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O mundo trash: uma breve introdução a um gênero incompreendido
CINÉFILOS
08 out 2019 | Por Gabrielle Abreu (gbabreudeoliveira@gmail.com)

Combine um baixo orçamento, a despreocupação com a qualidade e a criatividade dos diretores para ter o melhor de todos os mundos: produções trash.  Famosos por passarem na TV aberta madrugada adentro através de programas como Corujão, na Rede Globo, e Sessão das Dez, no SBT, antes de quebrar o domínio do cinema pelas mega produções de Hollywood, o trash vem para chocar, divertir e permitir que muitos estúdios pequenos consigam produzir de forma criativa e autônoma. Aqui você aprenderá um pouco sobre a origem desse gênero, marginalizado e amado por uma parcela da população que gosta do cômico e exagerado molho de tomate e objetos assassinos.


Afinal, como o
trash surgiu?

Tudo começa nas primeiras décadas de Hollywood com o advento da sessão dupla: primeiro os cinemas passavam um filme de menor orçamento e com menor duração conhecidos como filmes B , e em segundo, o filme que era a estrela da noite. A lógica era usar como atrativo a quantidade de entretenimento pelo preço de um ingresso. Isso criou uma alta demanda por filmes B e chamou a atenção dos grandes estúdios, conhecidos como The Big Five (MGM, 20th Century Fox, Paramount, Warner Bros e RKO). Por conta do baixo orçamento, o tempo para filmar era curtíssimo e essas produções eram filmadas de cinco dias à, no máximo, duas semanas. Com a reutilização de sets de filmagem e figurinos, era vantajoso para os grandes estúdios continuar produzindo. 

O Cadáver Desaparecido (The Corpse Vanishes, 1942), também conhecido com o título de Raptor de Noivas, é um clássico dos filmes B. [Imagem: Copyright Monogram]

Tudo ficou ainda melhor para os grandes estúdios com o block booking, conhecido como “reserva em bloco”. Tais estúdios praticavam quase que uma compra casada: para os cinemas adquirirem os filmes A, eles precisavam comprar um pacote de filmes B a preços fixos, independente de serem bons ou ruins.  Por consequência, os estúdios não se preocupavam mais com a qualidade desses filmes, uma vez que eles sempre seriam vendidos. No final da década de 40, houve a proibição da venda casada nos Estados Unidos e pouco tempo depois, chegou a televisão. Os filmes B começaram então a adquirir outro significado: agora eram produzidos por estúdios menores e quase sempre utilizando as temáticas de terror, ficção científica e ação. Nesse ponto a diferenciação dos filmes B para o trash não é tão acentuada. Ainda assim, nos Estados Unidos, eles classificam o trash como a categoria Z. 


É do exagero que eu gosto!

Quando os filmes trash entram na fase da Exploitation   produções apelativas que abordam, de modo mórbido e sensacionalista, a temática que tratam , passam a se diferenciar dos demais gêneros. “O que força ser ruim são os exageros. Ele não chega e mata, ele pega uma serra elétrica e corta a pessoa enquanto ela está viva(…). A cena de sexo não é comum, ela é sempre exagerada, seja para o grotesco, seja para a hipersexualização”, comenta Leandro Apolinário Leite, redator publicitário e fã do gênero . A estratégia era apresentar algo que as pessoas não veriam na televisão e nem no cinema, lugares cativos das megas produções. 

Um filme famoso pelo exagero é a produção do cineasta brasileiro José Mojica, criador do Josefel Zatanás,o Zé do Caixão.Devido ao sadismo do personagem, seus filmes foram proibidos na ditadura militar de 1964. Não só pelas cenas pesadas que beiram à tortura, os longas do cineasta também contam com cenas explícitas de nudez. “Um filme do Zé do Caixão, de quando ele já era velhinho me marcou muito, pois eu era criança e continha cenas de nudez misturada com sangue. Na época, achei coisa de doido.” comenta o advogado Carlos Sena, recordando quando teve seu primeiro contato com o universo trash

Famoso por suas unhas de 25 centímetros, o personagem Zé do Caixão estreou no cinema com o filme À meia-noite levarei sua alma de 1964 [Imagem: Copyright N. T. M. Produtora e Distribuidora de Filmes]


Doces ou travessuras?

Quando se fala de trash, é impossível não falar de filmes icônicos que englobam o universo do Halloween. O filme musical The Rocky Horror Picture Show (1975) de Jim Sharman, era exibido em cinemas drive in e é até hoje um marco para o Dia das Bruxas americano. A ambiguidade sexual, os exageros e a bizarrice marcam o filme do começo ao fim. O lema da trama é: Give yourself over to absolute pleasure. Em tradução livre: “Entregue-se ao prazer absoluto”.

