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Romances clichês: a massificação de plots na indústria cinematográfica

Entenda o que há por trás da repetição massiva das “fórmulas de sucesso” do gênero favorito de milhões de cinéfilos

Por Letícia Menezes (leticiaomenezes@usp.br)

O romance é um dos gêneros mais consumidos pelos amantes de cinema. Com alguns métodos pré-definidos para se tornar um sucesso de bilheteria, salas são lotadas para acompanhar a trama de pombinhos apaixonados que superam muita coisa pelo seu final feliz. Entre os plots certeiros para conquistar o coração dos espectadores e lucrar bilhões de dólares  estão Enemies to lovers, Friends to lovers, Fake dating, only one bed e triângulos amorosos. Apesar de parecer fórmulas recentes, o gênero emplaca sucessos desde os princípios da produção cinematográfica. 

Os primórdios do Cinema e o romance

No início da história do cinema, com Thomas Edison (com o Cinetoscópio) e os Irmãos Lumiére e o Cinematógrafo, as produções possuíam um caráter experimental, com  cenas do cotidiano europeu. O experimento recebe o tom narrativo quando os franceses Alice Guy e Georges Méliès decidem explorar a capacidade do aparelho, que ainda no início do século, produziria o célebre filme Viagem à Lua (Le Voyage dans la lune, 1902). O filmete de apenas 13 minutos seria o marco inicial para milhares de roteiros que surgiram a partir daquele momento.

Cartaz sobre o cinema de Lumière [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Em entrevista ao Cinéfilos, Ana Júlia Cornélio, Professora da PUC-SP, artista multimídia e escritora, afirma que no início do cinema ainda não existiam fórmulas nem estruturas consolidadas: “Cada país que produzia filmes estava, de alguma forma, descobrindo o que o cinema podia ser. Na França, por exemplo, a gente vê essa dualidade desde o início: os irmãos Lumière, que registravam o cotidiano com um olhar quase documental, e Georges Méliès, que usava o cinema para criar magia, truques e imaginação.”

Foi com a criação dos estúdios Hollywoodianos, intitulados “Big Eight”, que a produção cinematográfica começou a aumentar, com o objetivo de trabalhar com o custo-benefício da produção e fluxo constante de filmes. Com o controle de todo o processo de produção, distribuição e publicidade, o cinema passou a ser visto como uma indústria rentável e de potencial exponencial. A era de ouro Hollywoodiana (1920-1960) seria marcada por diversos sucessos de bilheteria.

Entre as produções distribuídas por essa indústria, evidenciou-se a repetição da fórmula narrativa “Screwball Comedy”, ou Comédia Maluca. Nas décadas de 1930 e 1940, devido ao abalo sofrido pelos Estados Unidos com a Crise de 1929, o gênero foi bastante explorado, por misturar o humor com crítica social. Filmes como Problemas no Paraíso (Trouble in Paradise, 1932), Meu Homem Godfrey (My Man Godfrey, 1936) e As Duas Feras (Bringing Up Baby, 1938) são exemplos que conquistaram o público da época. 

His Girl Friday é um filme estadunidense que segue a fórmula narrativa
de uma comédia maluca [Imagem: Divulgação/Public Domain]

Os enredos e seus clássicos

“O público tem sede de pertencimento; entretenimento e diversão. Essas fórmulas oferecem o acalento ao desejo sedento de uma sociedade individualista e carente. “

Ana Júlia Cordélio

O Enemies to Lovers, enredo presente em boa parte das produções românticas, consiste na mudança (geralmente gradual) de uma relação que parte do ódio ao amor entre os personages e tem como base obras shakespearianas. Romeu e Julieta (Romeo and Juliet, 1597), a mais famosa delas, retrata o cenário no qual famílias rivais impedem o amor de dois jovens, que devem, instintivamente, se odiar pelo bem da relação parental. Classificado como uma tragédia, o enredo mostra que, desde o século 16, o tema era retratado na cultura e, posteriormente, viriam a surgir diversas adaptações para filmes e séries dessa história.

Alguns séculos depois, Jane Austen faria obras literárias que, também, estariam voltadas para esse escopo e seriam adaptadas ao cinema. Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 1913) possui mais de 10 versões disponíveis no cinema e acompanha a vida de Elizabeth Bennet, em primeiro momento como coadjuvante do romance de sua irmã, que passa a ter protagonismo ao desenvolver um romance turbulento, a partir de uma inimizade com o Sr. Darcy.

Outros exemplos clássicos e contemporâneos com essa temática são: Confidências à Meia-Noite (Pillow Talk, 1959), A Garota do Adeus (The Goodbye Girl, 1977), Harry e Sally: Feitos um para o Outro (When Harry Met Sally,1989), Mensagem Para Você (You’ve Got Mail, 1989) e Vermelho, Branco e Sangue Azul (Red, White & Royal Blue, 2023).

