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Não me abandone jamais: juventude e Prêmio Nobel
Na Estante
10 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

Darling,

Hold me,

And never

Let me go

“Never let me go”, de Judy Bridgewater, era a música favorita dentre as poucas conhecidas por Kathy. Inocente, a garota pré-adolescente imaginava que a canção tratava da separação de uma mãe e seu filho mesmo que o restante da letra não se encaixasse na teoria. Era como Kathy sentia a música. Certa noite, a garota não se satisfez em apenas ouvir a canção e começou a dançá-la segurando um travesseiro como se fosse um bebê. A cena foi flagrada por uma das inspetoras que cuidava de Kathy e que começou a chorar compulsivamente na hora em que botou os olhos na menina. Isso porque ela sabia que nem Kathy nem nenhuma outra criança ou adolescente de Hailsham poderia ter filhos. Afinal, todos estavam sendo criados naquele orfanato para que, quando crescessem, estivessem aptos e saudáveis para doarem órgãos vitais para outras pessoas que viviam em liberdade no resto do Reino Unido.

Kathy enfrenta ao lado de Ruth e Tommy as primeiras intrigas e os primeiros sinais de que sabiam que, no final das contas, estavam sendo preparados para sacrificar suas vidas para salvar a de desconhecidos mesmo que raramente isso fosse visto de forma tão negativa assim.

Em Hailsham, eles foram inconscientemente preparados desde pequenos para encarar a vida de uma outra forma, algo que Kathy repara enquanto compartilha suas memórias de infância e juventude com o leitor. O sexo, por exemplo, ao mesmo tempo que era motivo de fofocas e gozação (como é em qualquer grupinho de pré-adolescentes, em qualquer lugar), era também visto como algo da natureza humana, nada repreensível — fato que serviria como uma espécie de “recompensa”, dado o futuro destino dos jovens. Acontece que o sexo não era capaz de cobrir o vazio quando as emoções tomavam conta.

Uma história distópica como a de  Não me abandone jamais (Companhia das Letras, 2016) poderia ser apenas mais um romance young adult que tenta se tornar um novo must-read adolescente como as franquias teen Jogos Vorazes e Divergente, ou então um blockbuster hollywoodiano. Mas o romance foi escrito por Kazuo Ishiguro, autor japonês e vencedor do Prêmio Nobel da Literatura de 2017.

O talento do autor, que pode ser visto não apenas nessa obra mas em toda sua bibliografia, a meu ver, é essencial para o sucesso da narrativa, que mais tarde virou filme com Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield interpretando o trio de amigos protagonistas.

É importante pontuar isso porque, durante a leitura, me peguei questionando várias vezes o quão datada poderia ser aquela história se não fosse bem contada, se não fosse capaz de conquistar leitores de todos os tipos e idades. Quantos livros com premissas tão interessantes quanto essa foram lidos durante a adolescência, mas, quando revisitados mais tarde, haviam perdido o encanto que tinham antes? Buracos na história, personagens e diálogos inverossímeis. Todos os erros saltam aos olhos quando você está lendo algo que já passou do tempo de ser desfrutado, mas Não me abandone jamais não parece ser o caso.

As personagens, por exemplo, são desenvolvidas com profundidade sem importar em que fase da vida estão. Quem acredita que crianças apenas repetem o que veem, deveria conhecer as crianças de Hailsham construídas por Ishiguro. São complexas, astutas, sabem resolver suas próprias intrigas sem intermédio dos adultos. Ao se tornarem adolescentes, mostram que são a plena consolidação dos traços que já expressavam quando pequenas. A naturalidade com que tratam o sexo também revela que a fase não tem nada de impura ou censurável. Já adultos, carregam todos os amores e angústias que todos nós bem conhecemos.

Não me abandone jamais é um livro maduro e de uma sensibilidade que vai aflorando a cada capítulo e cada fase vivida.

Por Larissa Lopes
larissaflopesjor@gmail.com

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