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Avanço da extrema direita ameaça democracias mundiais 80 anos após o fim da Segunda Guerra

Especialistas explicam de que forma o extremismo político se consolidou durante o século 20 e como ele é colocado em prática atualmente no Brasil e no mundo
Por Gabriela César (gabriela.oliveiracesar@usp.br)

Em setembro de 2025, completaram-se 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial – marcado pela rendição do Japão, após o lançamento de duas bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e de Nagasaki. Embora o conflito tenha ocorrido no século passado, seus impactos continuam reverberando até hoje, especialmente no campo político. Diante disso, surge uma reflexão: o mundo e, especialmente o Brasil, enfrenta, atualmente, uma nova onda de extremismo político?

Contexto Histórico Mundial

Anteriormente à deflagração da Segunda Guerra Mundial, a Europa testemunhou o surgimento de novas correntes políticas em seus territórios. De acordo com Valter Duarte, ex-professor titular de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Itália não obteve todos os territórios que havia reivindicado no Tratado de Versalhes, assim como enfrentava uma forte instabilidade política interna, impulsionada pelo crescimento da classe operária ligada ao Partido Socialista Italiano (PSI).

Desse partido, surge um dissidente socialista crucial para a história política: Benito Mussolini. O italiano diverge do PSI ao adotar uma postura fortemente nacionalista e, em 1921, funda o Partido Nacional Fascista (PNF). Segundo Duarte, o partido se apresenta inicialmente como a defesa do direito de usar a violência sem restrições. “O fascismo não oferece uma solução teórica nem um planejamento, é uma solução em busca de uma ordem política. Tem até como slogan algo muito curioso, ‘me ne frego’, que em tradução significa ‘pouco me importa’ – isso é o que caracteriza o fascismo de fato”, afirma.

Além do fascismo, a Europa também assistiu ao surgimento do nazismo alemão, com a fundação do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, em 1920. Duarte destaca que, diferentemente do fascismo alemão, os nazistas possuíam a questão racial como fundamento central de sua ideologia. Para isso, ele explica que os alemães buscaram fundamentar a discriminação racial por meio de experimentos científicos.

Benito Mussolini, líder da Itália fascista, e Adolf Hitler, líder da Alemanha nazista, firmaram uma aliança militar durante a Segunda Guerra Mundial [Imagem: Reprodução/ Wikipedia]

Outra corrente política da época foi o socialismo soviético, que se estabeleceu no Leste Europeu após a ascensão do Partido Comunista da União Soviética, os bolcheviques, e a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1922

César de Albuquerque, pesquisador sobre a URSS na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica que muitos historiadores classificam como totalitário o período em que Joseph Stalin liderou a URSS, de 1924 a1953. Isso porque o Estado buscava exercer um controle quase completo sobre a vida dos cidadãos por meio de forte vigilância, censura e repressão violenta.

“As experiências autoritárias ao longo do século 20 se aproximam mais pelo seu modus operandi comum do que por sua filiação ideológica. Tivemos regimes autoritários de direita (Alemanha Nazista, Itália Fascista ou mesmo os regimes militares latino-americanos) e de esquerda (URSS, países do leste-europeu, China, Coréia do Norte)”, destaca Albuquerque.

Brasil no século 20

Assim como os países europeus, o Brasil também participou da Segunda Guerra Mundial. Everaldo Andrade, professor de História Contemporânea na FFLCH, afirma que a América Latina entrou no conflito porque todas as principais potências que controlavam o mercado econômico estavam envolvidas, inclusive o Eixo (aliança militar formada, principalmente, por Alemanha, Itália e Japão) que iniciou a guerra em busca de um protagonismo econômico que não possuía.

Na época, segundo Andrade, o governo brasileiro era liderado por Getúlio Vargas, que demorou a decidir a aliança do país no conflito. Apesar disso, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, em 1942, cerca de 25 mil homens brasileiros se voluntariaram para lutar na Força Expedicionária Brasileira (FEB) – entre eles, civis e militares.

Visita do então presidente Getúlio Vargas a soldados da FEB durante embarque para a Itália [Imagem: Reprodução/ Wikipedia]

Antes mesmo da guerra, o Brasil já importava ideologias europeias, como o fascismo, representado pela Ação Integralista Brasileira (AIB) – extinta por Vargas em 1937. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) também é anterior à guerra, tendo sido fundado em 1922, sob influência da vitória bolchevique no território russo.

