Por Arthur Souza (thursouzs07@usp.br), Davi Milani (davimilanip@usp.br) e Hellen Indrigo (hellenindrigoperez@usp.br)
No último dia 14 de fevereiro, o esquiador Lucas Pinheiro subiu ao pódio para receber a medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina 2026. Filho de pai norueguês e mãe brasileira, o jovem de 25 anos escolheu vestir o manto verde e amarelo após desavenças com a federação norueguesa.
Com uma performance impecável no slalom gigante, ele se tornou o primeiro atleta do Brasil e da América Latina a ser campeão olímpico nos Jogos de Inverno. Por trás da conquista antológica, há um caminho arduamente trilhado desde a infância para que Lucas viesse a ser reconhecido mundialmente em sua categoria e tido como favorito nas principais competições internacionais que disputa.
“Gigante pela própria natureza”
Lucas Pinheiro Braathen nasceu em Oslo, na Noruega. Apesar de ter crescido no país escandinavo e ser filho de um norueguês, ele foi marcado desde cedo por dualidades culturais devido à influência da mãe brasileira. “O Pinheiro é da família da minha mãe, o Braathen é norueguês”, comentou em entrevista à CNN. “Meu nome é a representação das minhas duas nacionalidades.”
Apesar de atualmente se destacar nas montanhas, seu primeiro contato com o esporte não veio através do esqui: na infância, os maiores ídolos de Lucas eram craques do futebol brasileiro, como Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Após o divórcio dos pais, ele passou a jogar bola durante os períodos em que visitava a família materna em São Paulo, e a paixão pelo esporte fez com que cogitasse seguir carreira profissional.

Entre idas e vindas do Brasil, Lucas tornou-se fã de pão de queijo, bossa nova, churrasco, Jorge Ben Jor e é apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube [Imagem: Reprodução/Instagram/@pinheiiiroo]
Aos nove anos, porém, deixou de lado o sonho de se tornar jogador e iniciou sua trajetória no esqui alpino por influência do pai. Em entrevista ao podcast da Olympics.com, Lucas afirmou que o esporte foi essencial para que ele pudesse aprender a lidar com a sensação de ser considerado estrangeiro em seus dois países de origem: “Na montanha, eu estava em um grupo de crianças de todos os lugares. Foi a primeira vez que eu senti que ninguém podia falar que eu estava errado ou era estranho, porque todos ali eram estranhos”, conta.
“Eu não gostava nada de esquiar. É frio, são muitas roupas, bota, plásticos, dói sua perna. Eu gostava de praia, de calor, de mar, então eu não tenho ideia de como virei um esquiador alpino“Lucas Pinheiro, em entrevista para a ESPN
Se comparado a outros atletas da modalidade, Lucas começou a praticar em uma idade já avançada. Ainda assim, passou a integrar a equipe de desenvolvimento da Noruega aos 14 anos e conquistou cada vez mais espaço no esporte. Aos 16 anos, foi registrado na Federação Internacional de Esqui e Snowboard (FIS) como representante do país escandinavo e, aos 18, obteve destaque internacional ao conquistar duas medalhas no Mundial Júnior de Esqui Alpino.
“Teu futuro espelha essa grandeza”
Com o destaque em categorias juniores, Pinheiro estreou também aos 18 anos na Copa do Mundo de Esqui Alpino 2018/19. O jovem talento, até então representando a Noruega, ainda não tinha alcançado o pódio, mas viu tudo mudar logo na primeira etapa da temporada 2020/21, ao superar Marco Odermatt por cinco centésimos de segundo e vencer o slalom gigante em Sölden, na Áustria. Seu primeiro pódio no circuito internacional, já em primeiro lugar.
Poucos meses depois, enfrentou o episódio mais delicado de sua carreira, uma grave lesão com rompimento de ligamentos do joelho que o tirou do restante da temporada. Devido à complexidade da contusão, o longo tempo de recuperação impossibilitou a participação no Campeonato Mundial de 2021 e fez com que Pinheiro retornasse apenas na temporada de 2021/22.
Em seu retorno, colecionou subidas ao pódio, conquistando ao longo da temporada três medalhas de prata, duas de bronze e, em especial, uma de ouro, ao vencer no slalom em Wengen, na Suíça. Apesar dos triunfos, não repetiu a boa campanha nos Jogos Olímpicos de Inverno de Beijing 2022, quando ficou fora da classificação final por perder o portão nas duas modalidades que disputou.
Na temporada seguinte, 2022/23, conheceu sua melhor fase até então: em 20 provas da Copa do Mundo, terminou 17 vezes entre os dez primeiros colocados e conquistou medalha em sete dessas oportunidades, sendo três ouros, uma prata e três bronzes. Seu desempenho garantiu o título da temporada no slalom, o primeiro Pequeno Globo de Cristal da carreira de Pinheiro, concedido ao final da temporada ao esquiador que acumular mais pontos em uma categoria específica.
Após acumular vitórias na modalidade, o atleta anunciou sua aposentadoria precoce antes do início da temporada de 2023/24. A decisão de deixar o circuito foi motivada por divergências pessoais com a federação norueguesa, que envolveram questões como falta de liberdade, regras de vestimenta e participação em eventos, direitos de imagem e exposição à patrocinadores. Em 2024, Lucas reconsiderou a aposentadoria e formou uma equipe individual para continuar a competir, mas dessa vez como representante do Brasil.

