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Grande Hotel Abismo: entre as pedras e a fortaleza
Na Estante
20 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Tainah Ramos (tainahramos@usp.br)

Grande Hotel Abismo, de Stuart Jeffries, é uma mistura de biografia com explanação crítica. O livro explora dados da vida de cada um dos pensadores da Escola de Frankfurt — curiosidades e influências pessoais relevantes para a formação intelectual de cada um deles, bem como influenciaram todo o mundo posterior a eles.

Por envolver temas filosóficos complexos, banhados por outros grandes pensadores, é normal que a leitura aconteça com pouca fluência e surjam muitas dúvidas, apesar de Jeffries tentar trazer explicações de modo didático. Até mesmo a divisão em partes por décadas é um modo de tornar o tema mais palatável. Ao todo, o livro contém uma introdução, sete partes, 18 subtítulos, notas, leitura suplementar e índice remissivo.

O autor apresenta qual o plano de fundo da discussão por meio de dois pontos de vista: daqueles que atacavam a impotência do famoso instituto de pesquisa marxista e sua defesa, feita pelo próprio Adorno.

A partir da sessão de críticas à Escola de Frankfurt, é possível compreender o título do livro. O termo “Grande Hotel Abismo” foi elaborado por György Lukács. Para ele, os membros dessa escola estavam em um hotel confortável, à beira de um abismo, em um estado de vazio e à parte do bom senso. “Contemplação diária do abismo entre excelentes refeições ou entretenimentos artísticos”. Esse abismo era o capitalismo, devorando os homens.

Para muitos outros críticos desses filósofos, o maior problema foi não ter se posicionar para uma revolução. Muita crítica, pouca ação. Teoria sem prática. Esse traço revela o ceticismo dos pensadores quanto à luta política.

Theodor W. Adorno, uma das figuras mais simbólicas da Escola, por outro lado, relata o quanto a teoria é importante, uma espécie de “fortaleza de pensamento”, pois pensar oferece mais resistência. Em suas palavras, “as barricadas são ridículas contra os que administram a bomba”.

Uma visão que permeia assiduamente a obra em diversos momentos é a análise de que o Holocausto gerou um “novo imperativo categórico” na humanidade, para que situações como Auschwitz nunca mais ocorram.

Mais do que expor todas as divergências sobre a teoria da Escola, tentar alcançar os melhores métodos de ação ou explicar alguns conceitos, Grande Hotel Abismo nos instiga a pensar, a querer pensar, e de modo humanizado.

Além de Adorno, o livro se debruça sobre as características comuns dos autores, como a origem familiar — judeus membros da burguesia alemã, e também pontos de distinção, como Herbert Marcuse ser o único pensador desse meio a integrar a militância política, tendo os demais o ponto característico da desilusão com o processo revolucionário.

É interessante notar os aspectos voltados às infâncias, em especial de Walter Benjamin, devido ao seu livro Infância em Berlim por volta de 1900, em que o filósofo relembra traços da sua meninice confortável na Alemanha. Uma curiosidade sobre Benjamin é que ele nunca pertenceu, de fato, ao corpo da Escola de Frankfurt, mas foi uma das principais figuras de expansão dos seus ideais.

Horkheimer, por outro lado, é um dos intelectuais mais expressivos que atuou no Instituto para Pesquisa Social e um pilar da constituição da “teoria crítica”, muito influenciada por Arthur Schopenhauer e Karl Marx, algo que Jeffries consegue explicar muito bem.

Apesar de uma leitura densa pela temática, por vezes, até sofrida, Grande Hotel Abismo é fundamental para nos aproximar de uma corrente filosófica que afeta uma significativa parte do pensamento contemporâneo, oferecendo os alicerces necessários para a compreensão de ideias complexas, com uma linguagem, de certo modo, próxima do Jornalismo.

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