Jornalismo Júnior

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Silvio Santos, o ‘Rei da TV’: a vida, as polêmicas e o legado do maior comunicador do Brasil

Admirado por milhões de brasileiros, apresentador e dono do SBT faleceu aos 93 anos
Silvio Santos apresentando o Programa Silvio Santos. Ele usa terno e gravata vermelha e está rodeado de mulheres com pompons.
Por João Victor Vilasbôas (joaovilasboas.jvvp@usp.br)

“Do mundo não se leva nada / Vamos sorrir e cantar.” Foram com essas palavras de otimismo em forma de canção que Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, adentrava a casa das famílias brasileiras a cada domingo, com o programa semanal que leva seu nome. O apresentador de 93 anos faleceu no dia 17 de agosto de 2024, em São Paulo, vítima de uma broncopneumonia — que contraiu após se infectar com o vírus H1N1, em julho do mesmo ano. As homenagens na época de sua partida revelam o porquê ele é considerado o maior e mais importante dos comunicadores de nossa televisão.

Dono de uma carreira de mais de seis décadas, o apresentador e empresário disse, em muitas ocasiões, acreditar que o domingo é um dia de alegria. Para Silvio, era obrigação da televisão proporcionar ao público a diversão no primeiro dia da semana. Ao perseguir esse ideal, o apresentador ajudou a escrever a história da televisão e da cultura nacionais — legado homenageado neste perfil.

Com a notícia do falecimento do apresentador, seu nome se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Muitas dessas postagens traziam momentos do Programa Silvio Santos (PSS) — o que não é coincidência, pois o dominical é exibido há 62 anos. Detentor do recorde de atração mais antiga da TV mundial apresentada pela mesma pessoa, o PSS é uma das várias frentes de trabalho do patriarca da família Abravanel, que iniciou suas atividades anos antes de aparecer na televisão.

Silvio Santos vem aí!

Filho de imigrantes judeus e o mais velho de cinco irmãos, Senor Abravanel nasceu em 12 de dezembro de 1930 na Lapa, um dos bairros mais antigos do Rio de Janeiro, então capital federal. Durante a juventude, quando estudou contabilidade, passou a trabalhar como camelô. À época, aconteceram as primeiras eleições desde o fim da ditadura varguista do Estado Novo (1937-1945), que, segundo ele, foi o motivo para ser vendedor de capas para as pessoas guardarem o Título de Eleitor, além de canetas.

Como muitos dos veteranos da televisão, tal qual Hebe Camargo e Abelardo Barbosa — o Chacrinha —, Senor iniciou a carreira na comunicação por meio do rádio, no qual fazia pequenas locuções desde 1946. Enquanto serviu o Exército como paraquedista, ele começou a trabalhar, aos domingos, na Rádio Mauá e depois na Continental, de Niterói. Como na época não existia a ponte Rio-Niterói (inaugurada na década de 1970), eram usadas barcas para atravessar a Baía de Guanabara. Senor, então, criou um bem-sucedido sistema de música e venda de bebidas nas barcas para entreter os passageiros.

Quando o veículo aquático precisou passar por reparos, foi para São Paulo e conseguiu uma vaga na Rádio Nacional, em 1954. Àquela altura, ele já tinha certa notoriedade por seus trabalhos no Rio e por participar de concursos de calouros, nos quais surgiu o nome artístico Silvio Santos. Como ele mesmo esclareceu depois, Silvio era um apelido usado pela própria mãe para chamá-lo e Santos veio da crença de que os santos trazem sorte — fato curioso, já que ele era judeu e não católico.

