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Construindo ideias, transformando vidas

NA PERIFERIA PAULISTANA, UM PROJETO SUSTENTÁVEL INCITA A TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

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13 ago 2019 | Por Renata Souza

 

Fábio Miranda, 40 anos, músico e morador do Jardim Nakamura, na zona Sul de São Paulo. Junto ao seu irmão, Claudio Miranda, fundou o Instituto Favela da Paz. O local, onde foi realizada a entrevista, é casa de Fábio, Claudio e de suas respectivas famílias. Também é lá a sede do Instituto onde estão diversos projetos, como o Periferia Sustentável que trabalha pela disseminação da sustentabilidade e cultura na periferia. 

O bairro onde estão instalados foi considerado pela ONU, em 1996, como o mais perigoso do mundo. Hoje já não carrega esse título, mas sim algumas grandes vitórias, como a instalação do primeiro biodigestor na periferia do Brasil. Em termos simples, o biodigestor é um equipamento que transforma resíduos orgânicos, como casca de alimentos, em gás e adubo. Essa instalação marca o início do Periferia Sustentável.

 

O que é o Instituto Favela da Paz?

É um quebra cabeça sem imagem definida. Todos os dias a gente vai criando uma peça e formando essa grande imagem. A gente define como Instituto e morada, porque é o lugar onde as pessoas moram, o quintal da minha casa e da do meu irmão. A gente atua desde a arte e a cultura, até a geração de energia limpa. Por exemplo, aqui temos o VegeArte, que trabalha com alimentação sustentável, saudável e com viés vegetariano. É um projeto não só social mas totalmente empreendedor que, hoje, também atua oferecendo coffee breaks e brunch para empresas. 

E começou com essa questão da alimentação, querendo trazer para a periferia a ideia de que a gente pode se alimentar de uma forma mais saudável. Começamos com as crianças, oferecendo uma boa alimentação, fazendo elas prepararem e levarem para casa. “Olha, mãe, o que eu fiz, que gostoso, fui eu que fiz.” 

Também temos, toda quarta-feira, um grupo de terapia comunitária só com mulheres e um grupo de meditação com as crianças. É muita coisa que acontece aqui. Tem um novo projeto sendo montado chamado Quebrada Filosófica, que é uma sala multiuso. A ideia é trazer pessoas para ministrar palestras, cursos, oficinas, debates e encontros. E o Favela da Paz  é isso: um guarda-chuva de diversos projetos. 

 

Como o Instituto surgiu?

Isso tudo surgiu através de uma banda, chamada Poesia Samba Soul, que é a banda que eu toco. A gente começou fazendo música nesse lugar. Acreditamos que, aqui, considerado pela ONU o lugar mais violento do mundo na década de 90, tinha um potencial muito grande. Decidimos usar a música como ferramenta de transformação: começamos a trazer os jovens, formar a banda e acabamos fazendo diversas ações voltadas para música, até cada um ir encontrando seu dom. Hoje o Favela da Paz tem uma rede de apoiadores, de parceiros, de pessoas que estão aqui. Mas eu e o Claudio estamos desde o início. Nesse percurso, descobri essa aptidão para desenvolver tecnologias. 

Eu trabalhei em CLT? Trabalhei, registrado por 10 anos, mas chegou um momento que para mim não fazia mais sentido estar trabalhando no sistema convencional, ter que acordar de manhã, pegar ônibus, aí volta para casa, dorme no sofá, acorda no sofá, aquela coisa toda. Foi quando eu percebi que não fazia sentido para mim viver dessa forma.  

Em 2010 fui para uma ecovila no Sul de Portugal. Fui para fazer música, não fui para desenvolver tecnologia, mas cheguei lá e me deparei com tudo isso: energia solar, biodigestão, captação de água da chuva. E o meu questionamento era: “por que que isso não tá na minha quebrada? Por que isso não existe em outros lugares do mundo? Por que só aqui?” Então eu comecei a entrar em um processo de imersão, comecei uns workshops, oficinas. Quando eu voltei dessa viagem, voltei disposto a desenvolver a tecnologia aqui. Foi daí que surgiu, em 2013, o Periferia Sustentável. Esse projeto trabalha com foco no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis e funcionais. 

