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Finais alternativos: Por que (não) se contentar com um único desfecho?
CINÉFILOS
23 jun 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Larissa Fernandes
lfernandesr05@gmail.com

Romantizado ou mais dramático? Casal feliz ou bebê se suicidando?

Em meio a tantos finais indesejáveis, que fazem pouco ou nenhum sentido e decepcionam completamente o espectador, os finais alternativos chegam como uma opção para agradar diferentes públicos (ou não). Em alguns filmes, podem ser encerramentos totalmente distintos, chegando a gerar estranheza tamanha criatividade dos responsáveis pelo longa; outros são apenas detalhes que não modificam muito a estória. De qualquer forma, não sendo descobertos de imediato, esses desfechos podem causar certo espanto.

Para os leitores desatentos, há spoilers.

Efeito Borboleta (The Butterfly Effect, 2004)

“O bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo.”

Inspirado na ideia central da Teoria do Caos, o filme tem como personagem principal Evan Treborn, um rapaz cuja vida é recheada de situações mal compreendidas devido aos seus apagões de memória constantes.

Já na sua fase adulta, Evan – interpretado por Ashton Kutcher – busca revelar os acontecimentos traumáticos de sua infância e adolescência que haviam sido apagados de sua memória. Esse seu objetivo se inicia depois de ter descoberto que poderia voltar no tempo e, assim, “consertar” certas fatalidades, ajudando seus velhos amigos Tommy (William Lee Scott), Lenny (Elden Henson) e Kayleigh (Amy Smart), sua amada.
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Entretanto, essa brincadeira de mudar o passado não seria tão simples quanto imaginava, pois o mínimo detalhe que alterava poderia transformar radicalmente o futuro – como demonstra a Teoria do Caos. Após diversas tentativas frustradas, sem conseguir atingir seus propósitos, Evan decide evitar que a sua relação com os irmãos Miller – Tommy e Kayleigh – se iniciasse, abrindo mão de sua paixão antiga, mas proporcionando uma vida melhor para todos os personagens presentes na trama.

Ao som de Stop Crying Your Heart Out, da banda inglesa Oasis, o longa termina com os olhares entre Evan e Kayleigh, já mais velhos, sem trocarem uma única palavra. Um desfecho coerente com tudo o que havia ocorrido durante o filme, fechando com maestria a estória apresentada de forma empolgante e surpreendente.

Porém, para aqueles que não se contentaram, na falta de um final alternativo, existem três (a questão é: por que tantos?) bem distintos. Em um, Evan e Kayleigh não ficam só nos olhares: o rapaz segue a moça, representando uma certa esperança de que ambos engatassem um relacionamento; em outro, isso fica ainda mais claro, pois os dois iniciam uma conversa. O mais dramático entre eles (muito mais), é aquele em que Evan resolve assistir à fita de vídeo de seu nascimento, voltando para tal momento e, com isso, se enforca com o cordão umbilical, impedindo todos os fatos desastrosos apresentados. Um tanto pavoroso, apesar de ter agradado alguns espectadores. Não há como negar que foi criativo.

Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice, 2005)

Adaptado a partir do romance de Jane Austen de 1813, o filme retrata a vida da família (sorridente) Bennet, cujo objetivo é encontrar bons casamentos para suas cinco filhas – Elizabeth (Lizzie) Jane, Mary, Lygia e Catherine (Kitty). A estória, situada na Inglaterra dos fins do século XVIII, tem o enfoque na audaciosa Lizzie, uma jovem muito alegre – assim como os outros membros da família – com falas perspicazes e que se impõe de forma a não se sujeitar a um casamento sem o verdadeiro amor.

Com o decorrer da trama, acompanhamos a atração e o amor desenvolvido entre Lizzie e Mr Darcy (Matthew Macfadyen), um rapaz com tom arrogante e um tanto orgulhoso que chega à cidade.

