Por Victória Guedes (victoria.guedes12@usp.br)
Em mais uma temporada do futebol brasileiro, os problemas seguem os mesmos: a troca de técnicos já virou parte do jogo. No Brasil, a pressão por resultados constrói um sistema viciado em recomeços sem planejamento, que culminam em mais demissões e contribuem para o revezamento de treinadores. Em 2025, nas 38 rodadas do Campeonato Brasileiro, 22 comandantes foram demitidos.

Alguns clubes chegam a trocar de treinador duas ou três vezes por temporada [Imagem: Reprodução/Instagram/@ge.globo]
O Campeonato Brasileiro de 2025 terminou com 22 mudanças no comando técnico. A última troca foi protagonizada pelo argentino Ramón Díaz, que estava no Internacional e foi desligado na 36° rodada após uma goleada sofrida para o Vasco, por 5 a 1. O treinador deixou o time gaúcho na 17° posição do Campeonato Brasileiro, dentro da zona de rebaixamento.
O Internacional se livrou da degola com a contratação inesperada de Abel Braga, que saiu momentaneamente da aposentadoria para assumir o clube nas últimas rodadas e foi substituído, após o final do campeonato, pelo uruguaio Paulo Pezzolano.
Apesar do número de mudanças ser alto, a competição já enfrentou crises piores. Em 2003, antes do formato de pontos corridos, foram 40 mudanças. Já em 2015, com o formato atual do torneio, o número alcançou 32 substituições. Uma constância, porém, se mantém: de 2003 até hoje, o total de trocas nunca ficou abaixo de 20 por temporada.
O reflexo de uma cultura impaciente
A troca constante dos técnicos não é algo recente no futebol brasileiro. Nas décadas de 1970 e 80, já existia uma certa impaciência com tropeços e uma tendência a demitir treinadores após uma sequência de resultados negativos. A estabilidade no cargo sempre foi rara e a cultura de “ganhar a qualquer custo” sempre existiu.
Um exemplo disso é Telê Santana. Ídolo do São Paulo, o treinador sofreu forte pressão da diretoria tricolor em 1995, mesmo com os títulos conquistados sob seu comando. O clube, que vinha de uma sequência de conquistas, enfrentava uma fase de transição, sem conseguir repetir os feitos do passado, apesar de contar com nomes como Denilson e Zetti.
Na época, especulações com o nome do técnico surgiram e críticas foram direcionadas ao seu estilo rígido de comando. Porém, demitir o maior treinador da história do clube era impensável na época. Muito amado pela torcida, Telê só saiu do São Paulo em 1996 por problemas de saúde.

Telê é o técnico com maior número de títulos oficiais na história do São Paulo [Imagem: Reprodução/Instagram/@saopaulofc]
Apesar da resistência do ídolo tricolor, o episódio escancara o imediatismo presente desde sempre no futebol brasileiro, que só cresceu nos últimos anos com a ajuda das mídias sociais para amplificar a pressão da torcida.
Ao pedir demissão do Fluminense, em setembro, Renato Gaúcho chegou a desabafar: “Acabou o futebol. Acabou por causa das redes sociais. Tanto para o jogador quanto para o treinador. Hoje em dia é uma guerra de críticas”. Atualmente, o rodízio de técnicos se tornou algo comum para torcedores e consumidores do esporte. As demissões em curto espaço de tempo viraram rotina e diversos motivos podem resultar na queda de um treinador.
Além da pressão da torcida, há uma interferência por parte de conselheiros e até patrocinadores na confiança depositada no trabalho de uma comissão. Essa influência externa é tão forte que, em 2023, o técnico Cuca pediu demissão do Corinthians apenas dois jogos após assumir o cargo, devido à rejeição dos torcedores por conta das polêmicas envolvendo o seu nome.
De acordo com um levantamento do Globo Esporte, o tempo médio de permanência de um treinador em clubes da Série A do Campeonato Brasileiro é de aproximadamente 5,8 meses. Ou seja, em média, um técnico permanece cerca de meio ano no comando de uma equipe da elite do futebol nacional. Geralmente, essas demissões ocorrem ao fim dos campeonatos, como os estaduais, ou em momentos críticos, como a reta final do Brasileirão, quando alguns times lutam para se salvar do rebaixamento.
