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9º Festival Piauí de Jornalismo | Kiki Mordi revela como reportagens podem retratar a violência de gênero

Jornalista investigativa nigeriana discute o que norteia o seu trabalho em busca de um mundo mais igualitário

Por Ana Vitória Barbosa (anavita.nb@usp.br)

Em evento promovido pela Revista piauí na Cinemateca Brasileira,  a jornalista Kiki Mordi compartilha o seu percurso de sucesso para realizar produções relacionadas ao empoderamento feminino. Para enriquecer o debate, a mesa foi complementada pelos entrevistadores Cristina Fibe, do portal UOL, e João Batista Júnior, da Revista piauí.

A jornada de Mordi  no Jornalismo não seguiu um caminho linear. Ela abandonou a faculdade de Bioquímica após sofrer assédio de um professor. Depois disso, conseguiu um emprego em uma rádio, onde conquistou certa popularidade. Neste novo espaço, ela criou uma plataforma para dar voz à estudantes universitárias vítimas de assédio sexual.

 O seu trabalho  chamou a atenção da BBC Africa Eye, produtora do documentário Sex for Grades. Mordi integrou a equipe de produção e virou “o rosto” do filme, que é o seu projeto mais reconhecido até hoje. A obra expôs professores das universidades de Gana e da Nigéria que abusavam de alunas, aproveitando-se das posições que ocupavam nessas instituições.

Durante a palestra, Mordi afirma que a violência de gênero na Nigéria é sistemática, acompanhada por uma cultura de “vergonha” e de “revitimização” intrínsecas às vítimas. Por isso, ao interagir com as suas fontes, a repórter almeja assegurar um espaço seguro e de empoderamento para as mulheres. “O ser humano é sempre mais importante que a história”, disse a jornalista.

A concepção de Sex for Grades

Para ela, a obra desenvolvida pela BBC tinha um caráter pessoal, um propósito ligado ao histórico de assédio que sofreu. Aquilo “foi um impacto tão grande pra mim que eu virei jornalista”, disse Mordi. 

Kiki Mordi e outras duas repórteres se disfarçaram de alunas para investigar alegações de abuso que receberam. Exceto a palestrante, todas as outras mulheres  envolvidas mantiveram o anonimato, usando máscaras e pseudônimos. A jornalista pensava na forma que moldaria a credibilidade do programa a um conteúdo baseado no anonimato. O que garantiu a veracidade foi o trabalho jornalístico realizado pela equipe durante nove meses de pesquisa e inúmeros relatos provenientes de diferentes fontes.

Kiki Mordi compartilha sua história de assédio no documentário Sex for Grades [Imagem: Reprodução/BBC Africa Eye]

O filme tem como objetivo denunciar os abusadores denunciados. Câmeras escondidas foram direcionadas a eles enquanto os professores revelavam sua conduta diante de alunas e de estudantes em perspectiva. A repórter relata que a intenção era mudar o foco habitual desse tipo de matéria da vítima para o agressor.

Para desempenharem os papéis de atrizes, diversas precauções foram tomadas pelos colaboradores do projeto: treinaram para saber como evitar portas trancadas e se retirarem de diferentes situações, durante os encontros com os professores sempre havia três jornalistas próximos aos locais, além de carregarem um botão de pânico.

“Os professores nos objetificavam a tal ponto que, quando você saía da sala, começava a se sentir mal, especialmente para aqueles que tiveram experiências pessoais, como eu. Eu já estive nesses escritórios antes e sei exatamente como era a sensação.”
Kiki Mordi

Durante a palestra, Mordi foi às lágrimas ao falar sobre os assédios que viveu durante a produção. Cristina Fibe, repórter experiente na cobertura de casos de violência de gênero no Brasil, considera esse tipo de trabalho algo que exige “delicadeza extrema”, já que esta agressão  também afeta as profissionais jornalistas. “Os mecanismos do trauma, do sofrimento, a cultura do escroto, a vergonha, a culpa e o medo, sentimos como se nós mesmos tivéssemos vivido esse crime”, disse a repórter Cristina.

O documentário de Mordi foi lançado em 2019 e atualmente acumula mais de 12 milhões de visualizações no YouTube. O filme prestigiado conquistou os prêmios Gatefield’s People Journalism em 2019 e Prize for Africa Michael Elliott Award em 2020, além de ter sido indicado ao Emmy no mesmo ano.

Uma faca de dois gumes: avanços e retaliações

No primeiro ano após o lançamento do filme, foi aprovada uma lei contra assédio em instituições de ensino na Nigéria. As universidades demitiram os professores que aparecem nas filmagens e houve um aumento de denúncias de abusos feitas por mulheres nas redes sociais. Apesar da repercussão inicial positiva do documentário, houve represálias após o sucesso da produção. Mordi informou que um dos professores moveu um processo ainda em andamento contra a BBC.

Estas retaliações causaram uma autocensura por parte dela, agora “pensa duas vezes” antes de abordar certos assuntos. Segundo ela, a escolha dos temas das reportagens nas redações também pode ser afetada devido a retaliações desse tipo, pois as empresas não querem lidar com os processos judiciais resultantes dessas apurações.

Na opinião de Mordi, atualmente as mulheres jovens têm mais coragem de denunciar assédios que sofreram [Imagem: Ana Alice Coelho/Jornalismo Júnior]

Mas Mordi ainda acredita que existe progresso. A jornalista  cita os  avanços das políticas de inclusão e pertencimento nas universidades de Gana e de Lagos — na Nigéria, as instituições que aparecem no filme. A primeira melhorou as políticas de assédio sexual. Enquanto que a segunda a contatou para colaborar na implementação de uma política de assédio, quatro anos depois da repercussão do filme.

Em uma observação relevante, Mordi destaca a importância dos repórteres perseguirem temas de relevância no debate público e observarem eles até o final. Ela disse que “é o papel dos jornalistas acompanharem essas histórias” após a publicação de suas apurações em casos de assédio sexual. Mordi reflete que as instituições sempre vão manter os sistemas vigentes, mesmo em sacrifício do bem estar da população, por isso é trabalho da imprensa lutar pelos direitos dos indivíduos.

Depois de Sex for Grades, Kiki Mordi fundou a Stack Journal e co-fundou Docummented Women, ambas plataformas que divulgam a história de mulheres. Na opinião da comunicadora, a mídia precisa retratar com maior enfoque as mulheres “fazendo coisas” ao invés de apenas “sofrendo coisas”.

[Imagem de capa: Ana Alice Coelho/Jornalismo Júnior]

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