Por Mariana Pontes [mariana.kpontes@usp.br]
Dois discos fonográficos foram lançados às mãos de uma possível vida extraterrestre em 1977, ao enviar uma breve mensagem terrestre com amostras de sons, músicas e imagens da vida humana. Acoplados às sondas Voyager, os Discos de Ouro utilizaram uma ideia emprestada das Placas das Pioneers 10 e 11, um projeto menos ambicioso ao somente retratar a posição relativa do Sol na galáxia, um átomo de hidrogênio neutro e um homem e uma mulher nus – informações posteriormente recicladas nos discos.


Aproveitando um raro alinhamento dos planetas para seus lançamentos, as sondas espaciais Voyager 1 e 2, após 48 anos, continuam a explorar além dos limites do Sistema Solar. Pelo alcance da missão, Carl Sagan e Frank Drake e outros colaboradores, aceitaram o desafio de criar uma síntese do planeta Terra, que serviria como uma apresentação a quem a encontrasse.
Para isso, utilizaram discos de cobre banhados em ouro de 30 cm de diâmetro, com uma amostra de urânio-238 (o qual possui uma meia-vida de 4.468 bilhões de anos). “Tem até um dispositivo de datação. Os elementos radioativos decaem de acordo com taxas de decaimento bem específicas. Então, pelo decaimento do urânio-238, daqui a um, dois, dez milhões de anos vai ser possível datar quando o projeto foi feito”, esclarece Roberto Costa, professor associado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP).
Por humanos, sobre humanos, para…
As instruções para a leitura dos discos encontram-se em suas capas. Além de tocar sons naturais da Terra, saudações e músicas no tempo correto de uma rotação (3,6 segundos), os discos também “tocam” imagens, que devem ser construídas a partir de uma série de 512 linhas verticais.
Outros elementos presentes na capa são: o mapa de pulsares, que indica a localização do sistema solar, sendo que o comprimento de cada linha representa a distância de um pulsar (núcleo remanescente de uma supernova, até o Sol), e um diagrama de um átomo de hidrogênio.

“Por mais que o projeto tenha sido concebido para ser entendido por qualquer inteligência, é claro que ele carrega uma conotação muito antropocêntrica. Ele foi feito por humanos, partindo de hipóteses que para nós fazem sentido, mas o universo é imensamente vasto”, afirma o professor Roberto Costa.
Ele adiciona ainda que, caso os discos sejam encontrados, é mais provável que uma inteligência não humana entenda somente que o artefato tenha sido construído por outra criatura inteligente, e não seus conteúdos.
Essa realidade está muito presente no imaginário da humanidade acerca da possibilidade de vida extraterrestre e de sua forma. Roberto exemplifica que, em grande parte das ficções, a imagem do arquétipo do alienígena continua sendo bípede, com a simetria bilateral dos seres humanos e seus membros, mas que a inteligência extraterrestre poderia tomar qualquer caminho.
Poeira para debaixo do tapete
A história por trás da curadoria feita para a seleção das informações é contada pelo próprio Sagan em seu livro Murmúrios da Terra, que explora também reflexões sobre a comunicação interplanetária e a preservação da história da Terra.
No fim, foram escolhidas 115 imagens, diferentes sons e músicas da Terra, além de saudações em 55 idiomas ao universo. Duas cartas impressas, escritas pelo Presidente Jimmy Carter e pelo Secretário-Geral das Nações Unidas,Kurt Waldheim, também foram incluídas.