Silvio Santos e o cantor Tony Tornado, ambos jovens. A foto está em preto e branco.
O cantor e ator Tony Tornado e Silvio Santos serviram juntos no Exército
[Imagem: Divulgação/SBT]

Em 1958, após adquirir o Baú da Felicidade de Manoel de Nóbrega, Silvio começou a se apresentar em circos com a Caravana do Peru Que Fala para vender os carnês do Baú, que comercializava brinquedos. Em 1960, o artista comprou duas horas da grade dominical da TV Paulista e estreou o programa Vamos Brincar de Forca (1960-1963/2012-2013), que fez  sucesso e ficou no ar até 1963, quando começou o Programa Silvio Santos, que por sua vez existe até hoje. No início, era uma atração com gincanas em que os participantes ganhavam dinheiro a cada rodada.

Na década de 1960, as Organizações Victor Costa, donas da TV Paulista, entraram em crise, que culminou na venda da emissora para Roberto Marinho, em 1965. Naquele mesmo ano, Marinho — que já era dono da rádio e do jornal O Globo — inaugurou a TV Globo no Rio de Janeiro. A compra de um canal em São Paulo, onde estavam todas as emissoras principais do Brasil, era a chance do jornalista expandir seus negócios. Com essa transação, o Programa Silvio Santos passou a ser exibido pela Globo. Após quatro anos transmitindo apenas para a capital paulista, a atração ganhou a rede nacional em 1969.

Abrem-se as portas da liderança

O sucesso do programa é tamanho que, em seu auge, chegou a ser transmitido por dez horas ao vivo. Silvio Santos se tornou uma celebridade nacionalmente reconhecida e conseguiu usar da fama para expandir as vendas do Baú da Felicidade. Porém, atritos com alguns diretores da Globo, como Boni, levaram-o a romper com a emissora em 1976. Nesse período, foi revelado que Silvio havia adquirido ações da Record, com intermédio de um laranja, já que o contrato com o canal dos Marinho o impedia de ser sócio de outras emissoras.

O dono do Baú conseguiu com a Ditadura Militar (1964-1985) a concessão de um canal no Rio, a TVS, que passou a exibir seu programa para os cariocas. Enquanto em São Paulo a atração ganhava as telas da TV Tupi. Como essa estação televisiva já estava em crise financeira, a emissora — a primeira do país, cuja estreia ocorreu em 1950 — foi extinta em 1980, e o programa passou a ser exibido para os paulistanos pela Record. Através de um lobby (ou seja, da influência) com militares e a primeira-dama Dulce Figueiredo, Silvio conseguiu a concessão de um dos canais da Tupi com o governo da época e fundou, em 1981, o Sistema Brasileiro de Televisão, mais conhecido como SBT.

Silvio Santos e Chacrinha
Silvio Santos e Chacrinha juntos na primeira vinheta de fim de ano da Globo com a música Um Novo Tempo, em 1971 [Imagem: Reprodução/Instagram/TV Globo]

A popularidade do apresentador fez sua emissora se tornar a líder de audiência aos domingos. Foi nesse momento, entre as décadas de 1980 e 1990, que Silvio consagrou certos formatos de auditório dentro de seu programa, entre eles Qual É A Música? (1976-1991/1999-2002) — que projetou o dublador Pablo, a cantora Gretchen e Ronnie Von, Porta da Esperança (1984-1986), Topa Tudo Por Dinheiro (1991-2001), Namoro na TV (1979-1988) e Show do Milhão (1999-2003).

Uma vez consolidado o SBT, Silvio Santos teve em 1988 e 1989 dois de seus anos mais emblemáticos. Em 1988, um problema nas cordas vocais o afastou da TV por meses e fez com que ele desse a Gugu Liberato a oportunidade de ser apresentador em seu lugar. Já no ano seguinte, nas vésperas das primeiras eleições presidenciais desde a Ditadura, o empresário se candidatou e começou a campanha para se eleger ao cargo máximo do Poder Executivo. Porém, em uma reviravolta, a Justiça barrou sua candidatura por descumprir a quantidade de convenções partidárias exigidas para indicá-lo.

