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Coisa Mais Linda: clichê ou inovadora?
Controle Remoto
11 abr 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por: Mayara Prado

mayaraprado@usp.br

O ano é 1959, época marcada pela positividade do brasileiro. O governo inovador de Juscelino Kubitschek, a construção de Brasília, as belas roupas e, é claro, a querida Bossa Nova são alguns dos fatores que construíram a mentalidade esperançosa do momento. No entanto, por trás desse otimismo, é notável uma sociedade patriarcal e racista,  na qual a mulher não possui local de fala e o negro é associado à servidão.

É nesse ambiente, retratado por meio de uma bela fotografia, que a narrativa de Coisa Mais Linda se desenvolve. Maria Luiza (Maria Casadevall), a protagonista, passa a se descobrir na capital fluminense após se deparar, pela primeira vez, livre do domínio masculino sob sua vida. A personagem, a princípio, representa a típica figura feminina do século XX: casada, mãe, vinda de uma família tradicionalmente rica e branca. Todavia, ao ser abandonada pelo marido e estar longe do domínio de seu pai, Malu prova ser muito mais do que a clássica boneca de porcelana. Com seu espírito excêntrico, grandes sonhos, bem como personalidade forte, ela não se permite ser dominada pela sociedade.

Além de Maria Luiza (Maria Casadevall), a série apresenta como protagonistas mais três mulheres: Lígia (Fernanda Vasconcellos), Thereza (Mel Lisboa) e Adélia (Pathy Dejesus). A primeira é também uma figura feminina vinda de uma família tradicionalmente rica e é casada com um político. Apesar de sua vida, por fora, aparentar ser um conto de fadas, Lígia é uma mulher triste, tendo que ser uma atriz dentro de sua própria pele. Sempre sorridente e arrumada, é obrigada a fingir alegria enquanto o seu companheiro a priva de seguir a sua carreira como cantora, impondo-na medo por meio de constantes abusos psicológicos e físicos.

A personagem Thereza (Mel Lisboa) já representa uma feminista que poderia ter saído direto do século XXI: possui um trabalho como escritora, não se deixa calar perante os seus colegas de redação (que são todos homens) e defende a liberdade, bem como a união das mulheres. Por fim, temos Adélia, a única protagonista negra, da comunidade e que trabalha desde os 8 anos para ajudar no sustento de sua família. A série a retrata como uma mulher forte que, apesar de suas dificuldades diárias, se mantém alegre.

O seriado, de modo geral, é muito bom, levantando questões importantes do feminismo, assim como abrindo discussões relevantes que até hoje carecem ser debatidas, como o aborto. A história é bastante inspiradora ao ressaltar a garra das mulheres e como os direitos atualmente garantidos, apesar de ainda não serem suficientes, foram produto de luta incessante. É bastante interessante a forma que a narrativa se associa com a religião, visto que essa, quando retratada em obras ficcionais, está, geralmente, relacionada às divindades masculinas. Iemanjá, a orixá protetora das mulheres, prova que a figura feminina é mais poderosa do que se deixa aparentar, tendo a vivacidade do divino.

Outro aspecto positivo é o fato de se tratar de uma série brasileira, tornando toda sua narrativa mais próxima do espectador. Citando caso análogo, o catálogo do Netflix está repleto de enredos com um caráter feminista, porém essa é a única que possui referências nacionais, trilha sonora exclusiva de Bossa Nova e problemas que estão diretamente relacionados com a história do Brasil.

Todavia, a série apresenta falhas notáveis em sua narrativa. Primeiramente, ela é apresentada ao público como uma história que possui quatro protagonistas, no entanto, somente Malu é desenvolvida como tal. Diversas vezes, as outras personagens passam por momentos cruciais que careciam de mais detalhes e aprofundamento, especialmente em seus relacionamentos, enquanto a estória focava na trajetória de Maria Luiza.

A carência mais notável é a maneira com que a série retrata Adélia. Sobre esse assunto, Laísa Costa, pós-graduanda em Gestão Estratégica em Comunicação pela USP, ao ser entrevistada pelo Sala 33, discursa: “A série reproduz mais uma situação que coloca a mulher negra em segundo plano… todo o roteiro, toda a filmagem são pautados na protagonista (Malu), como se ela conseguisse tudo sozinha. É mais um estereótipo imposto e colocado como se nós, mulheres negras, sempre ficássemos atrás de uma mulher branca, à sombra de uma mulher branca.’’ Acrescenta: “A gente não vê a Adélia como a empreendedora que ela é… ela é colocada como um apoio que sustenta as ideias criativas da Malu’’.

[Imagem: Netflix.]

Dessa maneira, a série não é tão desenvolvida como aparenta ser. O enredo negligencia o feminismo negro ao ignorar que a mulher afrodescendente além de lidar com a repressão de gênero, tem que conviver, diariamente, com o racismo estrutural da sociedade.

Assim, a estória, presente no catálogo do Netflix, vale a pena ser assistida, porém, não deve se esperar o progressismo que a sua divulgação parece transparecer. Caso a obra seja renovada, é imprescindível que seus produtores se preocupem em aprofundar mais a discussão a respeito do feminismo, tendo como objetivo acrescentar novos questionamentos à contemporaneidade e não somente reproduzir de forma incompleta a revolução das mulheres.

 

Sala 33
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