A triagem realizada tinha o objetivo de ser o mais informativa possível. As imagens apresentam a estrutura do ampliada do DNA, um violino e sua partitura, a anatomia humana, entre outros. Os 90 minutos musicais apresentam uma coleção global, com produções de diferentes países e épocas. Os sons captados vão de um beijo a trens, chuvas e hienas. As saudações não foram instruídas a nenhuma fala específica, somente que deveriam ser algum tipo de breve cumprimento a possíveis extraterrestres.
Esse trabalho de sintetizar, em um curto período de tempo, “o que é a Terra”, inevitavelmente carrega o viés cultural e histórico dos participantes. “Se pessoas do outro lado do mundo tivessem feito isso, com certeza a coleção não seria a mesma, seria diferente”, aponta Roberto.
Tudo apontado pelos Discos de Ouro como essencial na descrição do planeta-casa e seus moradores (não só humanos, mas todos os elementos aqui presentes) é direcionado à evolução e aspectos positivos. Assim, essa atitude é considerada esperada: “Eu acho que a ideia desse disco é mostrar imagens, sons, trazer informações que reflitam a ideia de uma casa arrumada. Sujeira vai ter, é claro. É a nossa natureza, não tem como evitar. De novo, isso diz bastante sobre nós, sobre a nossa maneira de nos expressarmos para os outros”, diz o professor.
De acordo com Jandira Neto, doutora em História Comparada pela UFRJ e vice-presidente do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), “os Discos de Ouro da Voyager estão mais para uma pirâmide egípcia, que exaltam o planeta Terra como um lugar maravilhoso, do que para um sítio arqueológico real, aquele que contém a essência ancestral da humanidade”.

vistos da órbita da Terra, com a composição química de sua atmosfera anotada [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
É destacado pela arqueóloga que os sítios arqueológicos são resultados da ocupação diária das pessoas que habitaram aquele lugar, pois, segundo ela, eles são feitos do lixo do cotidiano, rejeitado aleatoriamente. Ou seja, é do âmago humano a vontade de ser conhecido e lembrado da melhor forma possível quando se tem a preocupação de enviar uma mensagem para o futuro ou para outros.
“A gente sempre arruma a casa quando vai receber visita”
Roberto Costa
A mensagem na garrafa (além do mar)
Um dos debates iniciais envolvendo os Discos de Ouro era acerca de seu objetivo: tratava-se de uma espécie de cápsula do tempo ou de uma tentativa de contato com uma vida extraterrestre?
Em primeiro lugar, o professor do IAG destaca que “a possibilidade de ser encontrada é muitíssimo pequena e o tempo para isso acontecer, muito grande”. “Não importa o nível de tecnologia que uma civilização tenha, o dispêndio energético para se deslocar de uma estrela para outra é muito grande. Isso teria que valer muito a pena em termos de energia”, complementa.
Entretanto, traz à discussão os exoplanetas (planetas que orbitam estrelas diferentes do Sol). Atualmente, há um número crescente de 5.800 exoplanetas catalogados, explica Roberto Costa. De acordo com ele, a Via Láctea contém entre 200 a 400 bilhões de estrelas e, se cada uma delas possuísse de 15 a 20 corpos capazes de, teoricamente, abrigar algum tipo de vida, existiriam mais de um trilhão de corpos com potencial para hospedar alguma evolução biológica – ainda que a probabilidade da existência de uma vida microbiana seja muito maior do que a de uma vida inteligente.
“Será que não tem nada? Nós somos uma exceção tão exceção assim? Eu acho isso estaticamente improvável”.
Roberto Costa