Ainda em 1989, a TV Globo estreou o Domingão do Faustão (1989-2021), fato que deu início à famosa guerra pela audiência aos domingos entre esse e os programas de Silvio e o de Gugu, o Domingo Legal (1993-presente). Durante mais de uma década, as duas emissoras competiram pelo primeiro lugar na lista de canais mais assistidos no país. Fausto Silva, na emissora dos Marinho, e Gugu, na de Silvio, usaram várias vezes reportagens e quadros sensacionalistas para prender a atenção do público. Entre os casos de maior repercussão, está a Banheira do Gugu. Por vezes, Liberato e o SBT foram acusados de sexualizar as mulheres que participavam do quadro, vestidas com trajes de banho.

O SBT também foi pioneiro na produção de talk shows na TV brasileira, com os programas de entrevistas de Jô Soares e Marília Gabriela.

Anos 2000 e a roda das polêmicas

Na virada do milênio, após ser enredo da escola de samba Tradição, em 2001, Silvio e sua família foram tema do noticiário policial quando Patrícia Abravanel, sua filha então com 23 anos, foi sequestrada ao sair da mansão onde moravam no Morumbi, na Zona Oeste de São Paulo. Dois dias após receber 500 mil reais pelo resgate de Patrícia e de deixá-la na Marginal Pinheiros depois de oito dias de cárcere, o sequestrador Fernando Pinto invadiu a casa da família, em 30 de agosto, fazendo o apresentador refém por algumas horas. O governador da época, Geraldo Alckmin participou das negociações, que terminaram com a prisão de Fernando.

Ainda em 2001, Silvio causou confusão quando negociou com a holandesa Endemol a compra do formato do reality show Big Brother. Quando o apresentador desistiu da ideia, os direitos da atração no Brasil foram vendidos à Globo. Porém, meses antes da concorrente estrear a primeira temporada do BBB (2002-presente), o SBT lançou a Casa dos Artistas (2001-2004), com dinâmicas muito semelhantes às do programa global. O sucesso da Casa foi imediato e conseguiu vencer a Globo na audiência por uma diferença jamais vista. O caso foi parar na Justiça ainda em 2001, e após passar por todas as instâncias, a emissora da família Abravanel perdeu e foi condenada por plágio, em 2015. A acusação defendia que Silvio teve acesso às regras do programa quando quase o adquiriu com a Endemol, argumento que prevaleceu ao final do processo.

Devido ao escândalo da entrevista com falsos membros da facção Primeiro Comando da Capital (PCC), em 2003, no programa de Gugu e a ida de apresentadores para a Globo — como Angélica, Jô Soares e Serginho Groisman —, o SBT viu diminuir suas chances de rivalizar com a líder de audiência. Desde então, o programa de Silvio conta com quadros como o Jogo dos Pontinhos, o Jogo das Três Pistas e as gincanas e pegadinhas gravadas com pessoas comuns nas ruas do país. Em 2008, com a estreia do Pergunte para a Maísa, Silvio passou a interagir com a apresentadora e atriz Maísa Silva, à época com seis anos. Os dois protagonizaram momentos considerados fofos pelo público e começaram uma amizade que perdurou até a morte do empresário.

Apresentador SIlvio Santos em apresentação do Teleton.
Silvio Santos interagindo com a plateia em foto de 2010 [Imagem: Reprodução/Flickr]

Nos anos seguintes a emissora passou a investir cada vez mais na exibição de telenovelas latinas, sobretudo as da Televisa, e os seriados de Roberto Bolaños, como Chaves (1973-1994), o que popularizou atores dos países vizinhos no Brasil. A programação infantil, com desenhos animados e novelas juvenis, também segue em destaque. Apesar da proibição da publicidade infantil pelo Código de Defesa do Consumidor em 1990, Silvio declarou considerar esses programas um compromisso da televisão com as crianças, independente do lucro. 

Porém, nem só de sucessos foi feita a carreira do patriarca dos Abravanel. O quadro com a pequena Maísa rendeu uma investigação do Ministério das Comunicações em 2009, após o apresentador fazer a menina chorar assustada com uma pessoa maquiada. Além disso, nos últimos anos, falas polêmicas de Silvio lhe renderam acusações de racismo, machismo e homofobia. Uma das mais controversas, em 2019, se deu quando o apresentador disse a saudação a Adolf Hitler ao perguntar ao auditório o nome do pai do responsável pelo regime nazista. Silvio foi criticado por repetir a frase, mesmo sendo judeu.

