Por Giovanna Martini (m.martini@usp.br) e Victória Guedes (victoria.guedes12@usp.br)
Celebrado no dia 31 de outubro, o Halloween é uma festa popular comemorada principalmente nos Estados Unidos (EUA). É festejado também em outros países, como no Brasil, onde é conhecido como Dia das Bruxas. A popularidade em território brasileiro se deu especialmente pela influência da crescente onda de filmes norte-americanos nos anos 1990.
O termo Halloween vem da expressão All Hallows’ Eve, nome dado, até o século 16, à véspera do Dia de Todos os Santos, celebrado em 1 de novembro. A palavra “hallow” significa “santo” em inglês antigo, enquanto “eve” quer dizer “véspera”. Assim como outras datas comemorativas, não se sabe ao certo a origem das celebrações do Halloween. Entre as versões mais conhecidas estão a católica e a celta, que, juntas, moldam a famosa festa do Dia das Bruxas que se celebra hoje.
O Samhain, antiga celebração celta considerada a festividade mais importante do ano durante o século 9, é conhecido como inspiração para as comemorações que vemos atualmente. O nome do festival vem do termo em celta e irlandês que significa “fim do verão”, e marcava a transição entre a metade do ano mais iluminada — da primavera e verão — e a metade menos iluminada — do outono e inverno.
Os celtas eram um povo pagão — ou seja, tinham forte ligação com a natureza e adoravam deuses romanos — e politeísta. A festa era comemorada por todas as suas comunidades na Europa, entre elas, na Irlanda, no País de Gales e na Escócia. O Samhain também marcava a preparação para o inverno. Nesse período, as pessoas se organizavam para garantir alimento durante o frio intenso, colhiam o que restava das plantações e reuniam os animais em currais para reprodução ou sacrifício. A celebração também era marcada por banquetes enormes e pelo consumo de bebidas alcoólicas.

Além da ligação do festival com a natureza, o Samhain, que era considerado o Ano Novo Celta, carregava um significado espiritual: relembrar e orar pelas almas daqueles que já partiram. Para eles, nessa data, o mundo dos mortos se tornava visível para os humanos e os deuses pregavam peças em seus adoradores mortais. Era um momento cercado de medo, superstição e relatos sobrenaturais.
Na religião, acreditava-se que os espíritos dos familiares falecidos visitavam as casas no dia 31 de outubro em busca de alimento e abrigo contra o frio. As pessoas se fantasiavam com máscaras e acendiam fogueiras para recepcioná-los. O povo pagão também construía uma grande fogueira para agradar os deuses e ajudar no processo regenerativo da agricultura como parte da festividade.
Mesmo com as semelhanças com a festa pagã, o Halloween de hoje, marcado por fantasias e um clima sombrio, carrega um significado muito diferente do sentido espiritual da antiga tradição. Ainda assim, a influência do Samhain na festa de 31 de outubro é nítida. Os personagens populares do Dia das Bruxas, como druidas, bruxas, fantasmas e duendes, são associados ao dia festivo atual em razão da celebração celta.
A influência cristã
Apesar de pouco conhecida, a origem do Halloween também tem ligação com o cristianismo. A escolha da data 31 de outubro está conectada à véspera da festa católica do Dia de Todos os Santos, que é uma homenagem da Igreja a todos os bem-aventurados do céu. Originalmente, a comemoração era no dia 13 de maio, mas foi realocada no ano de 741 D.C. pelo Papa Gregório III para o primeiro dia de novembro, mesmo dia que é dedicado à Capela de Todos os Santos, em São Pedro (Roma). A ação foi considerada como uma forma de “cristianizar” a festa celta. A data está presente no calendário de outras igrejas cristãs ocidentais, como a Anglicana e a Luterana.

Na noite anterior à festa da Igreja, celebrava-se uma vigília chamada de “All Hallow ‘s Eve” ou, como é comum atualmente, o Halloween. Alguns anos depois, em 998, o Santo Odilon agregou uma celebração para as almas do purgatório em 2 de novembro, chamada de Festa de Todas as Almas. Ela se espalhou pela França e pelo mundo e, hoje, é conhecida no Brasil como Dia dos Finados.
Acredita-se que, na época que o cristianismo se expandia pela Europa pagã, a Igreja Católica tenha ressignificado o Samhain em todo o continente europeu e substituído a celebração dos mortos pela dos santos da Igreja para buscar uma forma de afastar o “mal” através da fé. Dessa forma, a origem do Halloween ganhou diversas interpretações: enquanto algumas pessoas acreditam que ela representa a vitória do bem sobre o mal, outras a veem como uma celebração pagã e “anticristã”.
Celebrações da Igreja Cátolica:
- All Hallow’s Eve – comemorado em 31 de outubro como a véspera do Dia de Todos os Santos;
- All Saints’ Day – comemorado em 1º de novembro como Dia de Todos os Santos, data de veneração aos santos da Igreja;
- All Souls’ Day – comemorado em 2 de novembro como Dia de Finados, data dedicada à oração dos fiéis da Igreja e daqueles que estavam no purgatório.
Na tradição cristã, as fantasias eram usadas como forma de catequizar as crianças sobre a pena eterna e a condenação. Elas aprendiam desde cedo sobre a existência do mal, demônios e inferno e eram educadas na fé da Igreja.
Doces ou Travessuras?
A parte do Halloween mais marcante na cultura atual não veio das comemorações celtas. Pedir doces de casa em casa com a famosa frase “Trick or treat?” ou, em português, “Doces ou travessuras?”, foi uma adição americana à festa e uma contribuição imprevista dos católicos ingleses.

