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Resenha | 33 anos de Erotica: carnal e experimental, álbum de Madonna transgrediu normas de sua época

Disco, que chocou por ousadia temática e sonora, trouxe elementos novos para o som da artista e explorou temas ousados e incomuns
Colagem com imagem da cantora Madonna, na época do álbum Erotica
Por Pedro Lukas Costa (pedrolcosta@usp.br)

Em 20 de outubro de 1992, a cantora Madonna lançou Erotica (1992), seu quinto álbum de estúdio e o trabalho mais ousado da artista até então. O disco é considerado um álbum conceitual, ou seja, possui uma narrativa central que funciona como fio condutor e dá coesão à obra. No contexto da epidemia do HIV (vírus da imunodeficiência humana), a rainha do pop explorou a liberdade sexual, a emancipação feminina, a aceitação da sexualidade — como nas irreverentes Fever e Bad Girl e na explosiva Deeper and Deeper — e temas mais vulneráveis e pessoais, como a decepção amorosa na balada Waiting e a perda de amigos para a Aids em In This Life.

A produção é assinada por Shep Pettibone e André Betts, músicos com quem Madonna já havia trabalhado no sucesso house Vogue, de 1990. Eles a ajudaram na criação de uma sonoridade que, em grande parte, rompeu com o padrão pop e dançante com o qual o público esteve acostumado desde sua estreia na indústria musical — em 1983. O álbum experimentou elementos de gêneros mais urbanos, como o house, o hip-hop, o techno e o R&B (rhythm and blues) e formou uma amálgama sonora que fez de Erotica uma das criações mais únicas da artista.

Com o álbum, Madonna lançou o livro Sex (Warner Books, 1992), que incluiu textos e, principalmente, imagens polêmicas. Entre fotografias do corpo nu e seminu, simulações de atos sexuais — incluindo sadomasoquismo — e parágrafos que exploram o sexo sob diferentes perspectivas, a cantora e compositora incorporou um alter ego chamado Mistress Dita, usado também no álbum. A personagem ajudou Madonna a ampliar o conceito de Erotica, fazendo da era uma experiência sobre prazer, poder e fetiche. O lançamento do livro provocou um escândalo: a artista recebeu críticas do público geral, da crítica especializada e dos fãs, e o Vaticano chamou a obra de “moralmente intolerável”.

Madonna em um show. Ela usa um shorts preto colado, uma bota alta preta, um cropped preto. Todos colado em sua pele. Ela também usa uma máscara da mesma cor.
Madonna abria a turnê que promoveu o álbum, “The Girlie Show”, vestida de dominatrix, simbolizando a rebeldia sexual [Imagem: Reprodução/YouTube/Mother of Sorrows]

A subversão de expectativas com sons periféricos

Um efeito de som que lembra o de um disco de vinil sendo tocado em uma vitrola abre o álbum, que logo ganha uma camada de baixo. Uma batida de hip-hop carregada de percussões dá corpo à música e, em seguida, Madonna se apresenta como Dita e diz: “Gostaria de colocá-lo em transe”. A faixa-título continua como uma espécie de manifesto dominatrix, com a cantora convidando seu parceiro à submissão, no qual explora os limites entre dor e prazer: “Renda-se, faça o que eu disser”, canta em um dos versos.

É com uma batida de house (gênero da dance music surgido entre grupos negros e LGBTQIA+) contida que Dita passa a cantar de forma mais sutil sobre os temas de que o álbum trata. Sem ser explícita, em Fever, versão de Madonna de uma canção originalmente composta por Eddie Cooley e Otis Blackwell e popularizada por Little Willie John, ela revela estar com uma “febre” causada por seu parceiro — o que contrasta com a batida fria da música.

“Essa não é uma canção de amor”, diz Madonna ao começar Bye Bye Baby. Aqui, ela se desprende do clássico modelo de canção melodramática de amor ou de decepção amorosa, tão comum na década de 1990. Mais uma vez em cima de uma bateria derivada do hip-hop, ela subverte a relação de poder entre um amado dominador e toma a narrativa da própria história, o decepcionando e se despedindo. Um som de explosão ao final marca o fim desse vínculo.

