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“As Meninas”: mulheres diferentes que juntas caminham
Na Estante
01 jan 2017 | Por Jornalismo Júnior

Se, logo nas primeiras páginas de As Meninas (Companhia das Letras, 1973), o interesse pela história de Lena, Lião e Ana Turva não despertar em você, ao menos o reconhecimento de que a escrita de Lygia Fagundes é um ponto fora da curva vai. Pretensioso julgar o que acharão de uma obra, não? Longe de superestimar a autora, ou mesmo a história, há obras que, de tão boas, devem ser reconhecidas.

O livro, escrito e publicado na época da Ditadura Militar brasileira, conta a história de três adolescentes: Lia de Melo Schultz, Ana Clara Conceição e Lorena Vaz Leme , apelidadas entre elas, carinhosamente, de Lião, Ana Turva e Lena. As meninas de Lygia são espelho das nossas meninas e, tal como nós,  são vastamente diferentes, apesar de terem coisas semelhantes. O que lhes cabe em comum, além de residirem no Pensionato Nossa Senhora de Fátima, é a amizade que têm uma com a outra.

Por meio de capítulos que vão intercalando a primeira pessoa do texto entre as protagonistas, Lygia Fagundes nos dá parcelas da vida e da intimidade dessas meninas aos poucos. A história une as questões particulares das vidas pessoais das meninas que, inevitavelmente, se entrelaçam à conjuntura política do país. Talvez a vida de Lião seja a que mais é guiada pelo contexto da repressão política. Estudante de ciências sociais, ela envolveu-se com a militância da esquerda na faculdade. É daquelas meninas que questiona todos os valores estabelecidos — especialmente os que restringem a liberdade das mulheres.

Lena é a personagem que, de tão generosa e solícita aos pedidos das amigas, chega a nos fazer pensar no real sentido dessa generosidade. Mas o julgamento fica a critério de cada  um. Rica e extremamente organizada, ela é apaixonada por um homem mais velho e casado. Ana Turva é, talvez, a personagem mais difícil de decifrar. No mesmo compasso da confusão em que se encontra sua vida, seus relatos também são cheios de regressões sobre sua infância. Ela faz uso  problemático de drogas e sonha em enriquecer.

Unindo perspectivas particulares e o contexto brasileiro, a história encontra centralidade numa relação de amizade feminina. Mulheres completamente distintas mas que, ainda assim, tem um grande laço de companheirismo e caminham juntas.

Ao final, descobrimos que, possivelmente, o mais pretensioso é pensar que conhecemos tudo das meninas de Lygia. Afinal, nem das nossas conhecemos. Madre Alix,  uma das freiras  do pensionato, também pensava isso, e talvez ela resuma muito desse sentimento: “Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas, chego a pensar que  sei  tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa. Quase nada. O que sei, afinal? Que é da esquerda militante e que perdeu o ano por faltas? Que tem um namorado preso, que está escrevendo um romance e que está pensando numa viagem que não tenho ideia para onde seja? Que sei eu sobre Lorena? Que gosta de latim, que ouve música o dia inteiro e que está esperando o telefonema de um namorado que não telefona? Ana Clara, aí está. Como me preocupa e faz confissões, eu podia ficar com a impressão de que sei tudo a respeito dela. Mas sei mesmo? Como  vou separar a realidade da invenção?”

Por Mayara Paixão
mayapaixao1@gmail.com

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