De lá para cá eu venho desenvolvendo muita coisa, refletindo sobre biodigestão, energia solar, sistema de horta vertical, cultivo tradicional e sistemas de bioponia [forma de plantio na qual não há utilização de solo, nem fertilizante químico]. Então, na verdade, eu venho juntando tecnologias, de modo que uma potencializa a outra. Se eu tenho um sistema de bioponia que eu cultivo hortaliças totalmente orgânicas, o biofertilizante vem do biodigestor. Eu vou fazendo esse link de tecnologias.

Sistema de horta vertical, completamente orgânico, na sede do Favela da Paz [Imagem: Renata Souza]

Então, quando viajou já tinha em mente desenvolver o Periferia Sustentável?

Não! O Claudio foi, em 2009, para essa ecovila a convite de um amigo chamado Marcelo Cavalcante. Ele tinha participado de um processo de empreendedorismo social em que os dez primeiros colocados receberiam um prêmio. Meu irmão acabou não ganhando, mas o Marcelo, que era quem organizava, viu que a nossa proposta tinha um potencial muito grande. A ideia era construir um estúdio aqui. 

A gente tinha uma salinha pequena, muito improvisada. O Marcelo decidiu que nos ajudaria e nos apresentou a um participante da ecovila, chamada Organização Tamera. Ele queria alguém do Brasil, que viesse da favela, para fazer um intercâmbio. O Claudio foi convidado, aceitou e ficou lá durante quatro meses. 

Quando eu fui para lá, em 2010, foi realmente para fazer uma vivência nessa ecovila em uma coisa mais voltada para música. Só que, quando chegou lá, que eu vi tudo isso, achei fantástico. Caíram os questionamentos, eu comecei a ver que eu tinha aptidão para desenvolver tecnologias. Foi aí que eu me entreguei realmente a isso.

 

O seu projeto, o Periferia Sustentável, surge quando?

Oficialmente em 2013, que foi quando a gente instalou o primeiro biodigestor aqui dentro dessa comunidade. Eu acredito que foi o primeiro dentro do estado de São Paulo, em uma periferia. Porque, de 2010 até 2013, eu fiquei constantemente viajando. Nesse período vivi uma imersão em Tamera, eu ia todos os anos para lá e fazia vários cursos, participava de palestras e oficinas. E fui me entregando a isso, toda vez que eu voltava eu aplicava aqui o que tinha aprendido lá, em pequena escala ainda, porque eu não tinha tanta experiência. Mas em 2013 veio um pessoal de Tamera para cá e a gente instalou o primeiro biodigestor. Foi aí que surgiu o projeto Periferia Sustentável. 

Cultivo de orgânicos, no terraço, com vista para o Jardim Nakamura [Imagem: Renata Souza]

O biodigestor foi uma criação sua em parceria com a Organização Tamera?

Na verdade esse sistema foi desenvolvido por Thomas Henry Culhane, da organização Solar Cities. Ele criou e espalhou em alguns lugares do mundo [inclusive Tamera, onde Fábio foi apresentado à tecnologia]. Quando a gente veio para cá, tinha um histórico de que não funcionava direito e, realmente, aqui não deu certo. A gente instalou, não funcionou, o pessoal de Tamera foi embora e eu fiquei com o sistema aqui. Nesse período, um grande amigo que vinha me ajudando, Paulo Melotte, faleceu. Eu decidi que precisava consertar o biodigestor, para que ele não se tornasse um desperdício. E aí fui adaptando até o sistema funcionar 100%. Inclusive, depois disso construímos um sistema parecido com esse lá em Tamera. O apelido dele é “São Paulo” e está lá até hoje, funcionando. 

 

O biodigestor continua ativo?