O momento mais expressivo e explosivo do álbum é Deeper and Deeper, faixa que convida o ouvinte a dançar e jogar fora o que o prende: “Nunca mais vou esconder isso” se repete inúmeras vezes. A sonoridade house, com uma bateria pesada, toques de piano e sons de corda, serve como pano de fundo para a letra, que trata de uma pessoa aceitando sua sexualidade — ao mesmo tempo que se apaixona cada vez mais profundamente. Na ponte da música, sons de violão e de castanholas batendo criam um momento de flamenco que relembra a latinidade de La Isla Bonita, de 1986 — soa inesperado, mas é bem-vindo, já que agrega complexidade à faixa. O final conta com um sample de Vogue, espécie de versão menos expressiva de Deeper and Deeper lançada dois anos antes.

Madonna dança ao lado de outras pessoas em seu clipe. As cores são escuras e avermelhadas.
O videoclipe da canção é ambientado em uma festa colorida, vibrante e com diversidade de corpos [Imagem: Reprodução/YouTube/Madonna]

O R&B, ritmo suave e com batidas que lembram as do hip-hop, ganha espaço no álbum a partir de Where Life Begins. A canção é calma e, apesar da riqueza de instrumentos ao fundo, se mantém limpa. Apesar disso, é talvez a faixa mais sexual — afinal, o título se refere a “onde a vida começa”. O álbum ganha um tom de balada romântica em Bad Girl, com um ritmo menos inovador do que os de outras faixas: teclados e vocais que lembram sucessos adult contemporary de Céline Dion. A letra é interessante — fala de uma garota que bebe e fuma demais para se distrair de um relacionamento tóxico.

Waiting mostra Madonna com um tom de voz mais falado e grave — pouco explorado por ela, mas bastante agradável. A bateria da música se destaca: forma um ritmo entre o soul e o R&B que dá um tom sombrio que combina com a letra — sobre estar decepcionada, mas ainda desejar o amado. Thief of Hearts começa com o som de vidros quebrando e tem uma batida de house. A canção explora, de certa forma, a rivalidade feminina e chama de “vadia” uma mulher que pretende roubar o parceiro de Dita. “Ele é meu”, canta.

A música eletrônica ganha ainda mais força a partir de Words, música em que Madonna fala de um parceiro que se apresentou de forma romântica e com falas bonitas, mas agora profere palavras que “cortam como faca”. Ela, no entanto, não quer mais as ouvir — a faixa mostra Mistress Dita empoderada e pouco subserviente. O eletrônico continua, mas em forma de balada mais lenta em Rain, que compara a paixão à chuva. É uma metáfora pouco inventiva, mas com uma sonoridade interessante e original.

“Por que é tão difícil?”, questiona Madonna em Why’s It So Hard. A artista fala sobre aceitar as diferenças e amar o próximo antes que seja tarde demais. Uma letra como essa poderia soar clichê ou não chamar atenção em tempos atuais. Em 1992, no entanto, falar de aceitar as diferenças, em especial as que Madonna desde sempre defendeu, como as da população queer, ainda era revolucionário e impactava a vida dessas minorias.

In This Life tem uma das maiores cargas emocionais do álbum. Em um instrumental lento e orquestral, a balada fala de dois amigos de Madonna que morreram em decorrência da Aids, causada pelo HIV. Um deles, como Madonna canta, tinha apenas 23 anos. O outro, considerava “um pai”. Um dos versos diz: “Quem você ama não deveria importar”.

O álbum fecha com Secret Garden, que se aproxima de um jazz elegante e discreto. A letra se vale de um campo semântico ligado a flores para metaforizar o órgão sexual da cantora, seu “jardim secreto”.

Madonna posa para foto. Ela usa um vestido justo na cor bordô, batom vermelho e uma boina preta.
O disco traz, liricamente, sonoramente e visualmente, uma persona excêntrica de Madonna [Imagem: Reprodução/YouTube/Madonna]

Amplo impacto na cultura

Foi com a referência a questões vivenciadas por grupos minoritários da sociedade, como a sexualidade das mulheres e da população LGBTQIA+, além do preconceito enfrentado, em conjunto com a sonoridade única e rica, que Erotica se tornou um ícone para esses grupos. O disco, mesmo depois de 30 anos de seu lançamento, ainda soa atual, ecoa mensagens potentes e serve como referência para os que vieram depois — de Lady Gaga a Chappell Roan.

Erotica, das canções mais provocativas às mais emocionais e das baladas ao hip-hop e batidas house, soa diverso, complexo e maduro. É um álbum genialmente executado, com letras que desafiam normas e instrumentais com camadas que dificilmente são pouco ou exageradamente potentes.

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