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Ditaduras latino-americanas no cinema: um papel de conscientização social

Filmes que retomam o período ditatorial na América Latina podem alertar e educar sociedades
Por Luana Sales Riva (luanariva06@usp.br)

O final do século 20 ficou marcado na história da América Latina pelos diversos regimes autoritários implantados nos países da região. A partir da associação entre exército e os Estados Unidos, golpes que culminaram em ditaduras militares afetaram diferentes países latino-americanos, dentre eles Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Guatemala e República Dominicana. A indústria cinematográfica tornou-se um local de representação deste momento histórico por meio de filmes emblemáticos como Ainda Estou Aqui (2024) e Argentina, 1985 (2022).

O cinema como produtor de memória

Falar sobre o período ditatorial já requer atenção, mas representá-lo exige ainda mais sensibilidade e cuidado por tratar-se de uma história real e complexa que impactou sociedades inteiras. O cinema, como elemento de representação moral, especialmente quando os temas estão ligados a eventos traumáticos, cumpre uma função de memória e de produtor de memória. 

Por admitir essa função perante a sociedade, os filmes que retratam as ditaduras na América Latina assumem papel de preservar a história e informar uma população que teve seu passado violentado. As diferentes produções cinematográficas mobilizam aspectos audiovisuais para atrair os olhos da sociedade latino-americana para um debate necessário referente ao esquecimento desses episódios.

Os atos de repúdio ao regime militar funcionam como mecanismos de resistência e preservação da memória de uma sociedade, junto do cinema [Imagem: Nathalia Verony/Flickr]

A temática é presente no cinema latino-americano contemporâneo e vem popularizando-se cada vez mais. A obra Ainda Estou Aqui (2024) conta a história de Eunice Paiva (Fernanda Torres), esposa do desaparecido deputado Rubens Paiva (Selton Mello), que foi assassinado em sessões de tortura. O longa retrata a angústia de Eunice após o marido ser levado pelos militares para depor e nunca mais voltar e o processo de reerguimento da esposa. 

O filme concorreu a diferentes categorias no Oscar 2025 e venceu a de Melhor Filme Internacional, rendendo o primeiro Oscar ao Brasil. Ainda Estou Aqui levou aos palcos da maior premiação do cinema uma narrativa marcada pelas cicatrizes deixadas pelo regime militar.

Outra produção do mesmo tema é Argentina, 1985 (2022), dirigida por Santiago Mitre, que é baseada na história verídica de Julio Strassera (Ricardo Darín), Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani) e sua equipe de jovens juristas. Eles foram os responsáveis por processar militares responsáveis pela ditadura na Argentina em 1985, episódio conhecido como Julgamento das Juntas.

O longa também concorreu a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2023. Este é mais um exemplo da mobilização que o cinema proporciona aos debates de responsabilização do passado e fortalecimento da memória. Nesse cenário, as histórias das ditaduras latino-americanas encontram visibilidade global.

O Julgamento das Juntas, retratado em Argentina, 1985, contou com os depoimentos de mais de 800 testemunhas, que foram registrados pelos mais de 500 jornalistas presentes [Imagem: Reprodução/IMDb]

Os anos de chumbo: filmes que retratam o autoritarismo na América Latina

As representações da ditadura militar na América Latina são múltiplas e complexas, o que revela as particularidades regionais de cada país no momento de transmitir para o cinema suas próprias histórias.

Em entrevista ao Cinéfilos, Fábio Monteiro, pesquisador do cinema latino-americano e Doutor em História Social e Cultura pela PUC-SP, afirma que as produções com essa temática se envolvem na defesa dos valores democráticos, na denúncia social das violações dos direitos humanos ou, ainda, se destinam à busca da solidariedade internacional por meio de grandes festivais e premiações.

Um dos filmes que cumpre as funções listadas por Fábio é A História Oficial (La Historia Oficial, 1985), dirigido por Luis Puenzo. A obra, vencedora do Oscar 1996 como Melhor Filme Internacional, faz uma denuncia ao regime militar na Argentina por meio da narrativa de Alicia (Norma Aleandro), uma professora de história que desconhece as barbáries cometidas durante a ditadura. No decorrer do longa, a personagem investiga esse passado que estava escondido e descobre todos os crimes cometidos contra os opositores, descoberta que impacta sua própria família.

Para Fábio, “a produção tornou-se uma referência em virtude da abordagem do rapto de crianças, que foi institucionalizado pela ditadura argentina”. No período, as mulheres consideradas subversivas, fora o risco de serem violentadas, tinham seus filhos raptados e colocados para adoção pelos militares. Esse cenário é trabalhado por Puenzo juntamente à famosa Manifestação das Mães na Praça de Maio, que ocorreu na Argentina e é retratada no filme.