O filme é um dos casos raros de trash que caiu nas graças do público. Hoje, é considerado um clássico cult. [Imagem: Copyright 20th Century Fox]


O genuíno
trash

Nos anos 80 com a chegada do home video, (famosa fita VHS), as locadoras tornaram-se o novo lar do trash. A partir daí, produtoras se especializaram nessas produções, como por exemplo a Troma Entertainment. Getro Guimarães, dono de um canal que aborda filmes na temática trash e terror com mais de 300 mil inscritos (Canal Getro), é publicitário de profissão e consumidor de filmes trash a mais de 30 anos. Ele conta um pouco sobre o seu primeiro contato com o gênero: “O primeiro VHS que tive contato se chamava O Vingador Tóxico, um filme que eu gosto muito e até hoje quando me perguntam qual o meu herói favorito, eu respondo que é ele.”

O Vingador Tóxico (The Toxic Avenger, 1984), de Lloyd Kaufman e Michael Herz, é uma produção da Troma Entertainment e conta a história do jovem Melvin Junko (Mark Torgl), faxineiro atrapalhado que trabalha em uma academia de ginástica da cidade de Tromaville, até o dia em que cai em um tanque de lixo químico e torna-se o Vingador Tóxico (vivido agora por Mitch Cohen), espécie de defensor da cidade. O filme possui várias referências a quadrinhos e cenas de ação bizarras.

O filme conta com o romance do Vingador Tóxico e Sara (Andree Maranda), garota que é deficiente visual e ele salva em determinado momento. [Imagem: Copyright Troma]

O gênero é alvo de grandes debates sobre sua identidade na comparação das produções iniciais com as mais recentes. Para Getro, o trash antigo é o que tem mais valor e possui uma autenticidade que as produções atuais não possuem: “Eu gosto de filmes antigos e involuntários, onde os produtores e a equipe técnica estava tentando acertar, tentando fazer algo positivo.”

Há também grandes produtoras atuais como o Canal Syfy que está surfando na onda do trash. Na visão de Getro, é uma forma que o canal encontrou de faturar a partir do público já consolidado no passado: “Eu enxergo esses trashs atuais de forma bastante predatória. Entendo que não é porque é trash que é ruim.”

Uma saga famosa do Canal Syfy em parceria com a produtora The Asylum, é a do Sharknado. O primeiro filme da saga, Sharknado (2013), de Anthony C. Ferrante, foi filmado em 18 dias com o orçamento de US$ 1 milhão. O telefilme fala sobre um grande tornado que surge no litoral da Califórnia e que interfere na vida de milhares de tubarões, que são sugados do oceano e arremessados por toda Los Angeles. O sexto e último filme da saga, O Último Sharknado – Já Estava na Hora (The Last Sharknado: It’s About Time) foi lançado em 2018 e conta com viagens no tempo no enredo. 

A saga do Sharknado é o exemplo de como o gênero trash não se restringe mais a baixos orçamentos, mas mantém a premissa do exagero e da criatividade sem limites. [Imagem: Copyright The Asylum]

Amanda Fonseca, publicitária e amante do gênero, também compartilha do ponto de vista de que o trash se transformou com o tempo: “Hoje já temos filmes que são bem melhores produzidos, com ótimos atores e efeitos, mas entram no mundo trash exatamente por suas histórias serem surreais e alternativas, com a presença de muito sangue, mortes bizarras e claro, humor.”


Uma nova forma de fazer cinema

A autonomia que os filmes trash passaram a ter com o advento do VHS e a consolidação do público, permitiu que cada vez mais os diretores pudessem apostar na criatividade. O experimentalismo nos filmes de baixo orçamento revelaram uma nova forma de fazer cinema, utilizando de ferramentas como sonoplastia e jogo de luzes para compensar a falta de recursos. 

Um exemplo marcante, é o filme Sangue de Pantera (Cat People, 1942), produção estadunidense dirigida por Jacques Tourneur. A personagem Irena Dubrovna (Simone Simon) é uma jovem sérvia que acredita ter vindo de uma linhagem de mulheres-panteras que, quando emocionalmente excitadas, se transformam em panteras assassinas. Isso se torna real quando Irena começa a sentir ciúmes de seu marido, Oliver Reed (Ken Smith), a partir do momento em que ele passa a manter uma relação próxima com Alice Moore (Jane Randolph). No filme, raramente aparece de fato a pantera, mas ela está presente em muitas cenas através de sons e projeções de sombra nas paredes.

