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‘O Último Azul’ é viagem fôlega por um país de remediações

Premiado em Berlim, longa distópico mescla natureza e industrialismo em trama sobre o envelhecer
Por João Lucas Casanova (joaolcasanova@usp.br)

Quando a idosa Tereza, vivida por Denise Weinberg, decide tomar um barco para chegar à cidade que permitirá sua fuga, o condutor Cadu (Rodrigo Santoro) avisa de antemão: ele tomará atalhos. 

O Último Azul (2025) estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 28, depois de passar por um ilustre circuito de festivais no primeiro semestre. O filme do diretor recifense consolidou a tendência de bom momento do cinema nacional no estrangeiro e venceu o Urso de Prata, segundo prêmio mais importante do Festival de Berlim. 9º longa-metragem de Gabriel Mascaro, sendo o 4º de ficção, O Último Azul dá continuidade aos retratos dos muitos Brasis margeados que o cineasta narra em suas tramas.

Num futuro distópico, o governo brasileiro obriga que todos os idosos, a partir de uma certa idade, deixem suas casas e vivam em colônias criadas para abrigá-los e incrementar a atividade produtiva do país, sem o empecilho dos velhos à sobrecarregar os brasileiros em idade economicamente ativa. O novo longa de Mascaro, nome pungente do cinema de autor brasileiro atual, não esconde as intenções de sua distopia de se debruçar sobre as remediações de um país que não pediu para nascer, mas que, de algum modo, segue, tomando atalhos para alcançar terra firme — por meio ou apesar deles.

O longa acompanha Tereza, uma senhora de 77 anos que vive em uma pequena cidade industrializada da Amazônia. De repente, sua produtividade não é mais a mesma e é chegada a hora do embarque para a colônia de velhos do governo. Tereza vive bem, sem requerer cuidados de terceiros. É lúcida, e é essa lucidez que a faz gastar todas as suas economias para fugir do degredo. Por rotas subalternas, a idosa faz o possível e o impossível para sobreviver com independência. 

Na trama, os idosos fujões são levados por um camburão policial denominado ‘Cata-Velho’ [Imagem: Divulgação/Vitrine Filmes]

Distopias são, por essência, tramas de excesso. Por meio delas, evidencia-se a opressão do rigor sistemático, que exponencia ao último grau as discrepâncias, antes veladas, de todo um corpo social. Com frequência, porém, esse gênero narrativo obtém efeito contrário. Ao jogar com tamanha clareza ao espectador as características totalitárias do subgênero, o filme pode recair em um didatismo redutor. Perde-se as nuances que dão volume e complexidade à obra em razão de um entendimento mais abrangente do funcionamento opressivo.

Uma distopia à brasileira tem esses perigos quase que dobrados. É muito fácil atribuir todas as precariedades de uma existência marginalizada a uma ou outra configuração política. A dificuldade está em enfrentar o problema de frente. A questão é que raramente se sabe qual problema central é esse. 

Em O Último Azul, Mascaro opta por situar seu universo com o bonde andando e chega a um resultado mais próximo do genuíno. Na realidade, o Brasil distópico do diretor, por vezes, mal parece alternativo — tamanha a profundidade do buraco. 

Assim como o Brasil real, a versão apresentada por Mascaro também não sabe o que fazer com a sua população, que envelhece. A solução é trancafiar todos no que parece ser um terrível e imenso asilo, pago pelo governo como recompensa pelos serviços prestados por aquelas pessoas à sociedade por décadas. No início, o longa até parece enveredar pelo lado do didático, prezando por escancarar suas disparidades com brusquidão. Por sorte, a apresentação morna e burocrática logo dá espaço à um road-movie de estrutura bem definida, que, se não se despe por completo das “insutilezas”, ao menos, adquire envoltura que o permite ser mais fluído e experimentativo.

A pequena participação de Rodrigo Santoro, que faz aqui o navegador errante de um barco de contrabando responsável por transportar Tereza, é a mais fraca do filme. Alicerce entre a solidez sistêmica do começo e a abertura para um mundo paralelo que se delineia, a sequência, uma viagem fugaz por rios amazônicos, soa distanciada e afetada quando comparada à relação de genuinidade estabelecida no restante do filme.

Central pela apresentação do “último azul” que dá nome à obra: uma substância extraída de um raro caramujo, capaz de dar ao usuário uma visão transcendente, a cena é quando a questão ambiental, antes relegada aos contornos da trama, assume sua faceta mais “narrativa”.

A proporção de tela permite o aprofundamento do fator humano em cena [Imagem: Divulgação/Vitrine Filmes]

Seria possível escrever sobre a intersecção do aspecto mágico com o real (latinoamericano por excelência), os muitos apontamentos que o longa realiza sobre a crise da natureza no contexto de produção e lucro a todo custo, mas é bobagem. Toda essa conceituação, quando existente, é muito fraca. O filme se interessa pelos efeitos mais do que pela eventual fonte, pela sua representação enquanto imagem mais do que por sua consolidação como discurso, ainda que por vezes pareça sinalizar o contrário — o que configura um inegável ponto para Mascaro. De certa forma, é a expressividade da imagem, tratada e moldada com destreza, que tira a obra de um lugar-comum que arrisca, mas não cai.

Filmado em um 4:3, que privilegia e aproxima as composições de quadro gritantes do cineasta, o longa brilha mesmo quando o foco está na humanidade de sua protagonista. É por isso que O Último Azul cresce tanto em sua parcela final. Aos poucos, Mascaro substitui a descrição quase tecnocrata daquele universo pelo impacto emanado do contato. É o momento em que o filme transborda por si só, sem pontuações desnecessárias. 

Diferentemente de Boi Neon (2015), também de Mascaro, aqui o olhar não fica na mera contemplação, quase indiferente, da realidade. O filme é mais convidativo a experienciar e estabelecer algum tipo de relação do que o longa de 2015. A sensorialidade, de algum modo, pauta a encenação. Há uma preocupação em O Último Azul com detalhes, com a assimilação do rosto dos atores, seus traços encarnados nos personagens, etc. Existem malefícios e benefícios nessa escolha. Por natureza, o enfadonho se torna mais indigestível, saturado. Mas também se ampliam as possibilidades de escala do longa. 

O longa melhor apresenta formalmente todas as teses contidas em seu discurso quando a amizade de Tereza com Roberta (Miriam Socarrás), uma imigrante que mal fala português, desenvolvida num misto ambíguo de interesse e condições, é posta em cena. Ali se sobressai a urgência da natureza, que recai, atua e se contrapõe àquelas duas mulheres, ao mesmo tempo em que são elas mesmas parte dela. De todos os elementos da trama, é o que mais ganha com a frontalidade encenada —  justamente porque é quando a tela se preenche da verdade estabelecida por duas ótimas atuações. 

No barco de Roberta, as duas ganham dinheiro vendendo bíblias digitais para comunidades afastadas [Imagem: Divulgação/Vitrine Filmes]

Ao se aproximar da conclusão, Mascaro intensifica o caráter alegórico, brinca com a imagem, apresenta soluções chamativas, plenamente integradas à trama. É a forma encontrada para dar materialidade ao país de atalhos que, em erros e acertos, retrata. Todos, de alguma forma, precisam encontrar o caminho possível, nunca o certo. O longa é feliz ao entender isso como sintoma, não fim em si. Para uma nação sempre a buscar o desenvolvimento, as remediações revelam as intenções que movem, a favor e contra a corrente, a própria existência.

O Último Azul já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Divulgação/Vitrine Filmes

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