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A menina sem palavra: Mia Couto em forma de conto
Na Estante
29 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Sofia Aguiar/ Jornalismo Júnior

Por Sofia Aguiar (sofia.aguiar@usp.br)

Reunindo 17 contos, o livro alude a um cenário especialmente mágico. Indo de encontro com retrato de Moçambique como uma caldeira de guerra, miséria e desprezo social, a obra aborda a riqueza infantil do país. E o que mais relacionado à infância do que  mágica e ingenuidade?

Matrizes africanas não são apenas permeadas por violências, mas são, primordialmente, costumes. Na seleção dos contos, o que permeia no imaginário do leitor é a natureza moçambicana, tão instigante e única. A rotina familiar mostra-se de forma muito intensa, em uma complexidade de relacionamentos que a complementa. Mães, pais, avós, filhos e agregados montam histórias simples, instigantes e, se o leitor permitir, ferramentas para uma comprovação de pensamentos coutianos. É um livro simples e fantástico, mas não permite se limitar a um povo idealizado.

As críticas sociais e políticas ficam em segundo plano na obra. Fácil de ler, é possível que tais temáticas passem batidas e que a fantasia e as relações pessoais construídas nos contos sobreponham àideia de uma conjuntura nacional. Mas a seleção e a disponibilidade das histórias não fogem de tal crítica.

Já no primeiro conto, “O dia em que explodiu Mabata-bata”, o autor relata a história de uma criança que, vivendo em uma fazenda, cuidava de bois. A construção lúdica leva ao fechamento do conto, quando ocorre a explosão de um boi. Estranho porém, sem fantasia, não seria Mia Couto. Mas, desde o início, percebe-se o único desejo do menino: ir à escola. E justamente por tal desejo, não compreendido por seus tios, é que se desenrola o conto. Até que, no fim, seu desejo não é cumprido – apesar da promessa feita pelo tio – e encontra-se em uma reprodutibilidade de trabalho infantil.

Na história “O apocalipse privado do Tio Geguê”, um dos maiores contos da obra, é também o de maiores críticas. Narrada por uma criança órfão de pai e mãe queive com seu tio, uma pessoa solitária e calada. Sem saber a quem contar, o menino guarda suas angústias, como os sonhos que têm com sua mãe, quem não conhecera, e observa a ascensão de seu tio como milícia.

A reprodutibilidade da maldade é alvo do conto. A ascensão do tio como milícia faz com que ele obrigue o menino a cometer crimes para, então, poder exercer seu poder, como ilustrado em uma frase do tio Geguê: “Você pensa um milícia existe enquanto há paz?”. E o gosto por fazer maldade acendia no menino que, sem arrependimento, ouvia os ensinamentos de seu tio: “Não há bons nesse mundo. Há são maldosos com preguiça”. E retoma com a ideia de que amores enfraquecem o homem.

Na imagem de Zabelani, órfã de pais por conta da guerra, o conto alude a maldade e morte. Finalizando, traduz-se o semblante nacional: “A morte se tornara tão frequente que só a vida fazia espanto”.

 “O embondeiro que sonhava pássaros” é a representação do conflito entre colonos e nativos. O preconceito permeia o conto e representa a relutância de um bairro de colonos contra um vendedor de pássaros, tão belos e coloridos, pelas ruas. A presença do africano incomodava, “afinal, os pássaros desauteciam os residentes, estrangeirando-lhes? Ou culpado seria aquele negro, sacana, que se arrogava a existir, ignorante dos seus deveres de raça?”. E, em um toque mágico de Mia Couto, o vendedor vira flor e entende-se: “Ele é que era natural, rebento daquela terra.”

E a surpresa das críticas só cresce. “As baleias de Quissico” relata a confiança de um povo pautada em mitos. Não se trata sobre uma crítica à ignorância, ou tendo ela vista como nacional, mas sobre os costumes e os hábitos de crença de uma nação. O hábito da pesca em família é relatada em “Nas águas do tempo” e transparece uma tradição moçambicana: “A água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre.”

Ser criança requer pais. O abandono e a pressão familiar inundam as páginas da obra. “A filha da solidão” e “O rio das Quatro Luzes” mostram um ambiente familiar e como a criação é um fator determinante no desenvolvimento da criança. Entre depósito da ascensão familiar na filha e o descaso dos próprios pais, a temática é muito abordada.

O último conto é “Inundações” e alude à necessidade moçambicana de uma inundação para reencontrar seu passado mas construir seu futuro, de forma desapegada e mais inteligente. É uma inundação de memórias, vivências, mas que, pelo futuro balizado nas crianças, é possível germinar uma nação nos solos moçambicanos, mesmo com uma terra antiga de preconceito, desigualdade e miséria.

O conto que dá título ao livro, “A menina sem palavras”, é a representação nacional. Moçambique não consegue falar, sua voz é abafada e ninguém escuta mas, assim como no conto que originou o nome da obra, basta dar uma chance de Moçambique renascer e ressurgir de seus males. No conto, esse ápice vocal ocorre quando a menina vislumbra a lua. Que tipo de lua Moçambique precisa ver para poder, finalmente, falar?

Mia Couto faz com que tenhamos vontade de conhecer essa voz, pequena se comparada a tantas vozes africanas ainda caladas. Apesar das inúmeras críticas sociais, esse não é o intuito do livro. A obra é leve e seu objetivo é mostrar os costumes de uma nação. No entanto, pela longa duração, as desigualdades, desprezo, descaso e exploração estão tão impregnadas nos costumes e hábitos que faz com que eles apareçam na obra. A intenção de Mia Couto não era montar um país utópico.

    Leve, com contos rápidos e que instigam a curiosidade, a leitura rende com uma admiração pela facilidade que o autor teve ao construir os contos para os leitores. Eles querem saber mais mas, na medida certa, Mia Couto junta a ingenuidade da criança com um teor social. Tão resguardado e, ao mesmo tempo, gritante.

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