por Marcella Zwicker (marcellazwicker@usp.br) e Catarina Bacci (cbmedeiros@usp.br)
Ruth Marcus foi a convidada responsável por fechar o 9º Festival Piauí, na noite de 7 de setembro de 2025. Recebida com uma série de aplausos, a jornalista subiu ao palco para retratar sua trajetória com a profissão e os desafios que restringem o jornalismo estadunidense frente ao trumpismo. A conversa foi conduzida por Daniel Bergamasco, da Revista Piauí, e por Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo.
A palestra relatou seus 40 anos no The Washington Post, desde sua entrada como estagiária até seu pedido de demissão. A jornalista desenhou a mudança de ares no jornal conforme os governos Trump e opinou sobre a nova linha editorial após a compra do periódico por Jeff Bezos. O debate analisou esses acontecimentos como reflexos das políticas conservadoras, e buscou esclarecer os limites de atuação da imprensa frente à censura imposta atualmente.
Trajetória no The Washington Post
A jornalista iniciou sua carreira no The Post ainda jovem. Escrevia para um blog sobre legislação quando conheceu Bob Woodward, um dos repórteres responsáveis pelo caso Watergate. Ruth se formou em Direito e entrou como estagiária no Post, graças ao contato com Woodward. “Naquela época, o jornalismo conseguiu derrubar um presidente, e a redação estava forte e eufórica”, afirma Marcus sobre o jornal que conheceu aos 26 anos.
Ela foi repórter, editora, membro do conselho editorial e, enfim, colunista no jornal. Não esconde seu apreço pelo veículo ao falar com o público: “Eu falo do The Post como se ainda fizesse parte dele, pois tenho muito carinho e não queria deixá-lo. Mas não é mais o jornal que eu amei”.
Deixou o The Post após 40 anos e 6 meses, ao ter uma coluna sua engavetada sem explicações. Seu pedido de demissão foi impulsionado por discordância com as novas diretrizes do veículo. Desde a venda para Bezos, Ruth percebia o aumento da centralização nos setores opinativos: o empresário, então, determinou que só seriam publicadas opiniões voltadas para a liberdade individual e o livre mercado.
Em entrevista para a Jornalismo Jr., Ruth Marcus analisa seu caso como parte de um contexto no qual jornais se submetem, por questões financeiras, a esses empresários e suas vontades: “O cenário empresarial colapsou diversos jornais, a nível nacional e local, de uma forma que há motivos para Don Graham [antigo dono do The Post] vender seu periódico. Precisamos pensar em novas formas de fazer isso funcionar”.

Jornalismo frente ao trumpismo
Após relatar sua trajetória, Ruth partiu para a discussão política mais ampla. Segundo ela, sua história é reflexo de algo que vem ocorrendo em diversos jornais, conforme são monitorados por bilionários. “É de revirar o estômago ver esses bilionários comprando jornais… um jornal não pode ser controlado por um desses homens”, ela afirma.
Para ela, trata-se de um processo de dominação da mídia, que a imprensa estadunidense ainda está aprendendo a lidar. “O segundo governo de Trump tem sido muito mais agressivo e abrangente”, afirma Ruth. Segundo ela, isso ameaça mais o trabalho jornalístico ao passo que consolida esses ‘oligarcas’, que buscam (e conseguem) domínio em diferentes nichos sociais.
“Nossa democracia está em risco com o crescimento do apoio a essas pessoas, porque pesos e contrapesos não estão balanceados”, complementa a jornalista. Para analisar uma situação como essa, ela aponta que deve-se definir o conceito de democracia adotado. Para ela, a subordinação de senadores às medidas de presidentes e vontades de empresários, significa um risco à democracia.
Ruth aponta, porém, que há sim limites na Suprema Corte para esse presidente e esses apoiadores. Ela controla o alarmismo e apresenta como exemplo um caso no primeiro governo Trump, no qual ele tentou anular a cidadania de pessoas nascidas nos Estados Unidos, com pais estrangeiros. A cidadania é fundamental para a Constituição estadunidense, e não pode ser alterada em um governo, ela aponta. Formada em Direito, Ruth explicou situações de caráter jurídico para a plateia, que compreendia e interagia com a jornalista.
Ao ser questionada sobre as reações da imprensa com a tática de “exaustão” de informações utilizada por Trump, ela aponta que há uma tendência no público de se cansar. Segundo Marcus, no segundo governo do atual presidente dos EUA, não houve um aumento significativo no consumo de notícias; pelo contrário, as pessoas parecem aderir a um escapismo e abandono da realidade, dos pronunciamentos e medidas.
Quanto ao fenômeno de abandono da realidade, o mediador perguntou se as pessoas, alinhadas à extrema direita, que desacreditam da imprensa são causa perdida ou se há como recuperar a confiança deles. Ruth Marcus finaliza: “Jornalistas devem fazer seu trabalho, seguir com a sua obrigação… não vamos para a guerra, apenas seguimos nosso ofício. Pessoas vão acreditar e duvidar de você, isso acontece”.
[Imagem de capa: Catarina Bacci/Jornalismo Júnior]








