Home Mundo Geek A noite em que o Tinder evidenciou nada além da nossa solidão
A noite em que o Tinder evidenciou nada além da nossa solidão
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08 ago 2016 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de destaque:  Diego Andrade/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Li uma vez que todas as pessoas que conhecemos estão enfrentando batalhas das quais não sabemos nada a respeito e de certa forma isso resume muito bem o que eu acredito. O que eu sigo. O que eu escrevo. O que eu bebo, eventualmente, nesses bares de esquina. E como o limão, que apesar de azedo, suaviza a ardência da tequila, eu atribuo batalhas a essas pessoas meio que pra amenizar essa ignorância minha, pra tentar me relacionar melhor comigo.

O garçom me oferece uma por conta da casa, que eu bem sei, sairá por conta dele. Praticidade e uma boa dose de superficialidade fazem parte de como se estrutura a nossa sociedade e de como as relações são criadas. Meu celular acende. Uma notificação. Um match qualquer no Tinder. Engraçado como a gente banaliza as coisas, como uma pessoa corresponder à minha atração pode significar tão pouco. Pra mim. Pra mim e uns outros quinhentos. Mas eu realmente quero ser otimista que não pra todos.

Aquele casal, conversando nos sofás do canto. Dividindo uma garrafa de cerveja. Eles poderiam ser os primeiros homens um do outro. Ele estaria namorando uma garota ainda quando deu match com esse cara no Carnaval há uns dois anos e marcou um encontro, afinal, porque não? Ninguém acha que vai desenvolver um relacionamento nesse ponto, mas hoje eles chamam isso de “amor à primeiro match”… E sabe qual é? Eles assumem isso pra todo mundo e você não tem coragem de julgar os meios, porque eles ficam bem juntos, sabe? Porque é uma história de amor pra ninguém botar defeito, porque tem muito de autoaceitação ai. Minha tia mesmo encontrou o atual namorado no Tinder, não que ela assuma. Eles estudaram juntos na faculdade e lá estava ela, tão linda e com dificuldade de encontrar alguém, reencontrando agora por um aplicativo.

A garota encostada no balcão bem que poderia ter acabado de sair de um encontro. O rapaz era fofo, um pouco mais alto e magro que nas fotos, mas fofo. A conversa foi boa, o beijo nem tanto. Mas a palavra fofo era a única coisa que não desgrudava da sua mente. Ela saíra com ele em um impulso: ele chamava Max e ela acabara de ler um livro em que o protagonista se chamava Max. Definitivamente, o fofo não era de nome. E ela não se conformava de ser dessas meninas que diz não gostar do cara fofo, porque essas meninas… Ah, o que sua mãe diria que elas encontrariam no Tinder? Talvez seu copo vazio denunciasse uma vontade de apagá-lo, talvez ela apagasse mesmo.

Ouço uma garota levantar a voz, afirmando que aquilo foi um erro, num tom alto demais, agudo demais, e batendo os saltos ao sair. Eles também haviam se conhecido no Tinder e ele estava decepcionado. Não exatamente com ela, mas com como uma pessoa podia se mostrar tão preconceituosa em quinze minutos. Ninguém deveria ser assim. Ele se lembra com carinho da garota que trouxera pro mesmo bar uma semana antes. Não haviam combinado nada, simplesmente a encontrara sem querer no metrô e a reconhecera das conversas no aplicativo. Talvez já fosse hora de combinar algo. Ele pega o celular do bolso e meu olhar se encontra com o do garçom. Peço a conta.

Uma garota entra no meu campo de visão e eu a reconheço. A gente chegou a sair por um mês, eu já estava me acostumando a dormir na casa dela. Depois de um desses porres, eu mandei uma mensagem avisando que não dormiria lá, porque ela roncava. Sim, eu estou ciente de que ela usa isso de meme por ai, mesmo que já tenha operado as amídalas e não ronque mais. E não é que eu goste de ser o fantasma, a personagem que simplesmente some, o rosto pra esse tipo de frustração. Sei que ela as vezes se pega dizendo que você tem que dar um milhão de matchs, pra conversar com mil, cem conversas engrenarem, sair com cinquenta, pra nenhum dar certo. Isso se chama frustração. E de fato, eu sou um dos rostos dessa. Então saio pela porta rapidamente, colocando o capuz pra me proteger da garoa e da culpa.

