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“A Rebelde do Deserto”: política e feminismo na literatura infanto juvenil
Na Estante
29 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de destaque:  Diego Andrade/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

O livro A Rebelde do Deserto (Seguinte, 2016) traz o típico personagem com os dedos sempre no gatilho, só que na pele de uma mulher. Amani Al’Hiza não consegue aceitar, sequer compreender, as regras de Miraji, onde as mulheres e os pobres não possuem voz. Seus olhos azuis são um dos únicos pontos de cor nessa imensidão brutal do deserto e esse aspecto, aparentemente banal, se mostrará central para a narrativa.

Seu maior desejo é escapar da Vila da Poeira, cidade responsável por fabricar as armas para o exército do Sultão, que só aumenta com a perspectiva de um casamento forçado. Na falta de pretendentes, seu próprio tio ameaça tomar sua mão, mas essa vida submissa não lhe caberia bem. Seu plano de fuga se inicia pela questão fundamental: a falta de dinheiro. Para isso veste-se de homem e se dirige a um grande torneio, onde sua mira se destaca, bem como seus olhos, o que lhe confere a alcunha de Bandida dos Olhos Azuis. É também nesse torneio que conhece Jin, o forasteiro enigmático que cruzará, não por obra do destino, outras vezes seu caminho. Infelizmente, a disputa é encerrada sem um vencedor por um dos rebeldes, seguidores do príncipe renegado que reivindica o trono que lhe é de direito.

Amani é e respira o deserto. Cada linha do livro que protagoniza é como o deserto em si e é difícil dizer se isso é positivo ou não, pois apesar de fiel a sua proposta, torna-se uma leitura difícil no âmbito da literatura infanto juvenil. Não por dificuldade de vocabulário, mas pela construção da história em si. Você tem uma narrativa repleta de elementos místicos que não são devidamente apresentados, mas emaranhados à trama da garota, o que exige uma atenção extrema, que justamente se dispersa pela descrição de um ambiente tão seco e inóspito. Porém, passada a primeira metade do livro, o enredo se torna envolvente. É um daqueles livros em que 50 páginas e algumas passagens, podem justificar a leitura. Ou não.

O leitor compromissado irá acompanhar toda a jornada da protagonista ao lado de Jin, o garoto envolvente que está sendo perseguido pelo exército do Sultão, mas que é fiel como um cão à proposta de mantê-la viva. Somente nos capítulos finais, é possível conhecer suas justificativas, mentiras aos olhos de Amani: justamente a garota incapaz de contar sequer uma mentira está apaixonada por um mentiroso.

“Aqueles dois meses no deserto pendiam entre nós. Todas as coisas que ele tinha me dito, e as que não tinha. Os segredos e as mentiras. O reconhecimento de que eu não o abandonara dessa vez. Em dois meses eu havia me transformado: antes uma garota que o havia dopado e largado numa mesa, e agora uma garota que o arrastara por território inimigo e entre carniçais assassinos para salvá-lo. Nenhum de nós sabia o que dizer.”

Trata-se de uma história de amor, de fuga, de traição, de poderes a serem descobertos e, principalmente, de ebulição política. O príncipe Ahmed e sua rebelião foram os responsáveis por aquelas 50 páginas de valor nesse livro, pois, mesmo envolvendo magia, é o ponto em que a fantasia tange a realidade. É impossível não ler o seguinte trecho sem pensar nas deficientes estruturas do nosso próprio mundo:

“As pessoas neste deserto deveriam ter um país que pertencesse a elas, não a um homem. Todos aqui vivem como se alguém ateasse fogo neles quando nascem. Tem tanta grandeza em Miraji, e tantos atos terríveis sendo cometidos pelo meu pai e pelos gallans. O povo merece algo melhor. Shazad, por exemplo, merece um país onde sua inteligência não seja desperdiçada por ela ser mulher. Os demdjis não devem temer por sua vida só porque meu pai se aliou a um país que queima aqueles tocados pela magia. Minha mãe merecia algo melhor do que ser espancada até a morte por se rebelar contra uma vida que ela não escolhera. Poderíamos tornar Miraji o melhor país do mundo.”

Quanto à protagonista, Amani demora a encontrar seu papel na revolução e também a entender o quanto ela é o próprio deserto. Seus desafios não acabam até a última página e sem dúvida, ela prova muito como personagem e, nesse caso, como personagem mulher.

“Nascer não torna ninguém importante. Mas você era importante quando a conheci, a garota que se vestia de garoto, que tinha aprendido sozinha a atirar com precisão, que sonhava, salvava e desejava com tanta força. Aquela garota era alguém que se fez importante. Era alguém de quem eu gostava. O que aconteceu desde que você chegou aqui? Porque ela se tornou tão irrelevante para você? É por isso que eu não queria envolver você nessa revolução, Amani. Não queria ver o fim da Bandida de Olhos Azuis por um príncipe sem reino.”

Por Aline Melo
alinemartimmelo@gmail.com

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