Na tradição católica, a brincadeira se originou como uma prática piedosa, com a finalidade de dar esmolas. Os pedintes que batiam às portas das casas esperavam receber “o pão das almas” mas, com o tempo, esse pão se sofisticou e foi substituído por doces das mais variadas formas, distribuídos também para as crianças. Acreditava-se que, para cada bolo ganho, deveria-se fazer uma oração por um parente falecido de quem doou, porque as rezas ajudavam as almas que permaneciam no limbo depois de sua morte a irem para o céu.
Já na história irlandesa, acreditava-se que um homem conduzia uma procissão para arrecadar “ofertas” dos agricultores que, caso não pagassem, poderiam ter suas colheitas amaldiçoadas por demônios. A “chantagem” da escolha entre doces e travessuras teria surgido dessa prática.
Com o tempo, os costumes pagãos e cristãos se mesclaram. Enquanto as celebrações cristãs de Todos os Santos e Finados focavam na lembrança dos falecidos e na oração, o Halloween incorporou elementos dos rituais antigos, como as fantasias e o “Doces ou Travessuras”. Assim, a mistura das tradições trazidas pelos imigrantes já estava consolidada na América — especialmente nos Estados Unidos no início do século 19 — enquanto, na própria Europa, criadora do Halloween original, essas práticas se tornaram praticamente desconhecidas.
O Halloween no Brasil
Embora o feriado seja tradicionalmente celebrado nos Estados Unidos, as fantasias, decorações e tradições horripilantes do Halloween se popularizaram no Brasil também. A data, entretanto, colide com a comemoração nacional do Dia do Saci, que passa despercebido por muitos. Ele foi instituído em 2013, com o projeto de lei nº 2.479/2013, elaborado pela Comissão de Educação e Cultura. A justificativa para a criação dessa festividade foi lembrar o folclore brasileiro e ensinar para as crianças que o Brasil possui sua própria cultura.
Ainda sim, a cultura estadunidense está fortemente enraizada nas celebrações de Halloween brasileiras. Como uma oportunidade de vestir fantasias, fazer maquiagens elaboradas e comemorar sem algum motivo específico aparente, as festividades são ansiosamente aguardadas pela população.
Além das comemorações regionais, universitárias ou particulares, a ocasião também ganha espaço em grandes eventos corporativos. O maior exemplo é o Halloween da Sephora. Neste ano, a festa aconteceu em 18 de outubro, com o tema “Máquina do tempo” e recebeu diversas celebridades em suas fantasias extravagantes — uma espécie de “Met Gala brasileiro” temático de Halloween.

As produções audiovisuais e literárias também ganham destaque nessa época do ano. O filme Meu Cunhado É Um Vampiro (2024), produção da Netflix Brasil estrelada por Leandro Hassum, é um exemplo de obra com temática de Halloween e um toque marcante de brasilidade. Ainda entre as produções nacionais com clima sobrenatural, a série Cidade Invisível (2021-2023) conta a história de Eric, que, após uma tragédia familiar, descobre a existência de criaturas do folclore brasileiro vivendo entre os humanos. Para entrar no espírito do Dia das Bruxas com uma boa leitura, o livro Espresso Fantasma (Record, 2024), do escritor e influenciador brasileiro Tiago Valente, combina suspense com romance e uma cafeteria temática de Halloween.
Curiosidades
A presença da abóbora no Halloween provém de uma lenda irlandesa conhecida como Jack-o’-Lantern, que conta a história de um bêbado metido a malandro, chamado Jack. Ele tentou trapacear em um acordo com o diabo para viver mais e, após sua morte, foi rejeitado pelo céu e pelo inferno, condenado a vagar sobre a terra com apenas uma lanterna esculpida em um nabo e carvão aceso dentro para guiar seu caminho.

No século 19, os imigrantes irlandeses substituíram o nabo pela abóbora, que era mais abundante e barata na América. Da mesma forma, o carvão usado para iluminar o interior foi trocado por uma vela — e, hoje em dia, até por lâmpadas de LED. O objetivo continuava o mesmo: afastar os maus espíritos e o próprio Jack.
A figura das bruxas na comemoração tem diversas versões e chegou aos EUA com os primeiros colonizadores. Uma das histórias conta que as bruxas se reuniam duas vezes por ano, em 30 de abril e 31 de outubro, épocas de mudança de estações. As feiticeiras chegavam em vassouras voadoras e participavam de uma festa com o diabo. Elas jogavam maldições e feitiços em qualquer um e podiam se transformar em várias coisas.
Assim surgiu também a lenda dos gatos pretos: acreditava-se que as bruxas podiam se transformar neles para passarem despercebidas. Com o tempo, muitas superstições se originaram das histórias, pois diziam que os gatos pretos carregavam o espírito dos mortos.

*Imagem de capa: Anastasia Maksimova/Unsplash