Andrade afirma que a derrota do Eixo só foi possível com o apoio da URSS, que se industrializou com a Revolução Russa. A vitória soviética sobre o nazi-fascismo, então, fortaleceu as esquerdas mundiais, que passaram a se mobilizar mais em busca de direitos sociais.

Nesse período, a ditadura do Estado Novo, liderada por Vargas, chega ao fim e uma nova Constituição é promulgada em 1946. Nela, foram restaurados direitos suprimidos, como o fim da censura e da pena de morte, a independência dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e o direito ao voto – com exclusão de analfabetos.

De 1945 a 1975, ocorre um avanço no desenvolvimento econômico e social mundial, denominada por alguns historiadores como os “Trinta (anos) Gloriosos”, conforme destaca Andrade. Apesar da evolução brasileira nos direitos individuais e questões econômicas no período, o professor explica que essa fase termina em 1964, com o golpe de Estado realizado pelos militares.

Para o historiador, a substituição da democracia por um governo extremista ocorreu pelo incômodo da burguesia brasileira diante dos avanços de políticas públicas de caráter social, especialmente as Reformas de Base propostas pelo então presidente João Goulart.

“Durante crises econômicas, quando a democracia liberal falha, as ditaduras aparecem.” 

Everaldo Andrade

Mas, afinal, o que é extremismo político?

Não há consenso entre os cientistas políticos e historiadores sobre o que é, de fato, extremismo político. Para Duarte, “o extremista é aquele que quer chegar ao direito de agir sem nenhuma contenção, sem nenhum impedimento, sem nenhuma resistência.”

Já Pedro Lima, professor de Ciência Política da UFRJ, explica que a ideia de extremismo político sugere a existência de dois polos opostos, com campos moderados entre eles – o que pressupõe uma equivalência entre o que seria a extrema esquerda e a extrema direita. “Acho que essa é uma interpretação, no mínimo enviesada, para não dizer equivocada mesmo”, ressalta.

Albuquerque, por outro lado, explica que “um país politicamente extremista seria aquele em que o sistema político adota posições ideológicas mais radicais e que rejeitam os princípios tradicionais da democracia, como o pluralismo e a tolerância política”.

Para Everaldo Andrade, o autoritarismo é o governo que exerce sua força de maneira violenta, antidemocrática, sem consenso e com repressão. Ele destaca que o extremismo político em si não é necessariamente negativo. Por exemplo, um grupo considerado extremista que defende direitos sociais para todos, em sua visão, é positivo. Andrade esclarece que o extremismo se torna ruim quando este passa a exercer um governo autoritário sobre outros.

Redemocratização brasileira

Após o fim de 21 anos de Ditadura Militar no Brasil, foi promulgada uma nova Constituição Federal, em 1988. Também chamada de Constituição Cidadã, o novo texto constitucional ampliou as liberdades civis e os direitos individuais perdidos durante o regime militar.

Desde então, o Brasil vivenciou diferentes momentos políticos e, recentemente, percorreu o debate público se o país enfrentava uma crise em sua jovem democracia. Essa dúvida se tornou ainda mais potente após os ataques realizados ao Congresso Nacional, ao Palácio do Planalto e ao Supremo Tribunal Federal (STF), em 8 de janeiro de 2023.

Pedro Lima argumenta que, atualmente, o que se observa não é um aumento do extremismo político em geral, tanto no Brasil quanto no cenário internacional, mas sim uma ascensão particular da extrema direita. “A emergência da extrema direita no Brasil faz parte de um padrão mais amplo, em que esse grupo ganha posições no Leste Europeu, na Polônia, na Hungria e depois nos  próprios países da Europa Ocidental, como a Itália”, afirma.

Hoje considerado ‘criminoso’, o partido grego neonazista Aurora Dourada já foi a terceira maior liderança política do país [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

De acordo com Lima, na conjuntura política brasileira, a extrema direita emergiu em um contexto que ele classifica como  “golpe de Estado”, quando foi derrubada uma presidente legitimamente eleita – Dilma Rousseff. “Nesse contexto caótico de um golpe de Estado, seguido pela ascensão de um presidente ilegítimo e mal avaliado, como foi o caso de Michel Temer, cria-se um panorama que possibilita a emergência de atores não convencionais, como Jair Bolsonaro.”

O cientista político define a extrema direita como um pensamento que tende a ser autoritário, anti-igualitário, conservador, defensor de hierarquias sociais e políticas e, por vezes, até fascista. Além disso, ele entende que a extrema direita possui um ímpeto para desestabilizar as regras do jogo político e, por isso, é inconciliável com a democracia.

