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“Na praia à noite sozinha”: o escândalo e o sentimento por trás do destaque da Berlinale
CINÉFILOS
15 set 2017 | Por Jornalismo Júnior

Carregando quatro indicações e três prêmios no Festival de Berlim – sendo um deles o Urso de Prata de Melhor Atriz à protagonista Kim Minhee -, Na Praia à Noite Sozinha (Bamui Haebyeon-eoseo Honja, 2017), de Hong Sangsoo, abriu o Indie Festival do CineSesc este ano, no dia 13 de setembro. Apesar do reconhecimento atingido e o renome de Sangsoo e Minhee, o longa chegou aos tablóides sul-coreanos por outros motivos.

Na praia à noite sozinha é uma produção autobiográfica e extremamente pessoal, baseada nas experiências do próprio diretor e sua atriz principal. Desde 2015, os dois têm sido alvo de especulações em torno de um suposto caso extraconjugal, que foi confirmado pelos próprios e pela então esposa de Hong.

O caso se tornou um escândalo e o casal sofreu intensa retaliação da mídia e do público sul-coreano; era de se esperar, já que Hong Sangsoo é um dos maiores diretores do país na atualidade, e Kim Minhee é praticamente a atriz-símbolo do país – que é reconhecidamente rígido com a conduta de suas figuras públicas.

O longa é, muito descaradamente, uma resposta àqueles que fizeram represália contra o casal, mas também é uma conversa sutil entre ambos. É, acima de tudo, uma produção extremamente corajosa, que abre a imagem dos dois ainda mais para o público; que não se envergonha de admitir os sentimentos, os arrependimentos que carrega, e que também aproveita para se defender das críticas. Postura esta que condiz completamente com a conduta de Sangsoo e Minhee diante da mídia.

No tapete vermelho da Berlinale, ambos apareceram lado a lado; o que, por si só, é uma contestação do costume sul-coreano de celebridades envolvidas em polêmicas ficarem um tempo, às vezes anos, longe das câmeras para – como muitos dizem – “refletir”. Ainda, na coletiva de imprensa do mesmo festival, o casal chegou admitir estar apaixonado, confirmando os rumores pela primeira vez.  Aqui, a  contextualização das circunstâncias em que o filme foi produzido e lançado é muito importante porque, como dito, é um filme essencialmente autobiográfico.

O enredo segue a atriz Younghee (Kim Minhee) que, após ter um caso com um famoso diretor, está em Hamburgo, Alemanha, para se manter longe da mídia. De fato, além de menções breves, a fama não é explícita em cena alguma, tal como o luxo e o glamour da vida de uma estrela do cinema.

Na primeira parte do longa, que se divide em duas, ela está sempre acompanhada de sua amiga, Jeeyoung (Seo Younghwa), que mora em Hamburgo após um divórcio. Ambas frequentemente discutem suas relações passadas, e descobrem ter visões muito diferentes sobre estas. Enquanto Younghee ainda está apaixonada por seu ex-amante – a ponto de desenhar seu rosto na areia durante uma visita à praia -, Jeeyoung confessa nunca ter realmente amado o ex-marido, e ter estado com ele por simples conforto. As duas caminham juntas em um parque, onde fazem planos de visitar todos os dias. A atriz chega a se perguntar se deveria se mudar para a cidade.

Após uma conversa constrangedora durante o almoço com os colegas europeus de Jeeyoung, Younghee está pela primeira vez de muitas no filme na praia – uma paisagem cinza, estática e solitária -, e é nela que se encerra o primeiro “capítulo” do enredo.

Na segunda parte do filme, Younghee está de volta à Coréia, e se emociona durante uma sessão de cinema em Gangneung, uma pequena cidade litorânea em que vivem velhos amigos seus. Quando os reencontra em uma reunião à base de soju (bebida alcoólica à base de arroz), percebemos mais a fundo a perturbação da personagem, que explode numerosas vezes com seus colegas durante uma discussão sobre o amor.

A abordagem de questões filosóficas e morais em situações como tal – uma saída entre amigos para beber – é, inclusive, tema recorrente na obra de Hong Sangsoo. Estes momentos carregam os pontos de clímax dos filmes do cineasta em geral e também deste longa.

Um deles é o já mencionado acalorado e embriagado debate sobre o amor. Younghee se frustra com a perspectiva de um casal de amigos e os denomina “não merecedores de amar”; ela levanta a voz e parece à beira das lágrimas, mas minutos depois está beijando uma velha amiga – o primeiro beijo lésbico de ambas. Talvez a cena seja uma referência ao sucesso de bilheteria A Criada (Ahgassi, 2016), dirigido por Park Chanwook e também estrelado por Kim Minhee, em que a atriz interpreta uma rica herdeira japonesa que, entre diversas complicações da trama, acaba se envolvendo com uma jovem criada.

Outra explosão de Younghee ocorre após encontrar o tal diretor num jantar informal com a equipe de produção do novo filme que dirigiria. Coincidentemente (ou não), ele está filmando a primeira cena de um novo filme, ainda sem enredo, na cidade em que Younghee está hospedada. Ela questiona sua decisão de fazer um filme “pessoal”, questiona seu arrependimento, e aos gritos acaba por insultá-lo, fazendo-o chegar às lágrimas – pouco tempo depois de agradecê-lo por tê-la amado. Assistir a esta sequência é como presenciar uma discussão entre pessoas reais, como espiar uma conversa na qual você é testemunha, mas não é incluído e se pergunta mesmo se deveria ter acesso. A pessoalidade transborda da cena e o espectador se sente como um desconfortável intruso nela.

Esta Younghee, provocativa, inconsequente e brutalmente honesta, é um contraste marcante com a Younghee que esbanja um charme juvenil na primeira parte do filme e que faz graça quando elogiada pelos amigos; ela se despe de sua imagem idealizada para revelar seus tormentos interiores. Poderia ser esta uma maneira de a própria Kim Minhee se manifestar indiretamente diante da constante cobrança da mídia sul coreana? Muito provavelmente.

Em uma das poucas cenas em que a atriz não aparece, dois de seus colegas conversam sobre o caso entre ela e o diretor. Um deles se pergunta em voz alta sobre o motivo de tamanho assédio midiático, ao que o outro responde: “as pessoas não tem nada melhor para fazer”. E completa: “acham que podem fazer coisas tão cruéis, mas duas pessoas não podem se apaixonar”.

Logo, Younghee está de volta à praia – e mesmo estando a milhares de quilômetros de distância, ela parece tão cinza, estática e triste quanto parecia a paisagem alemã. O longa completa seu ciclo parando no mesmo lugar do qual saiu; ela se deita na areia gelada e caminha sem rumo: é a perfeita imagem da solidão.

Entre melancólica belas paisagens cinzentas, “Na Praia à Noite Sozinha” é um questionamento subjetivo do amor, do arrependimento, e da moral midiática. Você pode conferir o filme em São Paulo nos dias 16 de setembro, no Cinesesc e 18, no Espaço de Itaú de Cinema Augusta. Veja o trailer:

por Juliana Santos
jusantosgoncalves@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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