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A estória não se resume a acompanhar o desenvolvimento da relação entre os protagonistas. Releva o preconceito social existente para com aqueles que não possuíam uma origem muito nobre, assim como os costumes de um período no qual a única solução para a mulher era um bom casamento e, mesmo com isso, existiam figuras como Lizzie, forte e desafiadora. A cumplicidade entre as irmãs também é algo que deve ser destacado, principalmente entre Lizzie e Jane.

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As irmãs Bennet. Da esquerda para à direita: Jane (Rosamund Pike), Mary (Talulah Riley), Lygia (Jena Malone), Elizabeth (Keira Knightley) e Kitty (Carey Mulligan).

O filme possui uma bela fotografia, além dos diálogos, que, de acordo com os leitores, não fugiram tanto do que se encontra no livro de Jane Austen. Contudo, as críticas negativas devem-se ao fato de não terem dado tanta importância a outros personagens, as próprias irmãs de Lizzie têm pouquíssimas falas. Vale ressaltar que são linguagens distintas e o filme é apenas uma adaptação, na qual existem modificações, é claro.
O final alternativo desse filme, na verdade, é o oficial da versão norte-americana. No britânico, o desfecho é quando Lizzie conversa com o seu pai sobre Mr Darcy, demonstrando todo o seu amor por este e recebendo o consentimento para o seu casamento através de falas muito amáveis de seu genitor. Enquanto o outro apenas complementa essa cena, revelando um diálogo entre Lizzie e Darcy a respeito de como ele deveria chamá-la (“Lizzie”, “Pérola”, “Deusa Divina”… pouco exigente). É uma conclusão mais romântica que rende até um beijo, que não havia sido visto durante todo o filme. De acordo com os fãs da obra, a falta do beijo possui mais o estilo de Austen. Particularmente, ambos os finais são agradáveis e não deixam a desejar.

Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007)

Com um cenário pós apocalíptico – resultado de modificações genéticas que visavam a cura do câncer, mas que acabaram causando o (quase) extermínio da humanidade – o filme tem como personagem central Robert Neville (Will Smith) um cientista militar que se encontra solitário em Nova York, apenas acompanhado de sua cadela, Sam. Robert é imune ao vírus que se espalhou pelo mundo todo e tenta, de forma incansável, encontrar a cura para essa doença.

Will Smith interpreta um personagem que, mesmo com o caos ao redor, consegue ser divertido nas telas, como quando conversa com os manequins, engatando um diálogo imaginário. Seu principal estímulo é a busca por uma cura, que faça com que as pessoas voltem para o seu estado normal, já que, entre diversos indivíduos mortos, alguns se tornaram seres irreconhecíveis, ultrassensíveis à luz e mortíferos.

Após algumas cenas trágicas e de suspense, mais dois personagens passam a integrar a trama: Anna (Alice Braga) e Ethan (Charlie Tahan), seu filho, que mantêm-se protegidos na casa de Robert até o ataque dos seres transformados ao local.

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Eis a parte em que surgem dois finais. O oficial é aquele em que Robert se sacrifica, explodindo o laboratório – na própria casa dele – onde se encontravam e deixando que Anna e Ethan fugissem. Os dois encontram uma colônia e levam a suposta cura que Robert havia encontrado após ter realizado testes em uma mulher transformada. É uma solução mais coerente até com o título, porém o sacrifício do herói já é algo muito recorrente e, por isso, não surpreende tanto.

No outro desfecho, é revelada uma conexão entre dois seres transformados, e Robert fica admirado com o resquício de humanidade que eles ainda possuem. Assim, liberta a mulher que estava sendo utilizada para os testes e tudo termina bem, com os dois indo embora junto com os outros seres que tinham invadido a casa. Logo em seguida, vemos Robert, Anna e Ethan partindo juntos em busca de outros sobreviventes. É um final mais alegre e o fato de Robert ter permanecido vivo revela a sua habilidade para sobreviver em um mundo destruído.

O filme foi inspirado no livro de Richard Matheson publicado em 1954, no qual os “seres transformados”, na verdade, são vampiros, algo bem distinto do que vemos no longa.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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