Estabelecido, assim, que a chance de os discos serem encontrados é extremamente pequena, a atenção de todos volta-se à cápsula do tempo, comparada com a prática de escrever um bilhete, colocá-lo dentro de uma garrafa e jogá-la ao mar, na esperança de que alguém a encontre. “Em um certo momento, o gerador vai se esgotar e aí sim ela vai ser exatamente a garrafinha jogada no oceano”, comenta o professor.
O projeto, inerentemente, revela muito sobre os desejos dessa missão. Roberto Costa evidencia que os cientistas ansiavam por “aparecer, sinalizar alguma coisa, estamos aqui” e por trazer um catálogo o mais completo possível de informações que gostariam que fosse perpetuado e congelado no tempo.
“Em um olhar histórico, o livro O Gene Egoísta, de Richard Dawkins, mostra que os seres vivos nada mais são do que máquinas de sobrevivência de DNA. Mas eu acredito que as habilidades humanas são potencializadas a partir de novas experiências e invenções, e o interesse em que os resultados continuem sendo úteis à sociedade sempre está lá. O desejo dos cientistas mencionado de imortalizar o conhecimento se relaciona com esse anseio de querer que nossos filhos preservem nosso patrimônio e nossas ideias, talvez uma derivação cultural dessa necessidade de sobrevivermos na memória dos outros depois que nos formos”, menciona Jandira Neto.
Não é a primeira vez que a humanidade manifesta, na criação de projetos, sua vontade de ser lembrada e seu legado – e não apenas em relação às Placas das Pioneers. A arqueóloga Jandira Neto aponta que a própria construção das já mencionadas pirâmides por diversas culturas, ou de outros relicários, busca eternizar a informação ali guardada ou o autor do feito.
Atenciosamente, Terra
“Durante todo o projeto Voyager, todas as decisões foram baseadas na suposição de que havia dois públicos para os quais a mensagem estava sendo preparada: aqueles que habitam a Terra e aqueles que existem nos planetas de estrelas distantes”. Essa frase está presente no livro Murmúrios da Terra e pertence a Linda Salzman Sagan, participante do projeto, o que evidencia a ambiguidade de seu objetivo.
O professor Roberto Costa acredita que a maior chance de esses discos serem encontrados em um futuro distante é por humanos, pois são os que possuem os dados do curso e velocidade das sondas, consequentemente, caso não haja nenhum imprevisto, sua localização. Ele afirma que o encontro dessa cápsula, daqui a milhares de anos, pode trazer o mesmo tipo de informação que a descoberta do túmulo do faraó Tutancâmon trouxe em 1922.
“Ainda que os Discos de Ouro não sejam tocados durante sua jornada de bilhões de anos, o empreendimento do projeto Voyager nos lembra quem somos, de onde viemos e que devemos tratar a Terra e uns aos outros com cuidados”
Simonetta Di Pippo
A arqueóloga Jandira Neto comenta sobre seu receio quanto ao que poderá ocorrer caso outras civilizações encontrem os discos: “As representações enviadas pela Voyager nos mostram como seres muito atraentes, sociáveis e dóceis. Particularmente, tenho um pouco de medo de que esses discos sejam encontrados por seres nada amistosos e sermos devorados como formigas”.
Roberto Costa evidencia que essa hipótese já foi trabalhada, principalmente no livro O Problema dos Três Corpos, escrito por Cixin Liu, que questiona se vale a pena revelar a existência da humanidade para outras civilizações. O professor explica o que é debatido: “Pense aqui na Terra, nos contatos das civilizações tecnologicamente mais avançadas com civilizações menos avançadas. Qual é o exemplo clássico? Os europeus e os centro-americanos, os astecas, ou os sul-americanos, os incas. Passaram 50 anos, e os astecas desapareceram, os incas desapareceram de maneira trágica”.
“Uma civilização que conseguisse nos encontrar certamente seria tecnologicamente mais avançada que nós e sairíamos perdendo. É óbvio, também tem o aspecto antropocêntrico dessa história. Os outros, lá de fora, não precisam ser como os espanhóis do século XVI que fizeram faxina étnica lá com os astecas e com os incas”, complementa.
Os Discos de Ouro da Voyager seriam uma incrível descoberta e trariam muitos dados como cápsula do tempo ou como comunicação a uma vida extraterrestre, coloca o professor Roberto Costa. Ele ainda complementa: “Seria um trabalho para arqueólogos, é claro, estudar tudo o que estava lá”, trabalho esse feito pela arqueóloga Jandira Neto, que diz que “se eles forem tão cientistas como nós, com certeza [estudarão as características da humanidade terráquea]. Eu não deixaria passar nada”.
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