Escuto a conversa de duas garotas na fila, enquanto espero o táxi. Elas estão discutindo justamente suas péssimas experiências ou a bebida está mexendo com meus sentidos. Não seria a primeira vez. A menina com uma tatuagem no ombro, aparentemente chamada Patricia, contava sobre um rapaz que havia deixado com ela um suéter após o primeiro encontro, para assim eles terem que se ver novamente, mas que marcando o segundo encontro, deixou-a falando sozinha e ainda por cima a bloqueou. Como uma boa pessoa mal amada, ela ainda o adicionara no face pra perguntar se ele estava vivo, fizera seu amigo ligar pra ele no que ele atendeu. E por isso, era inacreditável a desculpa dele uma semana depois de que tinha perdido o celular, ao que ela respondeu não ser verossímil e pediu para que melhorasse. Ele, como um bom eu, disse simplesmente que não precisava. Eu ainda conseguia ouvir as garotas rindo enquanto eu entrava no táxi, mas minha cabeça revirava tanto como meu estômago e eu não tinha vontade nenhuma de rir.

Pego meu celular e vejo uma mensagem da Julia, a garota do relacionamento aberto com quem eu tinha saído ontem com o único intuito de nos pegarmos mesmo. Ela está me perguntando de onde conheço a Natalia, uma garota com quem eu saía há uns cinco meses e que estragou as coisas convidando do nada umas cinco amigas no último encontro. É… Parece que uma dessas cinco amigas era a namorada da Julia, que por acaso era ex da Natalia. Eu sinto que isso é tão confuso quanto pra uma pessoa sóbria, mas juro, que nesse estágio não estou me esforçando o mínimo pra entender algo além de: o mundo é realmente pequeno pra tantas batalhas.

Você pode até se perguntar porque me refiro ao mundo e não especificamente ao Tinder, mas o último não passa de um reflexo do primeiro. Você me diz que se sente em uma vitrine quando espera que uma pessoa “goste” de você por suas fotos e uma pequena descrição, mas eu te pergunto: o quanto isso é diferente de se aproximar de uma pessoa na rua, na balada, na igreja ou no trabalho? A primeira impressão em todo caso é a aparência. A partir daí, o que você faz é com você, aqui no mundo real ou no virtual. A pessoa que stalkeia e descobre o partido político, a banda favorita e a foto com os irmãos menores, é a mesma que presta atenção em como a pessoa se posiciona, seus assuntos, o modo como o sorriso vem quando fala da família… E quem se baseia só na aparência, se baseia aqui e lá. Quem quer algo por uma noite, quer aqui e lá.

Não é que nos sentimos, vivemos em uma vitrine. Em uma perpétua seleção do que nos cai melhor ao olhar do outro. O primeiro encontro nunca é exatamente sincero e por aí vai. Nessa dinâmica, alguns encontram os seus e outros simplesmente já desistiram de encontrar. Pode parecer meio duro, meu bem, mas já passou da hora de assumir que o problema não é o Tinder, o cupido ou o mero reflexo no espelho, somos nós. E todo mundo com quem eu cruzo ultimamente tá precisando refletir mais sobre como se relacionar, seja com a mãe, o marido, a amiga ou o carinha do Tinder. Não sei se só parece, mas nessa de amores que chegam e são superados rápido demais, a gente se perdeu um tiquinho. O romantismo não morreu, mas o ser humano tem morrido cada vez mais de solidão. E álcool.

Por Aline Melo
alinemartimmelo@gmail.com

 

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COMENTÁRIOS
Max
Adorei seu ponto de vista.
07 out 2016
 
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