Troca atrás de troca: quem lidera o ranking?
Quase todos os clubes da Série A do Brasileirão tiveram troca de treinadores na temporada passada. Apenas seis equipes ficaram fora do interminável rodízio de comandantes em 2025: o Flamengo, com Filipe Luís; o Palmeiras, comandado por Abel Ferreira; o Cruzeiro, com Leonardo Jardim; o Mirassol, de Rafael Guanaes; o Bahia, com Rogério Ceni; e o Ceará, comandado por Léo Condé.
Curiosamente, apesar de terem resistido em 2025, em 2026 três desses profissionais não resistiram a pressão dos resultados: Filipe Luís, Leonardo Jardim e Léo Condé acabaram demitidos por seus respectivos clubes. Em meio à instabilidade crônica dos bancos de reservas, um nome segue como exceção. Multicampeão pelo Palmeiras, o treinador português Abel Ferreira segue no comando do clube há mais de cinco anos e já é o técnico de maior longevidade na elite do futebol brasileiro neste século.
Os outros 14 clubes da elite do campeonato tiveram ao menos uma troca no ano passado, mas alguns chamam atenção pela onda de demissões. O Santos, por exemplo, é um dos que lideram o posto. Em cinco anos, o clube teve 15 técnicos diferentes. A contratação do argentino Juan Vojvoda marcou a chegada do terceiro técnico do alvinegro praiano apenas em 2025. Antes dele, Pedro Caixinha e Cléber Xavier foram demitidos após uma sequência de péssimos resultados.
Porém, o problema persiste no clube há algumas temporadas: em 2023, ano em que foi rebaixado pela primeira vez, o time teve quatro técnicos no comando, todos demitidos após uma forte pressão pelos resultados negativos. Na temporada seguinte, Fábio Carille, que assumiu o Peixe na segunda divisão, sofreu cobrança da torcida e diretoria santista ao longo de toda a campanha e foi demitido antes do último jogo do clube no ano.

O Santos foi campeão da Série B de 2024 com apenas Fábio Carille como técnico [Imagem: Reprodução/YouTube/SantosTV 7K]
Além do Santos, Corinthians e Vasco também chamam atenção. O Vasco é o clube com mais substituições de técnicos no século XXI, com 56 trocas no século, superando as 55 do maior rival, o Flamengo.
Desde 2020, os treinadores do Cruzmaltino têm cerca de quatro meses e meio de trabalho antes de serem substituídos. Ramón Díaz, que também treinou o Corinthians, foi o técnico mais longevo nesse período, mas, mesmo assim, teve menos de um ano de trabalho.
Já o Timão está em seu quarto treinador desde que Augusto Melo – hoje destituído do cargo – assumiu a presidência do clube no início de 2024, o que equivale a uma média de um treinador a cada cinco meses.
A volta de treinadores conhecidos
O futebol brasileiro adquiriu o costume de reciclar seus treinadores. Apesar da grande rotatividade, os clubes nem sempre inovam nas contratações. Casos emblemáticos ilustram esse cenário. Cuca, por exemplo, acumulou quatro passagens pelo Atlético-MG e duas pelo Palmeiras. Em 2026, após a saída de Juan Pablo Vojvoda do Santos, o treinador iniciou sua terceira passagem pelo clube paulista.
Outro nome que simboliza essa repetição é Vanderlei Luxemburgo. Ao longo da carreira, o técnico chegou a ter cinco passagens pelo Verdão, consolidando-se como um dos principais exemplos da cultura de retorno no país.
O futebol brasileiro vive um ciclo vicioso de demitir e contratar e, pela falta de criatividade, quase sempre aposta nos mesmos nomes. O resultado é um mercado fechado, em que técnicos circulam entre os mesmos clubes. Um exemplo é o Vasco, que, apesar de ter realizado 56 trocas de comando no século, teve apenas 41 treinadores diferentes.