Além de esquiador, Lucas é também empresário e modelo [Imagem: Reprodução/X/@timebrasil]
Em sua reestreia, agora como atleta brasileiro, conseguiu boas colocações mesmo ao largar em posições desfavoráveis. Na temporada 2024/25, Lucas conquistou o quarto lugar no slalom gigante em Sölden e no slalom em Levi, na Finlândia. O primeiro pódio pelo Brasil foi um segundo lugar no slalom gigante em Beaver Creek, nos Estados Unidos. Ainda nesta temporada, conquistou duas medalhas de prata e duas de bronze, mas não manteve o desempenho no Campeonato Mundial de 2025, ao ficar fora dos dez primeiros colocados no slalom e slalom gigante.
Em seu segundo ano como competidor pelo Brasil, em posições mais confortáveis de largada, Pinheiro voltou a se destacar. Até os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, foram 17 provas disputadas e 14 aparições entre os dez primeiros colocados. Conquistou cinco pódios, sendo quatro medalhas de prata e uma medalha de ouro no slalom em Levi, o primeiro ouro na história do Brasil em uma Copa do Mundo de esporte olímpico de inverno. No período que antecedeu os Jogos Olímpicos, o brasileiro manteve uma sequência de nove provas consecutivas entre os cinco primeiros colocados.
“Brilhou no céu da Pátria nesse instante”
Pinheiro chegou à Itália para disputar duas modalidades de esqui alpino masculino nas Olimpíadas de Inverno: o slalom e o slalom gigante. O brasileiro era amplamente cotado como favorito ao pódio nas categorias, devido ao seu desempenho na mais recente edição da Copa do Mundo de Esqui Alpino, realizada em janeiro, na qual conquistou a medalha de prata em ambas as variantes do slalom.
No slalom, as curvas do percurso são indicadas por uma sequência de portas, delimitadas por dois bastões, por entre os quais o esquiador deve atravessar. Durante a prova, cada atleta realiza duas descidas, cujos tempos somados definem o resultado final, e vence aquele que obter o tempo mais rápido.

Na modalidade masculina, o número de portas em provas de slalom varia de 55 a 75 e, no feminino, de 40 a 60 [Imagem: Reprodução/Instagram/@pinheiiiroo]
Apesar do favoritismo, Lucas Pinheiro não teve sorte em slalom simples: uma queda ainda na etapa inicial da disputa culminou em sua eliminação precoce. Além dele, outros 50 esquiadores, mais da metade dos concorrentes, não completaram a primeira bateria. Em entrevista após a prova, o atleta constatou que a intensa nevasca prejudicou a visibilidade e, consequentemente, não permitiu que ele identificasse pontos de maior aderência no solo.
“Eu tenho orgulho do espírito de como eu esquiei, mas, quando eu cheguei nessa parte, eu tentei puxar e criar toda a velocidade, e faltou disciplina. Eu não estava concentrado na técnica, estava esquiando com intensidade”
Lucas Pinheiro em entrevista ao GE
Foi no slalom gigante, porém, que o brasileiro entrou para a história. Dois dias antes da eliminação que encerrou o sonho de duas medalhas em uma mesma edição de Jogos de Inverno, Pinheiro Braathen foi o atleta a inaugurar a prova da modalidade gigante. Essa categoria se diferencia do slalom simples por apresentar um percurso mais longo e com mais portas.
Em sua primeira descida, o esquiador brasileiro marcou 1 minuto, 13 segundos e 92 centésimos, o melhor tempo da série inicial, que lhe rendeu temporariamente a primeira posição com quase um segundo de vantagem em relação ao segundo colocado, o suíço Marco Odermatt, velho conhecido de Pinheiro. Para a tentativa seguinte, Lucas continuou confiante: “Eu sei como atacar essa pista e vou continuar a esquiar com o coração”.
Na segunda e última bateria, a ordem de largada se inverteu e o brasileiro realizaria a tiragem que encerraria a disputa. A pressão cresceu ainda mais após a ótima marca atingida pelo rival suíço, que agora ocupava a liderança. Em uma pista de “neve muito quebrada”, como ele próprio mencionou ao se referir às condições do solo depois de várias descidas, o atleta de 25 anos arriscou uma investida ofensiva para superar o recorde adversário. Ao combinar confiança e velocidade em uma volta decisiva, Lucas melhorou o tempo marcado previamente e, somadas as tiragens, terminou com 2 minutos e 25 segundos de duração de prova, 58 centésimos à frente de Odermatt.
Envolto na bandeira do Brasil, Lucas Pinheiro foi entrevistado por Guilherme Roseguini, do Sportv, e explicou a complexidade da descida que lhe rendeu uma medalha olímpica: “Tecnicamente, essa é uma pista em que o atleta precisa achar a velocidade e puxar muito. Como a neve estava muito seca, foi muito importante achar esse equilíbrio [entre velocidade e estabilidade]”. O campeão ainda destacou a atuação das forças sobre o corpo como uma das principais dificuldades ao atravessar as portas, mas ficou contente por conseguir “descobrir a pressão para encontrar o balanço”.
Sob representação da bandeira verde, amarela e azul pela primeira vez em Jogos Olímpicos de Inverno, o jovem esquiador conquistou a primeira medalha de ouro brasileira na história da competição. Passadas a cerimônia do pódio e a celebração – durante a qual Lucas até se arriscou no samba –, o atleta ressaltou a importância da tradição pluricultural brasileira-norueguesa em sua carreira e disse que, no fim, o mais significativo é poder continuar a ser ele mesmo: “um esquiador brasileiro que virou campeão olímpico”.
*Imagem de capa: Rafael Bello/COB