As gravações de A História Oficial tiveram início no mesmo ano em que a ditadura militar argentina acabou; Por questões de segurança, a produção foi mantida em sigilo até sua estreia [Imagem: Reprodução/IMDb]

Outro longa que trabalha a dimensão da memória do período ditatorial na América Latina, em específico no Brasil, é Que Bom Te Ver Viva (1989), dirigido por Lúcia Murat, cineasta brasileira que participou do Movimento Estudantil e foi presa e torturada durante o regime militar.  O filme conta com depoimentos de oito mulheres que foram torturadas, combinando ficcionalização, com intervenções da atriz Irene Ravache, com registros documentais. 

A produção centra-se na figura da mulher e de como essas figuras enfrentaram as violências sofridas de diferentes maneiras. De forma geral, Lúcia Murat dá visibilidade às mulheres torturadas pela ditadura militar brasileira. Ainda hoje, “o filme segue como uma referência de denúncia das violações dos direitos humanos em solo brasileiro”, afirma Fábio.

O filme Que Bom Te Ver Viva foi feito dez anos depois da anistia, acordo que determinou a não punição dos generais que cometeram os crimes no regime militar brasileiro [Imagem: Reprodução/Instagram/@cloves_buckley]

Mais dois filmes que exploram a temática do autoritarismo na América Latina são A Guerra de Um Homem (One Man’s War, 1991), que retrata a perseguição de uma família durante a ditadura paraguaia, e Forgotten (Olvidados, 2013), que recorda as memórias de um ex-general do exército boliviano durante o regime autoritário. Ambas as produções exploram as pessoas vitimadas pela Operação Condor, organizada a partir do governo pinochetista no Chile em 1975.

“Todas essas obras ainda se mantêm de pé na história do cinema latino-americano, isto é, elas ainda são referências incontornáveis que mapeiam como o cinema pode ser um importante instrumento de conscientização social.”

Fábio Monteiro

Além das mencionadas, são diversas as obras cinematográficas que remetem à temática analisada. Algumas delas são: Uma noite de doze anos (La noche de 12 años, 2018), a trilogia de A Batalha do Chile (La Batalla de Chile, 1975), Batismo de Sangue (2006), Killing the Dead (Matar a un muerto, 2019) e A Passageira (Magallanes, 2015). Segundo Fábio, “um tema comum entre esses filmes é a representação dos mecanismos de repressão social colocados em prática pelos regimes ditatoriais latino-americanos.”

Batismo de Sangue, filme inspirado no livro homônimo de Frei Betto, foi indicado às categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Maquiagem no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, em 2009 [Imagem: Reprodução/IMDb]

A conscientização social por detrás das produções 

A América Latina é uma região diversa que enfrentou um processo de colonização característico e similar. No momento em que essa realidade encontra-se com a posição periférica do território no capitalismo, as produções artísticas que o envolvem tornam-se um campo de disputa entre movimentos sociais, grupos subalternos e as elites.

Em entrevista ao Cinéfilos, Tiago Salgado, Doutor em História pela PUC-SP, declara que o cinema é um instrumento das classes dominantes para construir ideologias políticas desde o século 20. “Com o avanço da modernização, outros grupos [que não a elite] também passaram a utilizar tais meios de comunicação como forma de conscientização e disputa política”, explica o entrevistado.

Ao considerar a temática dos regimes ditatoriais na América Latina, as produções cinematográficas, em especial a abordagem que elas fazem deste período, assumem um papel fundamental de conscientização social. Ainda que os filmes retratem de maneiras diversas o mesmo momento histórico em diferentes países, a função de atentar a sociedade sobre um passado não muito distante faz-se presente em todos.

“As obras são documentos do presente, que utilizam de histórias que marcaram o passado latino-americano como forma de conscientização contra o avanço de uma ameaça atual.”

Tiago Salgado

O Museum of Memory & Human Rights (Museu da Memória e dos Direitos Humanos), em Santiago, Chile, é dedicado às vítimas da ditadura chilena de Augusto Pinochet, que acabou há 35 anos [Imagem: Juan Bosco Hernández/Flickr]

Atualmente, frente aos avanços de movimentos conservadores e de extrema direita  — muitos abertamente fascistas —, obras como as mencionadas buscam alertar contra os perigos da chegada de forças sociais autoritárias ao poder. Eventos como os ataques de 8 de janeiro de 2023 no Brasil evidenciam como a narrativa dos filmes é presente e necessária.

Para Tiago Salgado, “não apenas filmes que reproduzem os períodos ditatoriais latino-americanos, mas também documentários, podcasts, exposições, toda essa produção que visa retratar os ‘anos de chumbo’, acabam por dizer muito sobre o tempo presente.”

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