O historiador Everaldo Andrade também concorda que hoje ocorre uma ascensão da extrema direita política, tanto no Brasil quanto no mundo. Em sua opinião, a crise econômica de 2008 demorou para chegar ao Brasil pelas políticas públicas e pelas reformas sociais realizadas nos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva. Essas políticas sociais causaram incômodo em setores econômicos mais privilegiados da sociedade, que decidiram promover o que chama de “um golpe parlamentar” contra a então presidente Dilma Rousseff.

Ele complementa que a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro é a representação do crescimento do extremismo político no Brasil. Para Everaldo, essa extrema direita se apropria de discursos sociais delicados que atingem a população, como a legalização do aborto, para desviar o foco de assuntos de verdadeira relevância.

O ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por golpe de Estado, entre outros crimes [Imagem: Reprodução/Wikipedia]

Em entrevista à Jornalismo Júnior, a escritora e jornalista Patrícia Campos Mello, conhecida por realizar reportagens a respeito de um sistema de disparo de mensagens em massa utilizado para favorecer Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, afirma que a extrema direita mundial se apropria do ressentimento dos eleitores e incita neles a percepção de que são injustiçados para angariar seguidores. 

“O discurso extremista engaja muito. Ele gera emoções fortes, então ele ganha maior alcance com os algoritmos nas redes sociais. Por isso que vemos que a extrema direita tem muito sucesso nas mídias digitais de formas orgânicas, com pessoas que estão voluntariamente engajadas e compartilhando esse tipo de discurso, de teoria conspiratória, de discurso raivoso”, destaca.

Autora do livro A Máquina do Ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital (Companhia das Letras, 2020), Patrícia explica que o uso das redes sociais tiveram papel importante nos episódios de ataque ao  Capitólio nos Estados Unidos, em 2021, e contra os Três Poderes no Brasil, em 2023. Segundo ela, essas plataformas foram usadas para amplificar teorias da conspiração, discursos de ódio, radicalização e mobilizar multidões contra instituições democráticas.

Consequências da ascensão da extrema direita

O historiador César de Albuquerque analisa que o extremismo político e o fortalecimento de discursos autoritários representaram o fortalecimento do ódio e da violência, seja ela institucional ou mesmo entre os agentes da sociedade, sobretudo ao longo de experiências históricas durante o século 20. 

“A ausência de tolerância, a interdição ao debate e a reflexão livre normalmente acarretam na negação do outro e da alteridade (em seu ápice, levando à sua eliminação inclusive física), limitando o desenvolvimento individual e da sociedade como um todo”, destaca Albuquerque.

Pedro Lima, por outro lado, ressalta que a extrema direita atual possui como característica intrínseca o negacionismo à ciência, associado à rápida difusão de informações nas redes sociais. Em sua visão, esse mecanismo político afeta a população de maneira geral, pois abala a própria instituição democrática.

“O meio é a luta política, é ocupar os espaços, sejam eles físicos ou virtuais. E travar essa luta que é uma luta política, uma luta de persuasão mesmo. Fazer as pessoas voltarem a acreditar em coisas que são básicas, como a consciência de classe”, esclarece Pedro sobre formas de combater a conjuntura política atual.

Em relação à eleição presidencial de 2026, Patrícia acredita que ela será muito radicalizada, com forte influência do governo americano para emplacar um candidato que seja alinhado ao presidente norte-americano Donald Trump. Ela também ressalta a importância de tornar o Marco Civil da Internet (MCI), de 2014, inconstitucional pelo STF, para possivelmente aumentar a responsabilização das redes sociais.

O Marco Civil da Internet é a legislação brasileira que normatiza os direitos e deveres para o uso da internet no Brasil. No entanto, o artigo 19 da lei só permitia que redes sociais fossem responsabilizadas judicialmente se descumprissem uma ordem da justiça para remover conteúdo online. O STF considerou, em junho de 2025, essa regra parcialmente inconstitucional, por entender que ela não protege adequadamente os direitos fundamentais e a democracia, mas o acórdão segue sem publicação.

“Uma das justificativas do 8 de janeiro foi que as redes sociais diziam possuir regras de uso que impediam incitação à violência e, na realidade, vimos que essas regras de uso eram aplicadas de uma forma totalmente aleatória e fraca. Então, talvez isso melhore com uma maior responsabilização pela mudança da legislação, mas eu acredito que esse tipo de radicalização online continua tendo uma força muito grande e que será um ponto muito importante na eleição de 2026”, analisa Patrícia.

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