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Isto não é uma resenha
Na Estante
03 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Capa do Livro / Reprodução 

Por Maria Carolina Soares (mcarolinasoares@usp.br)

Desculpe, mas esta resenha tem spoilers. É impossível que não os tenha. É impossível eu, de todas as pessoas, ler Céu Sem Estrelas (Editora Seguinte, 2018), da Iris Figueiredo, e não me envolver pessoalmente. Isto não é uma resenha. É um manifesto. É um manifesto para que nos enxerguem. Muitas vezes infelizmente, estamos aqui. E, por mais que pensem que não, queremos querer estar. Mas nem sempre é fácil querer. É cansativo. E é por isso que eu precisava desta não-resenha.

A protagonista de Iris, Cecília, é como eu. Ou eu sou como ela. Com certeza um desses dois. Claro que não nas mesmas proporções. Mas Cecília sofre de vários problemas muito mais comuns do que você imagina: transtorno de imagem, doença mental, pensamentos suicidas, auto mutilação, problemas familiares, abandono parental, machismo, dificuldades financeiras. E tudo isso afeta sua vida de uma maneira absurda. Mas isso já era de se esperar, não? Não. Para muita gente, pelo menos 4 desses problemas não são tidos como reais ou importantes o suficiente. Doenças mentais ainda carregam um estigma enorme na sociedade e não são vistas como as patologias são. Muitas vezes são chamadas de “frescura”, “preguiça”.

E é por isso que este manifesto é necessário. O enredo de Céu Sem Estrelas não é inovador nem revolucionário no mundo dos Young Adults. Uma menina, na faculdade, que não se encaixa nos grupos e se apaixona pelo menino mais velho e popular, que acaba por ser irmão de sua melhor amiga. São várias fórmulas adaptadas ao ambiente brasileiro. A história dos dois também se desenvolve de um jeito bastante previsível, com encontros e desencontros, brigas e reconciliações. Os personagens secundários, em sua maioria, não se destacam muito. Porém, Iris sabe disso. E é por isso que usa essas receitas. Seu destaque na história é outro. Com tudo isso se mostrando igual a outras histórias, as diferenças saltam aos olhos. E são muitas.

A começar pela figura de Cecília. Ao contrário da maioria das protagonistas, ela é gorda e não se aceita por isso. Ela tem ansiedade e depressão. Esses aspectos já se destacam logo de cara. Por conta de tudo isso, e de uma sociedade machista e gordofóbica, claro, nossa personagem principal desenvolve transtorno de imagem. É óbvio que não acontece de maneira tão simples assim. Mas de maneira nenhuma eu seria capaz de colocar em palavras essa situação.

Além disso, ela tem vários problemas em casa. Seu pai a abandonou antes de nascer. Foi criada pela avó e pela mãe, que sempre ressentiu a sua existência e descontava frustrações na filha. Para piorar tudo isso, a família tem problemas financeiros e Cecília tem que trabalhar em uma livraria. Mas é demitida a poucos dias de seu aniversário. Pode piorar? Sim. Ao longo do livro, ela começa a se auto mutilar e a ter pensamentos suicidas. Essa é a diferença da história de Iris. E esse também é o mérito.

Ao usar um enredo comum para mostrar problemas tão comuns e, muitas vezes, negligenciados, a autora coloca um holofote sobre tais questões e nos mostra tudo o que estamos fazendo errado, não só como pessoas físicas, mas, principalmente, como sociedade.

Não acho que me caiba aqui comentar os acontecimentos da história, mas penso que o final merece ser destacado. Se você não leu o livro e não quer spoilers, peço que pare a leitura aqui. Cecília não se cura magicamente. Todos os seus problemas não desaparecem. Mas algo muda em sua forma de ver o mundo. Ela pede ajuda. Não só pede. Ela aceita ser ajudada. E isso faz toda a diferença. O livro termina com Cecília em tratamento psiquiátrico e psicológico, em processo de reconciliação com sua mãe e consigo mesma.

Iris Figueiredo consegue, de maneira extraordinária, trazer temas tão importantes e tão invisibilizados em uma história comum. Sua escrita é de quem sabe o que está dizendo, é delicada, é atenta. E nos mostra que, no final, vale a pena querermos querer estar aqui.

 

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