Em meio a pressão por resultados imediatos, as diretorias preferem um rosto familiar a um projeto novo, o que reforça a falta de planejamento e a imagem de amadorismo e instabilidade no futebol nacional.
A instabilidade que impede o progresso
Em entrevista ao Arquibancada, Eduardo Alves, observador técnico das categorias de base do Flamengo, que já atuou como treinador no futebol universitário e, anteriormente, como atleta de base, comentou que, em sua experiência em clubes de menor visibilidade, a ausência de uma pressão intensa por resultados favorecia a continuidade do trabalho com os jogadores.
Segundo ele, esse ambiente mais estável contribui diretamente para o desenvolvimento técnico e emocional dos atletas: “A gente consegue ter início, meio e fim dos processos”. Apesar dessa necessidade para exercer um trabalho contínuo, a realidade do futebol brasileiro caminha em sentido oposto.
O problema da pressão por resultados é latente e afeta não apenas o desempenho imediato das equipes, mas também a formação de atletas e o planejamento a longo prazo. Nas categorias de base, essa rotatividade se mostra ainda mais prejudicial, visto que os jovens em formação dependem da continuidade para desenvolverem aspectos técnicos e psicológicos. Com as mudanças frequentes, um ambiente que deveria ser de aprendizado se torna um lugar de incertezas, onde o foco deixa de ser a evolução e passa a ser o resultado rápido.
“O título deve ser a consequência do trabalho de formação na base, e não um propósito”
Eduardo Alves
No alto rendimento a realidade não é muito diferente. A cada novo treinador contratado, o clube precisa recomeçar todo o trabalho de preparação, dificultando uma formação de identidade de jogo. “Aquele treinador que está na gestão do grupo e consegue ter a continuidade do trabalho, consegue acompanhar o desenvolvimento daqueles atletas a longo prazo e identificar pontos de atenção”, afirma Alves. Essa falta de constância explica, em parte, porque muitas equipes brasileiras têm dificuldade em manter um padrão tático e em alcançar estabilidade dentro das competições.
A prática de troca de treinador, já enraizada na cultura do futebol nacional, mascara os reais problemas. “Você acaba transferindo a responsabilidade e alguns outros problemas do processo para uma figura, que é a do treinador”. No entanto, na maioria das vezes, a mudança de comando não resolve a situação do clube, apenas impede que uma filosofia de trabalho seja consolidada. Enquanto a cultura da troca prevalecer sobre a cultura do planejamento, a busca por estabilidade — e por um futebol mais estruturado — continuará sendo um desafio distante.
Arsenal e Palmeiras: o poder da estabilidade
No Brasil, o Palmeiras de Abel Ferreira é o exemplo que melhor ilustra como um trabalho contínuo reflete dentro de campo. Desde sua chegada, em 2020, Abel não saiu mais do clube, mesmo nos poucos momentos de oscilação – algo raro no cenário nacional.
A confiança depositada no português, que chegou sem nenhum título como treinador, permitiu que ele implementasse um modelo de jogo único e sólido, formasse atletas de base e conquistasse títulos importantes, como duas Libertadores, dois Campeonatos Brasileiros e uma Copa do Brasil, que o estabeleceram como o maior campeão da história alviverde.
Além dos troféus, o Palestra colheu os frutos de uma gestão bem planejada e hoje é visto como uma referência em planejamento e organização. Enquanto Abel completou cinco anos de um comando vitorioso, o Vasco teve 15 treinadores no mesmo período, sem nem de longe apresentar o mesmo futebol. Uma prova clara de que continuidade e resultado andam juntos.
Apesar do ciclo vencedor, Abel foi alvo de críticas em 2025, devido às eliminações no Campeonato Paulista e Copa do Brasil. Porém, com a classificação do Palmeiras para a sétima final de Libertadores em sua história, a terceira no comando do português, ele provou novamente a efetividade de seu trabalho e, em 2026, voltou a ser campeão com o título paulista, vencido sobre o Novorizontino.

