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Hush – A Morte ouve, mas o espectador nem tanto
CINÉFILOS
22 abr 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

Três anos após o admirável (e esnobado) O Espelho (Oculus, 2013), Mike Flanagan retorna às telas assinando dois novos títulos: O Sono da Morte (Before I Wake, 2016 ), com estreia em circuito comercial marcada para dia 14 de julho desse mesmo ano, e Hush – A Morte Ouve (Hush, 2016), lançado diretamente aos usuários do Netflix. Neste último trabalho, embora careça muito do vigor e assinatura visual impostas à obra de 2013, Flanagan consegue ao menos instaurar a dose de tensão dramática necessária para que o espectador se envolva com o filme.

Nos esforços de finalizar seu romance, Maddie (Kate Siegel) decide se isolar num chalé no meio da floresta. Certa noite, com a aparição de um psicopata mascarado (John Gallagher Jr.), ela terá que confrontar sua surdez-mudez para que possa ter chances de escapar com vida.

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Por ter um conceito simples, o sucesso de Hush depende largamente da força interpretativa de seus atores. E felizmente, as duas performances principais são aqui apresentadas de forma muito consistente. De um lado, Kate Siegel expõe perfeitamente todos os maneirismos de alguém na condição de surdo e mudo, sem que para isso tenha que pender a uma caricata representação robótica das deficiências. Do outro, John Gallagher Jr. também nunca tende ao psicopata exagerado, portando-se até mesmo de forma sedutora e sóbria quando interpelado por uma das personagens. A narrativa do filme é também bem encadeada. Não há nem excessos, nem simplificações, e as ações e julgamentos das personagens nunca são inverossímeis ou questionáveis (consideração muito comum às vítimas de filmes do gênero).

Assim que se estabelece o conflito, é notável perceber como as cores e iluminação vívidas do antes ambiente doméstico dão espaço a tons muito mais lúgubres. Aliado a isto, Flanagan e seu diretor de fotografia, James Kniest, ainda são cuidadosos em capturar, conforme a esperança de fuga da protagonista se esvai, ambientes cada vez mais escuros. Assim, o espectador acaba sentindo visualmente a sensação de temor pela qual a protagonista passa, sendo impulsionado com mais força à realidade do filme.

Por outro lado, na tentativa de ainda ressaltar essa tensão através de enquadramentos fechados no rosto das personagens (algo como se, mais uma vez, remetesse visualmente à prisão física pela qual a protagonista passa), o filme abre mão do grande mote da sua originalidade: a surdez de Maddie.

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Para exemplificar o ponto, usemos a cena da primeira aparição do mascarado: num primeiro corte, vemos Maddie atarefada pela cozinha num plano à frente da porta de vidro. Num segundo corte, estamos do lado de fora da porta de vidro, e sem vermos Maddie, sua amiga surge ensanguentada batendo a mesma porta. No momento seguinte, voltamos ao corte anterior de Maddie, seguido logo após de outro do corte externo, agora mostrando o mascarado apunhalando a garota. Agora imagine a mesma cena numa tomada contínua e fixa de Maddie atarefada, enquanto o assassinato acontece atrás. O nervosismo não estaria na cena em si (que por si só já é muito tensa), mas sim na indiferença de Maddie com o que acontece logo atrás dela. Como exposto, uma simples escolha inadequada de cortes muda exponencialmente a apreensão da cena. E infelizmente, esse problema não é uma exceção presente nesta tomada, mas algo recorrente na edição do filme, o que compromete em partes a tensão antes tão bem alcançada com a escolha da paleta de cores.

Um outro grande problema do filme recai novamente sob o mal uso do elemento de surdez de Maddie. Em determinados momentos, tomamos o ponto de vista (ou nesse caso, ponto de ouvida) da protagonista e, assim como ela, não ouvimos nada do que se passa nos seus arredores. Se bem usada, esta ideia poderia agregar ainda mais tensão ao filme. No entanto, Hush usa este artifício de forma tão aleatória, que a surdez funciona apenas como outro detalhe da narrativa, quando ela, na verdade, deveria ser o maior complicador de Maddie. Por fim, o mesmo acontece com a péssima trilha sonora, que presente em momentos dispensáveis, torna-a mais um dos adereços do filme (com destaque para o tema completamente destoante do final do filme).

É certo que Hush possui muitas virtudes. Por simplesmente primar por um desenvolvimento paulatino da tensão, no lugar dos famigerados “jump-scares” (aqueles sustos inoportunos em que uma coisa qualquer surge na tela seguida de um som estridente), Hush já facilmente desbanca 80% dos filmes de terror produzidos atualmente. Mesmo assim, falta muito para que o mesmo alcance o irmão prodígio de três anos atrás. No mais, ficamos com uma reflexão lúdica e visual do machismo preponderante na sociedade; o machismo que, na figura de um mascarado qualquer, deixa a mulher sem voz e sem poder ser ouvida, relegando-a à brutalidade masculina do mundo.

 Confira o Trailer!

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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