Home Virou História Da glória ao abandono: o que dizem os 55 anos do último título mundial do basquete brasileiro
Da glória ao abandono: o que dizem os 55 anos do último título mundial do basquete brasileiro
ARQUIBANCADA
23 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Crisley Santana e Pedro Smith

Há 55 anos, o Brasil vencia os Estados Unidos no Maracanãzinho abarrotado e se sagrava bicampeão mundial de basquetebol. A seleção do polêmico técnico Kanela entrou apenas na segunda fase, por ser o país sede, e encantou o mundo com um estilo de jogo inovador, que resultou em campanha invicta.

A quarta edição do Campeonato Mundial de Basquetebol contou com a participação de 13 times, sendo eles: Iugoslávia, Estados Unidos, Argentina, México, Uruguai, Canadá, Peru, Japão, França, Brasil, Porto Rico, Itália e União Soviética. Sediada no Brasil, a competição iniciou sua disputa no dia 11 e foi até o dia 25 de Maio de 1963, dia da grande final entre Brasil e Estados Unidos.

O Arquibancada reuniu os detalhes dessa conquista histórica em um bate-papo com o ala Paulista, que também fala o porquê de conquistas como essa serem cada vez menos possíveis.

A partida do título

A data era 25 de maio de 1963, um domingo. O local, Rio de Janeiro. O Ginásio do Maracanãzinho estava mais lotado que nunca. A partida era histórica, e o que viria a seguir também seria: Brasil contra Estados Unidos na final do Mundial de Basquete.

O capitão Wlamir erguendo a taça de campeão mundial (Imagem: Divulgação/CBB)

A equipe brasileira, do técnico Togo Renan Soares, o “Kanela”, se preparava para o jogo. O time já havia feito uma campanha inacreditável, chegando na final invicto com seis vitórias. Mas essa partida, além de decisiva, era difícil, pois os adversários norte-americanos já eram consagrados no esporte.

O clima era de tensão quando iniciou a partida. Primeiro tempo duro. No intervalo, o empate: 39 a 39. A partir daí cada movimento poderia determinar quem seria o campeão. Nada estava definido e faltava muito pouco para acabar.

O técnico Kanela se levanta e vai até o mesário. Pede um tempo para o Brasil. Negado. Não há mais como prorrogar a partida, pois faltava menos de um minuto. Um dos jogadores norte-americanos arremessa a bola, mas erra.

Só três segundos. Era a última chance do time verde e amarelo. E que chance bem aproveitada: Wlamir enterra a bola na cesta e finaliza. Fim de jogo. 85 a 81 para o Brasil.

É festa no Ginásio do Maracanãzinho. A torcida gritava “bicampeão!”. Toda a equipe brasileira se abraça e chora. A emoção é tanta que o capitão Wlamir Marques acaba desmaiando, e é levado ao vestiário.

E essa foi a consagração de uma das maiores gerações que o basquete masculino brasileiro já teve. A gloriosa final contra o gigante Estados Unidos terminou favorável ao Brasil, com 85 pontos, sendo 26 de Wlamir Marques, 22 de Amaury e 17 de Waldemar. A partida foi assistida por mais de 20 mil pessoas, que, junto aos jogadores, se emocionaram no Maracanãzinho.

Os nomes que formaram o time vencedor desse título inesquecível, há 55 anos, merecem ser lembrados para sempre na história do esporte nacional: Amaury, Wlamir, Ubiratan, Rosa Branca, Victor, Waldemar, Sucar, Jathyr, Menon, Mosquito, Paulista e Fritz.

Seleção bicampeã do mundo em 1963 (Imagem: Divulgação/CBB)

Entrevista com Benedito Tortelli, o Paulista, ala da seleção em 63

Benedito Tortelli, mais conhecido como “Paulista”, era ala do time brasileiro que alcançou o posto mais alto do pódio pela segunda vez. Para ele, aquele mundial foi único e curioso por muitos motivos: “Para começar, o campeonato era para ser nas Filipinas, mas o país sede estava com problemas políticos e a Confederação pediu para fazer no Brasil, um ano depois do programado”.

Além disso, os campeões seriam os russos, caso eles “não se negassem a jogar com a República Formosa”. A confusão levou a equipe soviética da primeira para a terceira colocação, e fez o Brasil subir um degrau, do segundo para o mais alto posto. Mesmo com todas essas questões políticas, o ex-jogador garante: “foi um campeonato de boa técnica e ótimo público”.

Paulista elenca alguns dos fatores cruciais para a conquista brasileira. Primeiramente, “o time era muito bom, de basquete veloz, com ótimos jogadores – como Amaury e Wlamir – e um jovem pivô de agilidade inédita para a posição (Ubiratan)”. Todos comandados pelo revolucionário Kanela: “nosso técnico tinha muita disciplina e rigidez. Isso fez com que o time se unisse, sem privilégios para as estrelas do time. Ele impunha uma técnica inovadora; antes deles os jogadores jogavam com os dois pés no chão, e ele foi um dos primeiros a trazer de fora o que chamávamos de ‘pulinhos’. Seu estilo deu liga com os jogadores. 90% da parte técnica do time é de virtude do Kanela, ele é o responsável por todas as grandes conquistas do basquete brasileiro”.

