o fracasso quando ele chega?
Liz – Na minha opinião, o empreendedorismo se tornou uma alternativa para aqueles que se recusam a aceitar um modelo tradicional de carreira que, para muitos jovens, já não faz mais sentido. Ele representa a possibilidade de mudar de vida, conquistar autonomia e construir riqueza por meio da própria capacidade de criar, vender e gerir um negócio. Por isso, acredito que ele tenha se tornado muito mais do que uma tendência: é uma escolha de vida para uma geração mais inconformada e ambiciosa.
No entanto, isso não significa que o empreendedorismo deva ser romantizado. Empreender exige persistência, resiliência, disciplina e capacidade de aprender continuamente. O fracasso faz parte desse processo e, muitas vezes, é justamente ele que desenvolve as habilidades necessárias para construir um negócio de sucesso. Por isso, acredito que o empreendedorismo não seja para qualquer pessoa, mas para aqueles que possuem um alto nível de inconformismo diante do status quo, disposição para assumir riscos e determinação para continuar mesmo diante das dificuldades para construir algo de longo prazo.
J.Press – Existe alguma diferença perceptível na forma como a Geração Z lida com questões financeiras do negócio, como fluxo de caixa, crédito e planejamento tributário, em comparação com empreendedores de gerações anteriores? Quais são as principais diferenças e semelhanças?
Liz – Sim. A principal diferença está na democratização do acesso ao conhecimento. A internet, a tecnologia e, mais recentemente, a inteligência artificial facilitaram o aprendizado e a execução, deixando a Geração Z com mais ferramentas para aprender e executar esses processos com rapidez.
Além disso, as redes sociais aproximam os jovens de empreendedores que já percorreram essa trajetória, tornando esse conhecimento mais acessível do que para as gerações anteriores, inclusive por meio de conteúdos gratuitos no YouTube, Instagram e TikTok. Os fundamentos da gestão financeira permanecem os mesmos. Independentemente da geração. A diferença está na velocidade e na facilidade com que a Geração Z consegue acessar esse conhecimento e aplicá-lo na prática.
J.Press – Como o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, tão valorizado por essa geração, dialoga com as exigências e sacrifícios que normalmente o empreendedorismo impõe?
Liz – Acredito que exista um conflito natural entre essas duas realidades. Embora a Geração Z valorize o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, empreender exige, principalmente no início, um nível de dedicação, consistência e sacrifício muito maior do que uma carreira tradicional. Por isso, muitos jovens estão dispostos a abrir mão desse equilíbrio no curto prazo para conquistar maior liberdade, qualidade de vida e segurança financeira no longo prazo, inclusive para construir e sustentar uma família.
Ao mesmo tempo, acredito que seja fundamental que o empreendedor não percorra essa jornada sozinho. Buscar a troca de experiências com outros empreendedores e consumir conteúdos de pessoas que vivem uma realidade semelhante é essencial para aprender com quem já enfrentou desafios parecidos e evitar o isolamento, que é muito comum nessa trajetória. A família também faz parte desse processo, compartilhando os sacrifícios e, posteriormente, os frutos das conquistas. Essa ordem pode variar de pessoa para pessoa, mas acredito que ter clareza sobre as próprias prioridades é indispensável para sustentar uma jornada empreendedora de longo prazo.
J.Press – O estudo da MindMiners descreve a Geração Z como uma geração de identidade fluida, que se relaciona com marcas de forma diferente das anteriores e consome fortemente influenciada por trends digitais. Você concorda com essa afirmação? Como essas mesmas características se manifestam quando esses jovens estão empreendendo?
Liz – Sim, concordo. A Geração Z é a primeira geração que cresceu em um ambiente altamente conectado, no qual as redes sociais influenciam comportamentos, consumo e a forma de se comunicar. Isso faz com que essa geração seja mais aberta a mudanças, teste novas ideias com mais rapidez e tenha uma relação mais dinâmica tanto com marcas quanto com negócios.
Quando empreendem, essas características também ficam evidentes. Os jovens tendem a construir marcas mais autênticas, próximas da comunidade e alinhadas a propósito e valores, além de utilizarem as tendências digitais como ferramentas e oportunidades para validar e escalar produtos, comunicar suas marcas e se conectar com o público.
J.Press – Na prática, você percebe essa tecnologia mais como uma ferramenta que qualifica esses empreendedores ou abre espaço para pessoas sem conhecimento prévio abrirem seus negócios e se frustrarem?
Liz – Acredito que as duas situações acontecem ao mesmo tempo, mas o saldo é muito mais positivo do que negativo. A tecnologia democratizou o acesso ao conhecimento e reduziu significativamente as barreiras para empreender. Hoje, qualquer pessoa pode aprender sobre gestão, marketing, vendas, finanças e operação por meio da internet, da inteligência artificial e de conteúdos gratuitos produzidos por especialistas e empreendedores experientes.
Por outro lado, essa facilidade também faz com que muitas pessoas iniciem um negócio acreditando que empreender é simples ou que os resultados serão rápidos, sem compreender os desafios envolvidos. “A tecnologia abre portas, mas ela não substitui disciplina, capacidade de execução, consistência e aprendizado contínuo.”Ela qualifica quem está disposto a aprender e evoluir, mas não elimina a necessidade de desenvolver competências para construir um negócio sustentável no longo prazo.
Imagem de capa: Reprodução/ Pexels