Abel é o primeiro português a comandar o Palmeiras [Imagem: Reprodução/Instagram/@palmeiras]
Já na Europa, o Arsenal viveu uma transformação muito semelhante. O clube, que passou por anos de instabilidade e críticas, apostou na permanência do treinador Mikel Arteta, que implementou uma reformulação no modo de jogar, ao priorizar os jovens jogadores com um estilo baseado em posse de bola e intensidade.
A paciência da diretoria e torcida se mostraram essenciais para o amadurecimento do projeto e hoje o clube inglês, que faturou uma Copa da Inglaterra e duas Supercopas nesse período, entrou novamente na disputa pelo maior objetivo, a Premier League e a Champions League. O caso é um exemplo de que dar tempo ao trabalho muitas vezes pode ser mais eficiente do que buscar resultados instantâneos.
Em 2025, Mikel Arteta completou seis anos à frente do Arsenal e, mesmo com o processo de reestruturação que conduziu no clube, o treinador ainda convive com críticas. Na temporada 2024/25, viveu um dos momentos mais turbulentos de sua passagem, quando, apesar da queda de rendimento do rival Manchester City, o Arsenal não conseguiu acompanhar o ritmo do Liverpool e terminou com o vice-campeonato da Premier League pelo segundo ano consecutivo. Na atual edição, porém, a equipe londrina recuperou o bom desempenho e atualmente lidera o campeonato.

Arteta foi auxiliar técnico de Pep Guardiola, no Manchester City, por três anos e meio [Imagem: Reprodução/Instagram/@asenal]
Apesar dos exemplos positivos de projetos duradouros, a estabilidade por si só não garante o sucesso. Manter um técnico por longos anos sem nenhum resultado pode paralisar o crescimento da equipe e resultar em uma acomodação. Embora o modelo europeu seja muito elogiado, casos recentes ilustram esse limite.
O Manchester United, que esteve sob o comando de Erik ten Hag por dois anos, apostou em um projeto a longo prazo que não obteve o sucesso esperado. Mesmo após os investimentos pesados, o clube não conseguiu evoluir e a insistência em Ten Hag só prolongou o inevitável: a demissão do treinador. O holandês foi depois contratado pelo Bayer Leverkusen, da Alemanha, porém, foi demitido com menos de um mês de trabalho.
Esses casos mostram que a estabilidade precisa ser qualificada e não apenas duradoura. O sucesso de Arteta e Abel Ferreira não está apenas no tempo de trabalho, mas em um equilíbrio entre ideias, desempenho e gestão. Projetos consistentes exigem confiança, planejamento e, principalmente, uma diretoria que saiba lidar com as derrotas, sem recorrer à solução mais fácil: a demissão.
“Os profissionais precisam ter uma visão um pouco mais minuciosa para entender de fato quais são os problemas e porquê os resultados não estão aparecendo, e não simplificar a questão fazendo uma troca de treinador, porque nem sempre esse é o problema”
Eduardo Alves
O problema continua em 2026
O ano mudou, e a temporada de 2025 acabou no futebol brasileiro. Porém, o tema segue atual. Com apenas sete rodadas disputadas, o Brasileirão de 2026 já contabiliza sete demissões — uma média de uma por rodada.
O Santos, pressionado desde o Campeonato Paulista, viu a saída do argentino Juan Pablo Vojvoda se tornar inevitável após a derrota em casa para o Internacional na última quarta-feira (18). No lugar dele, o clube trouxe de volta Cuca, agora em sua quarta passagem pelo alvinegro praiano, reforçando a tendência de recorrer a nomes já conhecidos em momentos de crise.
No Flamengo, a surpresa foi ainda maior. Mesmo após uma goleada de 8 a 0 contra o Madureira pelo Campeonato Carioca, o clube optou por demitir Filipe Luís. A saída inesperada abriu caminho para Léo Jardim assumir o comando do atual campeão brasileiro e reforçou a ideia de que nem mesmo resultados expressivos garantem estabilidade no futebol nacional.
*Imagem de capa: Reprodução/X/@futebol.info