A versão de Orgulho e Preconceito feita em 2005 é uma das mais lembradas pelo telespectadores [Imagem: Reprodução/IMDb]

Triângulos amorosos consistem no envolvimento de duas pessoas que disputam o amor de uma terceira, gerando um conflito romântico resolvido por meio de uma escolha, normalmente, no final da trama. Casablanca (Casablanca, 1942) é um filme que mistura esse conflito com o contexto da Segunda Guerra Mundial. O enredo que combina história e as desventuras amorosas recebeu o Oscar de Melhor Filme em 1944.

A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967) conta a história de Benjamin Braddock (Dustin Hoffman), recém formado que volta à casa dos pais sem saber o que esperar de sua carreira. Após sua volta, ele começa a ter relações com a sra. Robinson (Elizabeth Wilson), mulher do sócio de seu pai, mas é seduzido, também, por Elaine (Katharine Ross), filha do casal. O plot se desenrola em cima da temática principal “triângulo amoroso” e foi vencedor do Globo de ouro em 1968 e indicado a categoria de Melhor Filme do Oscar no mesmo ano.

Trazendo o escopo para as produções da última década, a Saga Crepúsculo (The Twilight Saga, 2008-2012) tem como um dos enredos a disputa de Edward e Jacob pelo amor de Bella. Entretanto, os filmes não giram em torno somente dessa situação, desenvolvendo, também,  a questão da identidade e do pertencimento, bem como o conflito entre o tempo de vida humano e a eternidade.

No filme O match Perfeito (Materialists, 2025), Lucy Mason (Dakota Johnson) se envolve em um triângulo amoroso e é possível enxergar um exemplo dessa trope como segundo plano para discussões maiores ao longo do enredo, nesse caso, “o filme trata um reflexo do comportamento social contemporâneo que envolvem relacionamentos líquidos e as consequências dessa situação em larga escala”, afirmou Cordélio.

O último filme da saga, Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 (The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 2, 2012) arrecadou mais de 840 milhões de dólares em bilheteria no mundo [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Fake dating traz  narrativas nas quais uma dupla de personagens decide se envolver romanticamente, de forma fictícia, até que um objetivo seja atingido (por exemplo, passar o natal juntos para evitar comentários desagradáveis dos familiares), mas no fim, geralmente, um amor genuíno é desenvolvido entre eles.

Nos anos 40, a temática era colocada como secundária na trama dos personagens, fazendo parte de enredos mais complexos. Em Venha Morar Comigo (Come Live with Me, 1941), uma refugiada precisa se casar em uma semana para não ser deportada e encontra um escritor que está beirando à falência e precisa de dinheiro. Ela pode pagar para que ele seja seu marido, o que transforma essa relação de interesses em um casamento por conveniência. 

Reproduzido mais de 80 milhões de vezes na plataforma de streaming Netflix, a trilogia do filme Para Todos os Garotos Que Já Amei (To All the Boys I’ve Loved Before, 2018-2021) é um dos clássicos exemplos desse escopo. Na trama, Lara Jean (Lana Condor) entra em um relacionamento falso com Peter Kavinsky (Noah Centineo), garoto popular de seu colégio no qual ela nutria sentimento, para despistar o vazamento de suas cartas de amor para todos os meninos do colégio que Lara já foi apaixonada.

A indústria e a massificação

“Uma ilusão de filmes diferentes para quem assiste, mas, se prestarmos atenção, estamos assistindo aos mesmos produtos, com personagens diferentes.”

Ana Júlia Cordélio

A indústria cinematográfica, encaixada no ecossistema cultural, reflete o comportamento de consumo e produção que a sociedade possui. Desde a revolução industrial, muitos produtos passaram a ser produzidos em larga escala e homogeneizados em sua forma e conteúdo. Desenvolvido em meio que estava consolidando a produção industrializada, com o cinema não foi diferente, a partir do momento em que o lucro perceptível dessa indústria apareceu, os filmes passaram a ser desenvolvidos visando o sucesso de bilheteria. 

Segundo Ana, Hollywood teve um papel fundamental nessa instrumentalização: “Esse aparato industrial não apenas massifica o acesso, como cria ícones duradouros e conhecidos globalmente. É o caso de Marilyn Monroe, cuja persona sintetiza glamour, marketing e engenharia de imagem do período, alavancada por contratos de estúdio, publicidade e controle de circulação.”

Ao passar dos séculos, essa característica só se intensificou. Nas últimas décadas, os filmes passaram por, muitas vezes, por Reboots (reciclagem de conteúdo) e, com a justificativa de nostalgia, a indústria lucra milhões para reexibir clássicos. E, mesmo cientes, o telespectador continua consumindo os filmes, pois, de acordo com a escritora, o público busca entretenimento e previsibilidade, e esse tipo de conteúdo gera uma dopamina acessível e menos tóxica, se comparada às redes sociais e casas de apostas.

Mesmo com a aparente saturação dos plots, o número de produções não tende a diminuir. Nostalgia, conforto e o poder de se aventurar no conhecido não saíram de moda e fazem clássicos atemporais do romance serem sucessos de bilheteria e de acesso nas plataformas de Streaming. 

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