Sim, totalmente funcional. O sistema está interligado com a cozinha do VegeArte. Tudo o que é produzido lá vem de produtos totalmente orgânicos, contém muita energia. Por exemplo, a casca da batata contém a maior parte dos nutrientes e, geralmente, as pessoas descascam e jogam fora. Já o VegeArte busca aproveitar o alimento como um todo. E o que sobra vai para onde? Vai para o biodigestor. 

As bactérias se alimentam desse composto orgânico e ali acontece todo o processo anaeróbio, em que é produzido o biogás. Depois eu devolvo para a Hellem, minha cunhada e coordenadora do VegeArte, como gás de cozinha. E aí também tem a fabricação do biofertilizante, produto final do processo de fermentação. Aqui eu cultivo temperos e hortaliças que a Hellem utiliza. Então, quer dizer, estou devolvendo isso para ela também, realmente é um ciclo.

 

Quais são as ações do Periferia Sustentável?

O Periferia Sustentável é um projeto que trabalha para desenvolver tecnologia de baixo custo e expandir para outros lugares, especialmente para as periferias de São Paulo. Hoje, o movimento de permacultura urbana [forma sustentável de desenvolvimento agrícola] tem crescido muito dentro das periferias. As pessoas estão com esse foco de que precisamos fazer alguma coisa para reverter esse colapso todo: a emissão excessiva de CO2, as pessoas se alimentando de uma forma totalmente errada, usando a energia de forma inconsciente, sabendo que a gente tem o Sol para a gente, por que não usar energia solar? Por mais que eu não tenha formação nenhuma — minha formação é o terceiro colegial completo — hoje trabalho pesquisando tecnologias. Busco empoderar outras pessoas para isso. Todo mundo tem potencial e capacidade de ser aquilo o que quer ser. E o Periferia Sustentável é isso, ele faz a junção de várias tecnologias para formar um ciclo em que você fortalece todos os projetos. Desde biodigestão, energia solar, captação de água da chuva. Usando novas tecnologias também, como impressão 3D, a laser, pensando de que forma a gente pode integrar essas tecnologias e tudo trabalhar em um sincronismo.

 

Como funcionam as oficinas?

Eu tenho um projeto chamado Seja Sustentável que é uma oficina que comecei em 2017, financiado pelo edital VAI TEC. É um curso de formação em energias sustentáveis, gratuito e aberto para todas as idades. Comecei a criar multiplicadores. Aqui no laboratório, a gente desenvolve esse curso, mas também faço fora. Venho ministrando a cada semestre. 

Também tenho atuado fora, em Pirituba, para o Projeto Amigo das Crianças (PAC). Dentro dele, a gente tem um projeto chamado Jovens com futuro, que é um curso voltado mais para a área de TI e inserção no mercado de trabalho. A gente entrou com a proposta de energias renováveis, para poder dar uma amplitude para os jovens nessa questão das energias. E deu super certo, recentemente, formamos a primeira turma da segunda edição. 

No Favela da Paz tem o Plano Jovem, que é um projeto tocado por dois jovens, que a gente fala que é a terceira geração do Instituto. Esse projeto começou com o pessoal que vinha de Paraisópolis, uma galera que ficava no farol, vendendo bala. A gente trouxe para cá com o interesse de mostrar para eles essa coisa da música, alimentação, energia, tecnologia. Então temos aula de capoeira, culinária, música, tecnologia. Aqui eles têm diversas possibilidades, tem encontros com  pessoas de fora e preparamos para o mercado de trabalho. 

No quintal do Instituto, os jovens têm aulas de capoeira [Imagem: Renata Souza]

Para o jovem entrar não há custo algum. Há uma seleção, o interessado deve estar estudando e presente no curso. Além disso, eles recebem uma ajuda de custo, o que evita que o jovem vá para rua. Por outro lado, a minha ação com o Plano Jovem é totalmente voluntária. Eu entrego o meu conhecimento para eles, é uma forma de apoio.

