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Grupo Corpo: do barroco ao candomblé
Em Cena
14 ago 2017 | Por Jornalismo Júnior

Contra luz amarelado. Um macacão preto colado no corpo. Cabelo preso e maquiagem quase inexistente. É com essa honestidade que se inicia o espetáculo do Grupo Corpo de 2017. Franqueza e simplicidade são motivos que marcam a dança contemporânea e o caminho desse coletivo que já faz história no Brasil há mais de 40 anos. Mesclando suas tradições com novos recursos, a companhia estreou um novo espetáculo  no dia 4 de agosto e vai seguir pelo Brasil com Gira, sua última coreografia, acompanhada por uma remontagem de Bach, originalmente apresentada em 1996.

A dança de terreiros

O espetáculo Gira se baseia na temática das religiões de candomblé e umbanda, trazendo à luz culturas muito presentes no território brasileiro, mas frequentemente demonizadas e estereotipadas por conta das ideias preconceituosas que os cristãos trouxeram sobre os praticantes dos cultos nos terreiros os negros escravos vindos de tribos africanas —, com o intuito de evitar a propagação dessa religião entre os de maioria católicos.

Para guiar a coreografia, o grupo Metá Metá foi convidado para compor a trilha sonora (e também trazer assunto do espetáculo, já que eles auxiliaram na escolha do tema), contando como convidados grandes nomes da música brasileira, como Elza Soares e Marcelo Cabral. A ideia central do espetáculo é desmistificar a imagem de Exu, um dos principais orixás do candomblé, que foi erroneamente interpretado como o diabo cristão pelos colonizadores, trazendo uma imagem negativa para um divino que na crença original representa comunicação, paciência, ordem, disciplina e movimento (ponto de encontro com a dança).

Em um palco sem coxias e saídas de palco, os bailarinos ficam confinados no espaço cênico, sentados em cadeiras em volta da cena e cobertos com um pano preto, trazendo a ideia de que todos estão assistindo à cerimônia que está acontecendo no centro, a única área totalmente iluminada. Os movimentos claramente representam as cerimônias dos terreiros com seu ritmo acelerado e movimentos, às vezes, frenéticos. Portanto, a montagem não atinge seu objetivo de desmistificar a representação do orixá, por muitas vezes criar um clima de escuridão e gritos à apresentação, voltando com a ideia de obscuridade nas celebrações de umbanda.

Imagem: Giovana Christ

Música clássica na coreografia contemporânea

Em complemento a estreiado novo espetáculo, vem a remontagem da coreografia Bach, feita pelo coreógrafo do grupo Rodrigo Pederneiras, e que tem inspiração nas composições do alemão Johann Sebastian Bach (adaptadas) e chama atenção por trazer um recurso cenográfico que a diferencia de um balé com música clássica (além dos tipo de movimento, claro), que são os canos suspensos pelo alto e que permitem além de um belíssimo efeito visual, a composição da coreografia com escaladas e momentos de equilíbrio dos bailarinos na estrutura.

A montagem é esteticamente perfeita, mesmo usando de conceitos muito simples. Com uma paleta de três cores (preto, azul e dourado), a coreografia segue uma linearidade com as cores e a iluminação, que fazem o espectador ficar preso ao palco, trazendo referências do barroco alemão e mineiro (estado de origem do grupo) em sua explosão de ouro, referenciado pelo figurino + iluminação. Em vários momentos da obra o espectador se encontra esquecendo de respirar e estonteado pelos passos que por vezes relembram uma valsa tradicional. O único ponto válido de ressalva são os Pax de Deux (dueto de bailarinos, geralmente um homem e uma mulher) que nos lembram que a obra é uma remontagem de vinte anos atrás, por trazerem um toque antiquado aos passos que hoje já merecem um tratamento diferente na dança contemporânea.

Os canos de metal trazem a coreografia um toque estético e uma sensação de aventura. Reprodução: Grupo Corpo

A temporada de dança do Teatro Alfa ainda conta com mais quatro grandes espetáculos, como Deborah Colker, Cirque Éloize e outros fenômenos da dança internacional.

Por Giovana Christ
giovanachrist@usp.br

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