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A caixa-preta: mais um clássico “Quem matou fulanx?”
Na Estante
22 dez 2017 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Suma de Letras

Caixa-preta, substantivo feminino: “Espécie de gravador instalado em aeronaves, com função de registrar as comunicações entre a cabine (piloto e copiloto) e a torre de comando, bem como os dados do avião e do voo, o que permite descobrir causas de acidentes aéreos” – Michaelis online.

Em um acidente aéreo, a caixa preta é a peça-chave que costuma ser a solução para o caso em questão. No mistério criado e escrito por Michael Connelly, vemos um detetive em busca de sua caixa-preta. No entanto, ao invés de um acidente aéreo, entra em questão um assassinato. Com muito suspense, enigmas e com uma trama cheia de adrenalina, A caixa-preta (Suma de Letras, 2017) tem tudo para te prender.

O livro conta a história do veterano detetive Harry Bosch. Apesar de já estar velho para o trabalho, ele segue nas funções de seu distintivo não só para buscar seu sustento, mas também por considerar o trabalho como um hobby e por ser uma de suas atividades favoritas.

A história começa em 1992. O cenário: Los Angeles, Califórnia. A situação: protestos e guerra entre gangues rivais ocasiona uma grande onda de anarquia pela cidade – agora, palco de vários crimes, incluindo assassinatos, que aterrorizam a todos. Nesse contexto de muita violência e sangue, Bosch é um dos detetives responsáveis pela perícia desses casos, e o responsável por decifrar a morte dos inúmeros falecidos.

Neste período, as ocorrências são muito frequentes por toda a cidade, o que mobiliza um grande número de policiais para diversas áreas de Los Angeles. Ainda assim, as investigações acabam sendo ineficientes devido ao curto período de tempo disponível para avaliar toda a situação, já que os policiais precisam sair de um lugar e se dirigir a outro caso.

Numa dessas noites, Bosch analisa um crime que chama muito sua atenção, numa ocorrência que marca sua vida para sempre. Encostado na parede de um beco, um corpo de uma mulher branca é encontrado, morta com um tiro à queima-roupa no seu olho. Mais tarde descobre-se que o corpo era de uma fotojornalista estrangeira, Anneke Jespersen. O caso de Anneke intriga muito o detetive, que passa a questionar qual a ligação dela com as gangues, o que ela fazia naquele lugar, naquela hora. No entanto, por conta da correria devido às outras ocorrências, o caso da “Branca de Neve” (nome dado por policiais envolvidos) fica esquecido e sem solução nos arquivos.

Vinte anos depois, em 2012, a vida de Bosch segue naturalmente. Agora, porém, ele trabalha na divisão da polícia responsável pelos casos abertos/não fechados. Em um momento, ele se depara novamente com a oportunidade de rever o caso da fotojornalista, que nunca saiu de sua memória, com se tivesse formado um vínculo. Mas as coisas não são tão fáceis, como já esperado. E então, Harry tem que lidar com os contratempos do tempo, com informações perdidas, a ausência de muitas evidências, e tendo que começar com poucas certezas, praticamente do zero. Mesmo assim, o detetive não desiste de solucionar um dos casos mais importantes de sua vida – senão o maior e principal.

Além disso, somos apresentados e convidados a conviver com o lado pessoal da vida do detetive. Sua relação com a filha, Maddie, também entra em foco. Por conta do trabalho, muitas vezes o detetive sente estar falhando na criação de sua filha, já na adolescência, e se cobra muito por isso. Ao longo do livro vemos essa relação se desenvolver – mesmo que pouco – com os dois se conhecendo mais em alguns momentos.

Por mais que A caixa preta pareça entediante no começo, com um grande número de páginas seguindo sem um ritmo empolgante, vale a pena manter a leitura do início ao fim. Como já é comum a toda história do gênero suspense policial, todas as informações servem para montar um quebra-cabeça, e o desafio intriga o leitor num interessante enigma. Ou seja, nada é em vão. Tudo faz sentido, mesmo que a princípio esteja longe do nosso alcance.

Quando o livro atinge um ponto específico, sentimos estar frente à tão procurada caixa preta, e este é o convite final a se deixar levar. A partir de então, o ritmo segue com muita adrenalina, ação, e as interrogações passam a ser exclamações, ao passo que as dúvidas se encerram aos poucos.

A trama pode parecer boba e genérica, porém, ela é capaz de nos surpreender em diversos aspectos. Tudo que a narrativa perde com sua lentidão inicial é recuperada na parte final. Por mais que seja complexo tentar explicar como tudo decorre sem adentrar na zona de spoilers, vale a pena ressaltar apenas que as muitas revelações mudam o rumo das coisas, e mesmo que ao longo da leitura o leitor já tenha suspeitos para tudo, provavelmente, esse palpite será derrubado. E isso pode servir como um indicador de que é uma boa história.

O caso de Anneke Jespersen é intrigante, e o leitor, assim como o detetive Harry Bosch, começa a se interessar cada vez mais por essa mulher, que teve uma morte brutal e precoce. A fotojornalista representa um exemplo que, infelizmente, pode ter acontecido diversas outras vezes para além do fictício mundo da literatura. Por conta disso, mesmo para quem nunca tenha se aventurado a desvendar um mistério policial, A caixa-preta é uma ótima escolha. Buscar as respostas para esse mistério é, além de tudo, uma grande aventura. Afinal, sempre resta o interesse pela pergunta final: Quem matou Anneke Jespersen?

Por Gabriel Bastos
gabriel.bastos@usp.br

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