Silvio Santos e Jair Bolsonaro
Silvio foi criticado por manter relações com todos os governos, inclusive durante a Ditadura, hábito visto por ele como uma forma de manter a concessão da TV aberta [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Além da televisão, Silvio também construiu carreira como empresário. Criou um conglomerado com o Hotel Jequitimar, a rede de cosméticos Jequiti e a Liderança Capitalização, responsável pela Tele Sena. A união dessas empresas e da rede de TV constitui o Grupo Silvio Santos, responsável pela administração. No início dos anos 2010, o grupo enfrentou problemas financeiros com a crise do Banco Panamericano, um dos negócios dos Abravanel. Entre 2006 e 2010, o banco registrou nos seus balanços fiscais títulos de capitalização que haviam sido vendidos, o que aumentou o valor da companhia. Mesmo com auditorias contratadas pelo Panamericano, a fraude só foi descoberta quando o Banco Central analisou os dados.

Essa maquiagem nos balanços fiscais levou a um rombo total de mais de quatro bilhões de reais. O Grupo Silvio Santos tentou empréstimos para salvar a situação financeira e colocou o SBT, a Jequiti e o Baú como garantias do pagamento. Isso agravou os problemas do canal de TV, que passou a perder a vice-liderança de audiência para a Record. O Banco Panamericano seria vendido em 2011 para o BTG Pactual e a imagem dos negócios dos Abravanel foi arranhada entre investidores e clientes da instituição bancária.

Legado de alegria

Silvio Santos em 2010
Silvio seguiu com sorriso no rosto até os últimos anos, como na foto de meados dos anos 2010 [Imagem: Reprodução/Instagram/@tvglobo]

Com a pandemia de covid-19, o apresentador passou meses afastado das gravações. Retornou em 2021, mas, após contrair a doença duas vezes, afastou-se da TV em setembro de 2022. O Programa Silvio Santos seguiu sob o comando de Patrícia Abravanel, filha do apresentador, que não anunciou a aposentadoria de forma oficial nos quase dois anos entre sua última gravação e seu falecimento. 

A morte de Silvio, após três semanas de especulações por conta de sua internação no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, interrompeu a programação dos principais canais de televisão aberta do país. Em um momento raro, canais como Globo e Record se permitiram falar e citar nominalmente Silvio, o SBT e as questões que envolveram o canal e suas concorrentes. No plantão do Jornal Nacional (1969-presente), por exemplo, Renata Vasconcellos e César Tralli relembraram as disputas pela preferência do público aos domingos e situações emblemáticas. Um exemplo ocorreu quando o SBT, sem conseguir ultrapassar a audiência da Globo, anunciava seus programas com a frase: “Após a novela da Globo, troque de canal”.

Afora o momento metalinguístico da TV falando sobre a história da própria TV, a morte de Silvio Santos encerrou uma carreira incomparável. Seja na criação do modelo de programas de auditório que as emissoras produzem até hoje, nos talentos a quem deu visibilidade ou mesmo no seu comprometimento com o público infantojuvenil e com as produções latinas. O papel de Senor Abravanel perpassa a história da cultura brasileira e acompanha a vida das famílias que o assistiram por tantos anos. O apresentador deixou, seis filhas — frutos dos casamentos com Maria Aparecida Vieira (falecida em 1977) e Íris Abravanel. Ficam para a história de um dos maiores comunicadores brasileiros, a saudade dos fãs — os quais ele chamava de “colegas de trabalho” — e o legado de que é preciso levar a vida com a mesma alegria que cantava no início de seu programa, a cada vez que o coro iniciava o “Lá, lá, lá, lá”.


*[Imagem de capa: Divulgação/SBT]

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