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A polícia e o pandeiro: como a cabo Bonfim leva a música às crianças
08 abr 2018 | Por Jornalismo Júnior

Uma ronda da Polícia Militar em um parque de São Paulo. Nisso não há nada de curioso, ou inusitado.

Incomum seria encontrar, no meio do parque, uma policial tocando pandeiro e criando sons com uma roda de crianças. Há 14 anos, é isso o que acontece às terças-feiras no Parque Villa-Lobos. Com flautas, tamborins, violões e atabaques, são diversos os timbres e as aptidões treinados pelas crianças por meio do Projeto Integração.

Para além da música, aulas de circo, dança e educação artística também são oferecidas pelo projeto. A única exigência é que se esteja matriculado na escola. Desde 2003, a responsável é a cabo Renata Bonfim, que busca proporcionar educação musical às crianças de escola pública.

Policial Renata com as crianças do projeto (Imagem: Eugênia Nóbrega)

Parcerias e dificuldades

Através de programas de prevenção ao uso de drogas e à violência nas escolas, a cabo apresenta o projeto às crianças e o introduz às instituições de ensino. Hoje em dia, o projeto tem parceria com a escola estadual Victor Oliva e a creche Mãe do Salvador, ambas localizadas na região do Alto de Pinheiros. Em um momento anterior, contudo, o projeto tinha uma abrangência maior do que a atual. O prejuízo foi causado pela falta de transporte, já que a dificuldade em arrumar apoio é contínua, de acordo com a policial: “A Prefeitura não dá, o Estado não dá, os pais não têm como levar e as crianças não têm como ir sozinhas. No momento, a creche conseguiu um apoio e uma van leva as crianças. Mas a gente não sabe até quando vai”.

Além do parque, as aulas também começaram a acontecer na própria escola, facilitando parte do problema de locomoção. Dessa forma, as dificuldades passaram a ser minimizadas com apoios voluntários, principalmente de amigos da policial e dos próprios professores do projeto. O Conservatório e Faculdade de Música Souza Lima também é, há três anos, grande parceiro do Projeto Integração, e oferece instrumentos e professores que ensinam às crianças as mais diversas áreas da música. Daniel Camiranga, estudante do Souza Lima, trabalha como professor no projeto e acredita na música como um preenchimento artístico importante para as crianças: “O ensino da parte musical garante uma ocupação positiva, porque, além de entretenimento, a arte também é informação e educação”. E acrescenta: “É um projeto que ampara de várias formas e que mostra a importância da arte para a cultura brasileira”.

Atividades

Ao longo do ano, diversas apresentações são preparadas, sendo a principal e maior delas a de encerramento. Realizada no dia 28 de novembro de 2017, o projeto permitiu que as crianças se apresentassem no teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, em um majestoso evento. Com muita música e dança, houve apresentações de uma pequena orquestra com coral, além de percussão e uma dança de Bumba Meu Boi, sempre com os ritmos brasileiros muito presentes. A solenidade contou com a participação de cerca de mil crianças, dentre as que assistiram e as que tocaram.

Crianças na apresentação no Teatro Paulo Autran (Imagem: Beatriz Gatti)

A dança e o bumba meu boi também fizeram parte da apresentação (Imagem: Beatriz Gatti)

Ainda no final de ano, a confraternização de encerramento das atividades do projeto em 2017 contou com a presença de mais de 150 crianças, que ganharam presentes de Natal arrecadados por voluntários e amigos do projeto.

No último encontro do ano, as crianças receberam presentes de Natal (Imagem: Beatriz Gatti)

Importância e horizontes

Muito além de prevenção, conta Renata, o projeto possibilita um maior desenvolvimento cognitivo, e também aprimora a convivência entre as crianças e a integração entre as linguagens. Principalmente quanto às escolas públicas, Renata acredita na iniciativa: “É importante porque o ensino público não propicia para a criança essa qualidade de ensino musical”. O Integração garantiu à cabo o prêmio Polícia Cidadã em 2009, realizado pelo Instituto Sou da Paz, ONG referência em relação às ações de políticas públicas vinculadas à segurança.

A policial, formada em pedagogia e pós-graduada em cultura popular brasileira, conta ainda que é gratificante poder atuar na sua área dentro da instituição militar: “[A pedagogia e a música] Eu já carrego comigo há muito tempo. Quando eu entrei na Polícia e vislumbrei essa possibilidade, foi perfeito: utilizei tudo o que eu sabia para lidar com isso”, finaliza Renata.

Por Beatriz Gatti
beatrizgatti.c@gmail.com

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