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Resenha | Anavitória por todas as ‘Esquinas’

Quarto álbum autoral da dupla demonstra maturidade pessoal e reflexões acerca do amor em meio à metrópole
Colagem da dupla de cantoras Anavitória ao centro. No fundo, pôsteres do álbum "Esquinas" e capa do álbum com os olhos das cantoras riscados. Imagens de prédio e pessoas nas ruas com guarda-chuvas.
Por Lorenzo Souza (lorenzosouza@usp.br)

Em novo disco, Ana Caetano e Vitória Falcão demonstram que a metrópole é agora parte inseparável de seus corpos e mentes. Lançado em dezembro de 2024, Esquinas é o quinto álbum de estúdio — e quarto autoral — da dupla Anavitória e contrasta a complexidade da vida com as características de uma grande cidade, sem perder o tom romântico presente em toda a discografia das cantoras. 

Ana e Vitória se conheceram em Araguaína (TO), e começaram a gravar covers para o YouTube em 2013. Logo se aliaram ao produtor Felipe Simas e, em 2015, lançaram seu primeiro EP, de nome homônimo ao da dupla. Rapidamente alcançaram sucesso por suas vozes doces, o pop com toques de folk e o lirismo que atrai apaixonados por todo o Brasil. 

Esquinas traz, três anos após o lançamento de seu último álbum — COR (2021) —, reflexões acerca da maturidade artística das cantoras, assim como a influência da cidade grande em suas vidas. A turnê promovida pela dupla, batizada de Turnê das Esquinas, teve início em setembro e fim em janeiro de 2026. 

Ondas sonoras formadoras da cidade

A dupla aborda o amor em todas as suas esferas no decorrer da produção. Em Ter o coração no chão, cantam sobre um relacionamento tranquilo, que encontra “nas besteiras da rotina, a maior beleza”. Junto dele, declaram ainda que estão prontas para as futuras “surpresas, atrasos, abismos, desencontros, desafios, canastras e perigos”. A canção ganha ainda mais fôlego ao, além da letra, contar com um aumento exponencial da potência musical dos instrumentos. O começo lento garante o sentimento tranquilo, mas a finalização faz com que os ouvintes não se enganem: apesar de  tranquilo, o amor ainda é naturalmente forte. 

As faixas Ponta Solta e Eu, Você, Ele e Ela estão carregadas de sensualidade, com letras que dão a entender descobertas e novos alcances dentro de uma relação. Ponta Solta expõe a intimidade de um novo relacionamento e os sentimentos de alguém que tenta não se apaixonar, mas não consegue. Com violão, percussão e palmas durante toda a música, o clima sensual combina com o lirismo, que determina: “corte de papel não dói, mas não sara, e o nosso encontro foi assim, que delícia que é você do início ao fim”. 

Em Espetáculo Estranho, esse sentimento ganha força a partir da intimidade do dia a dia. Anavitória declara que o amor já existente por uma pessoa só se intensificou com o aprofundamento da intimidade. A percussão contribui para o tom reflexivo — e ao mesmo tempo, apaixonado — que permeia toda a canção.  

Dupla saiu Brasil afora com a Turnê das Esquinas no segundo semestre de 2025
[Imagem: Lorenzo Souza/Acervo Pessoal]

As dificuldades e situações complexas também são parte do apresentado pelas cantoras no álbum. Água-viva, Minto pra quem perguntar e Mesma trama, mesmo fio são exemplos que trazem diferentes versões de um término, sem deixar de abordar os sentimentos ainda não superados. Em Água-viva, o piano base de toda a canção carrega o tom melancólico necessário para declarar que, com o tempo, “as faltas vão doendo menos”. 

Minto pra quem perguntar é mais agitada, mas é o tom necessário para o que ali está sendo dito. O término nesse contexto ainda não foi superado por quem canta, e a pessoa reconhece que não está bem o suficiente para falar sobre. Mesma trama, mesmo fio é uma forte reflexão, rodeada de versos que questionam como um relacionamento pode saltar entre a “intimidade e uma conversa de elevador”. 

As três últimas faixas servem como estandartes da reflexão acerca da vida, além de serem as que menos falam diretamente sobre o amor. Perto do fim do álbum, a temática expande do sentimento para outras complexidades. Como numa sequência, Quero contar pra São Paulo é a declaração máxima de um amor potente, com extrapolações variadas. O amor desejado é aquele que até os poetas invejem. Em Doce futuro, entra em jogo a liberdade, fator essencial para que haja mudança e para que todos possam amar quem quiserem e puderem, como dito na canção.

Navio ancorado no ar finaliza a produção de 12 músicas ao abordar as escolhas não selecionadas, similar ao dito em Se eu usasse sapato, canção que dá início ao álbum. A mistura de sons garantiu que fosse a faixa necessária para explorar esse lado introspectivo, característica marcante da canção. “Eu mato a culpa, você salva o desejo”, elas declaram. 

O irmão claraboia

Em 16 de setembro, Anavitória anunciou um novo álbum, chamado claraboia (2025). Lançado oficialmente algumas horas após um post no Instagram, a produção vem como contraste direto ao Esquinas. A dupla teve a ideia para os álbuns irmãos a partir de uma exposição de Bárbara Kruger, vista em Los Angeles em 2022. Lá, imagens eram projetadas em paredes opostas e daí veio a ideia de dois opostos “complementares”. 

Capa do claraboia, mais nova produção da dupla. 
[Imagem: Divulgação/Anavitória]

Enquanto Esquinas traz os ares da cidade através de uma complexa produção e mistura de instrumentos, claraboia contrasta o irmão com o ar interiorano e uma produção mais crua. O primeiro traz diversidade sonora e o segundo apresenta majoritariamente voz e violão nas faixas. claraboia foi gravado em uma casa alugada em Paranapanema, interior de São Paulo, em um estúdio improvisado pela dupla e sua equipe. 

O que muda no amor

A carreira de Ana  Caetano e Vitória Falcão esteve sempre marcada pelo tom romântico de suas canções. Desde o primeiro EP, o amor e suas mil facetas foram a inspiração das artistas, personagens recorrentes entre faixas e novos álbuns. Apesar disso, elas sempre conseguiram medir de forma consistente a presença desse sentimento em suas produções. Seja um pouco mais ou um pouco menos, o assunto é recorrente no universo da música e, eventualmente, pode se esgotar. Felizmente, esse não parece ser o caminho pelo qual Anavitória está trilhando. 

Ao mensurar com exatidão a quantidade de amor exposta no álbum, outras reflexões puderam ser feitas. Esquinas aborda sim amor, mas aborda também complexidades da vida, traz a estética de uma metrópole através do sons e videoclipes — esses que formam quase um “segundo álbum” visual — e, de forma quase onipresente, demonstra a maturidade das cantoras. 

Como dito em Navio ancorado no ar, “agora quase 30, guardo tudo aqui”. É inegável que a maturidade pessoal influenciou e continuará influenciando o trabalho da dupla. Não há problema em falar por anos sobre um sentimento, desde que ele não se mantenha o mesmo. Fica claro que cada esquina da cidade grande fez com que novas facetas do tema pudessem ser traduzidas em melodia e versos inéditos. 

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