Além do time e do treinador, a torcida carioca teve importância fundamental para o estrelato da seleção canarinho. “O nosso time era bom, mas a torcida ajudou muito! A torcida encampou o Brasil mesmo. Nas ruas não se ouvia outra coisa. Iam celebrar a gente no hotel. No jogo final, tinham mais de 35 mil pessoas no Maracanãzinho – isso que cabiam 22 ou 23 mil ‘empilhadas’. Tínhamos que pedir espaço para cobrar lateral. Ficava muito próxima de nós e inflamou mesmo”, relembra o imigrante italiano.

Todos esses fatores, somados ao fato da temida seleção americana ter trazido, como de praxe, apenas jogadores universitários, fizeram com que o esquadrão nacional não tivesse “nenhum jogo difícil, todas as vitórias tinham considerável vantagem”.

“Paulista” atuando pela seleção brasileira (Imagem: Divulgação/CBB)

Ele ainda ressalta que, na época, o time brasileiro “era o maior do mundo” e o basquete “era o esporte do Brasil”, já que detinha o bicampeonato mundial e duas medalhas de bronze nas Olimpíadas. “O futebol era apenas bimundial, não chegava nem perto”, salienta.

Entretanto, ele lamenta a ausência de legado daquela geração e pouca popularidade do basquete atualmente – ”hoje, é o quinto, sexto esporte”. Segundo o campeão mundial, a responsabilidade de sua decadência está na má gestão: “O basquete teve o azar muito grande de não ter nenhum presidente com dinamismo, vontade de fazer as coisas. Teve só presidentes políticos de grande êxito em suas vidas particulares, mas que não têm gestão de basquete. Os que assumiram nunca ligaram para o basquete de base para colher frutos, nem cobravam as federações estaduais. Os presidentes da Federação estão ali porque têm amigos ou quem goste deles. Eles não sabem o que estão fazendo. Infelizmente, tudo gira em torno do dinheiro”.

O ex-ala ainda completa: “O que falta no basquete é gestão, pessoas que saibam administrar uma confederação de basquete. O Brasil nunca valorizou essas conquistas e fez um projeto para difundir o esporte. Nós perdemos a chance não apenas no basquete; no tênis, por exemplo, quando o Guga foi campeão, não tinha nem mais bola de tênis para vender”.

Paulista também se entristece com “o mal do Brasil”, que “não reconhece seus ídolos. Aqui não tem memória: o jornal não fala, a televisão não mostra. E em todos os esportes é assim. Quando muito, lembram de jogadores de futebol e artistas de televisão”. Ele recorda de várias histórias, em que jogava basquete com meninos mais jovens que não o reconheciam e se surpreendiam com a sua técnica: “Eles perguntam se eu joguei quando era mais novo e eu respondo: ‘um pouquinho’”, brinca.

Apesar de tudo, Benedicto só tem a agradecer ao basquete: “Foi tudo para mim. Eu sou imigrante italiano, morava no interior de São Paulo e aos 14 anos descobri a bola de basquete. E atrás dela eu ando até hoje: conheci o mundo, tenho milhões de coisas do esporte, tenho título de campeão do mundo e fiz grandes amizades (nós daquela seleção somos amigos até hoje). Então a bola de basquete foi muito importante na minha vida. Hoje, sou psicólogo, tenho minha família, mas a bola de basquete continua a ser uma atração muito grande na minha vida.

Curiosidades e dados

– O primeiro título mundial do Brasil no basquete veio no campeonato de 1959, no Chile;

– Dos jogadores bicampeões, cinco fizeram parte da conquista do primeiro título. São eles: Amaury, Wlamir, Waldemar, Jathyr e Rosa Branca;

– Wlamir Marques foi considerado o melhor jogador da competição (MVP) de 1963;

– Willis Reed, um dos jogadores da seleção norte-americana que jogou contra o Brasil em 63, entrou na NBA no ano seguinte à competição;

– A campanha perfeita que tornou o Brasil bicampeão:

  • Brasil x Porto Rico – 62 a 55
  • Brasil x Itália – 81 a 62
  • Brasil x Iugoslávia – 90 a 71
  • Brasil x França – 77 a 63
  • Brasil x União Soviética – 90 a 79
  • Brasil x Estados Unidos – 85 a 81

– A classificação final do Campeonato Mundial de Basquete do ano de 1963 ficou da seguinte forma:

  1. Brasil
  2. Iugoslávia
  3. União Soviética
  4. Estados Unidos
  5. França
  6. Porto Rico
  7. Itália
  8. Argentina
  9. México
  10. Uruguai
  11. Canadá
  12. Peru
  13. Japão
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