A pantera representada por uma sombra torna a cena mais enigmática. [Imagem: Copyright RKO Radio Pictures Inc.]

Essa distinção é um ponto muito importante para enfatizar como as produções de baixo orçamento contribuem para a experimentação no cinema e, sobre isso, Anderson Marques, estudante de jornalismo, reitera: “Por não ter amarras, algumas críticas e inovações só podem ser vistas nesse tipo de nicho. (…) O que eu faria para atrair alguém que não conhecesse esse mundo [trash] é mostrar que ainda existe um respiro de criatividade em filmes, e que dá muito para fugir do convencional através deles.” 


O
trash não tem limites e eu posso provar!

Não pode faltar o que o gênero tem de (talvez) mais peculiar: objetos, criaturas e alimentos assassinos. Anderson lembra das tardes que passava assistindo filmes de objetos com olhos, boca e na maioria das vezes, dentes afiados: “Minhas lembranças de criança me levam à época que ficava em casa na parte da tarde assistindo tomate assassino, bolha assassina, e todos os objetos e seres estranhos que você puder imaginar.” 

O Ataque dos Tomates Assassinos (Killer Tomatoes, 1978), de John De Bello, é a prova que o trash não tem limite algum. Considerado um dos melhores filmes do gênero já feitos, ele deu origem a mais três filmes: O Retorno dos Tomates Assassinos (Return of the Killer Tomatoes!, 1988), Killer Tomatoes Strike Back! (1990) e Killer Tomatoes Eat France! (1991). O sucesso foi tanto que rendeu até desenho animado feito pelo Canal Fox com o nome de Os Tomates Assassinos (Attack of the Killer Tomatoes: The Animated Series, 1990-91).

No segundo filme da saga (Return of the Killer Tomatoes!), os tomates ganham rostos e dentes afiados. [Imagem: Copyright New World Pictures]

Um filme que trata da mesma temática de seres perturbadores, é Bad Milo (2013), dirigido por Jacob Vaughan. Com a pegada do trash atual, a história gira em torno de Duncan (Ken Marino), um homem que vive estressado por causa do trabalho. Após fortes dores no estômago, ele vai ao médico e descobre uma criatura morando dentro dele. Depois de uma sessão de terapia, ele expele o monstrinho e o apelida de Milo. A partir daí, Milo passa a agir de modo protetor, buscando, por exemplo, se livrar do chefe abusivo do protagonista.

O filme pode ser encarado como uma metáfora literal para o medo de morrer de estresse. [Imagem: Copyright Magnolia Pictures]


Meu passado me condena (ou não)

A contribuição do trash para o cinema vai além do experimentalismo: o gênero foi berço de muitos diretores que fizeram carreiras em mega produções. Sam Raimi já fazia trash muito antes da franquia de filmes do Homem Aranha (2002-2007). Uma Noite Alucinante: A morte do demônio (The Evil Death, 1981) cumpriu sua função perfeitamente: Raimi queria que o filme fosse à frente do gênero e estava disposto a fazer com que fosse realmente assustador. A história rendeu mais dois filmes: Uma Noite Alucinante (Evil Dead 2: Dead by Dawn, 1987) e Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, 1992). Ele também desenvolveu a série de televisão Ash vs. Evil Dead (2015-2018) da Emissora Starz, continuação da história.

O primeiro filme da franquia foi gravado durante três meses e contou com o orçamento de US$ 350 mil dólares. [Imagem: Copyright New Line Cinema]

Outro diretor que também iniciou seus trabalhos na produção trash foi Peter Jackson, conhecido pela saga do Senhor dos Anéis e O Hobbit. No seu histórico consta o filme Trash – Náusea Total (Bad Taste, 1987). Com o orçamento modesto de 11 mil dólares, Jackson não só dirigiu como roteirizou e atuou no filme. A história gira em torno de uma cidade pequena chamada Kaihoro invadida por alienígenas que sequestram humanos para abastecer uma rede de fast-food. 

Na trama o ingrediente principal para preparar o lanche da rede de fast-food é carne humana. [Imagem: Copyright Image Entertainment]

A contribuição do trash para o cinema é inegável. Mais do que mostrar que pra tudo tem gosto, esse gênero mistificado e posto de lado quando comparado às superproduções de Hollywood mostra que o entretenimento proporciona formas de  reinventar o cinema a cada nova produção. O sangue e a sujeira fazem parte, e mais ainda, a arte e o poder de divertir o público com o tosco e o irreal. Fica de lição para quem leu até aqui se convencer a assistir uma produção tosca com a única exigência de se divertir. Bom filme!

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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