 

Como o projeto é mantido financeiramente?

O Periferia Sustentável tem como base o Instituto Favela da Paz. A gente trabalha com economia colaborativa, então o que gira em torno do Instituto e das iniciativas sustenta tudo. Hoje eu tenho a possibilidade de oferecer oficinas dentro da rede Sesc e até mesmo atuar dentro de universidades, como a USP Leste, esses projetos são remunerados, mas dentro do Favela da Paz ninguém tem salário. A gente trabalha de uma forma que há cooperação. Ou seja, é uma economia totalmente sustentável. Temos também muitos parceiros, organizações internacionais. Hoje, a gente faz parte de uma rede mundial chamada Campus Global, que são vários projetos que atuam em diversos lugares do mundo, como  África, Estados Unidos, Palestina. Então são vários projetos que atuam em uma rede solidária, buscando financiamento fora do país. 

 

E quanto a banda, ela continua existindo depois de toda a expansão do projeto?

Sim, eu sou baixista. Só que com a agenda que tenho hoje, quase não faço música. Ainda assim, se me perguntarem a minha profissão digo que sou músico, porque é tudo para mim. No dia em que eu não tiver a música não fará sentido desenvolver tecnologias. Então, a ideia é que trabalhemos um apoiando o outro. Como não tenho mais muito tempo para fazer música e viagens longas, eu represento o instituto na parte da tecnologia e o resto da galera na música. Por exemplo, a Hellem é vocalista da banda; o Pikeno e o Luís, que são os percussionistas, têm a escola de música e percussão; o Paulo, que é o baterista da banda, a gente fala que é o nosso braço de apoio, porque ele apoia todos os projetos, ele não toca uma iniciativa, mas atua em todos; o Claudio, que é um dos fundadores comigo, ele está na parte de relações humanas. Ele faz a conexão com as organizações daqui e de outros países, faz a mediação de tudo.

Laboratório de trabalho de Fábio mescla música e tecnologia [Imagem: Renata Souza]

Quais foram as contribuições do projeto para a comunidade?

Eu vejo o Favela da Paz como um ponto de equilíbrio nesse lugar. Se a gente fizer uma linha do tempo, há alguns anos atrás você não pisava nessa rua. Nós, moradores, tínhamos que dar toque de farol para avisarmos que éramos daqui. Então imagina, hoje a gente recebe gente do mundo inteiro, o portão fica aberto o dia inteiro. Mas o Favela da Paz contribuiu com isso? Eu acredito que pelo menos em parte sim, porque estamos aqui criando oportunidades, dando espaço. E, não só o Favela da Paz, mas também outros projetos aqui em torno da gente foram trazendo esse equilíbrio que fizeram a diferença. Vejo o jovem acreditar que é possível, que ele tem potencial, isso gera uma mudança muito grande. Há alguns dias mesmo, na conclusão do curso, para mim foi muito mágico. Vi o que aqueles jovens estavam fazendo depois de apenas três meses de curso e fiquei abismado, mesmo já esperando isso, porque eu acredito no potencial que eles têm.

 

Na sua visão, qual a importância da sustentabilidade para o mundo?

Eu acho que é o real sentido da vida, porque, hoje, salvar o mundo a gente não vai. Mas eu posso salvar o meu entorno. Da forma como eu, como ser humano, me coloco em posição de cuidar do lixo, das minhas relações como pessoa, da forma que atuo, penso e falo. É preciso ser coerente, não só consigo, mas com as pessoas ao seu redor, assim há sustentabilidade. Eu vejo hoje que essas pequenas ações — como esse projeto que se a gente for ver é pequeno em relação a tudo isso que acontece — vão transformando a vida das pessoas. Quando eu pego meu papel de bala e percebo que ele me pertence, que eu estou gerando esse pequeno lixo e tenho que ser responsável. É um papel que eu jogo, mas imagina 100 pessoas jogando. O que a gente vem fazendo eu vejo como o futuro.

 

 

 

  

 

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