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O ocaso da democracia brasileira
CINÉFILOS
17 jan 2020 | Por Laura Toyama (laura.toyama@usp.br)

Não é de hoje que o cinema brasileiro mostra sua afinidade com lutas sociais e políticas. Desde o cinema novo — década de 1960 — o caráter revolucionário do audiovisual brasileiro tem se transformado e acompanhado o cenário político do Brasil à medida que ele se constrói. Democracia em Vertigem (2019) é um documentário como esses. É um retrato documental e subjetivo de um cenário político que se altera mais a cada instante, é a história de uma democracia nascente, que deitava um novo sol progressista sob um país que foi atravessado por violenta ditadura e que agora regride frente a arquitetura de golpes e jogos de poder.

A cineasta Petra Costa, mineira que dirigiu Olhos de Ressaca (2009) e Elena (2012), dirige agora o documentário que pretende ilustrar um ponto de vista sobre os últimos anos da política brasileira. Tendo como lugar de partida a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT), a narrativa acompanha vários acontecimentos e amarra seus reflexos nas eleições de 2019, quase vinte anos depois, com a ascensão de Jair Bolsonaro. Sob uma ótica pessoal, Petra compara a própria idade com a da democracia brasileira e conta a própria história a partir dos fatos políticos que marcaram as últimas décadas.

A imparcialidade não faz parte da narrativa, apesar do formato documental do filme — o envolvimento pessoal da diretora com a história não é segredo para ninguém. Logo no início somos apresentados à realidade da família de Petra e sua afinidade com a política desde o período da ditadura. Seus pais, militantes ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCdoB), foram próximos do fundador Pedro Pomar, assassinado pelo regime militar em 1976, de quem Petra herda o nome, uma homenagem.

A narração do documentário é feita em tom moderado e parece a declamação de um poema, uma história de incertezas contada de forma pessoal. As primeiras cenas, imagens do palácio do planalto vazio, combinadas com a música erudita, criam um clima de tensão, que nos acompanha porque nos vemos refletidos, aos poucos, nos rumos que a história do Brasil toma. Os quadros estáticos e vazios são preenchidos pela narrativa pesada e por entrevistas nos bastidores de Brasília e no coração dos três poderes.

O documentário foi lançado em junho, na plataforma de streaming Netflix, depois das primeiras exibições em festivais internacionais. Esse lançamento através da empresa norte-americana, que cresce cada dia mais em número de clientes no Brasil (terceiro maior mercado da empresa no mundo com oito milhões de assinantes), é um indicador dos novos caminhos que o cinema brasileiro pretende desbravar.

 

A casa da Democracia

A capital, Brasília, é protagonista de Democracia em Vertigem, não só como palco dos acontecimentos, mas como um estranho símbolo de concentração de poder. Recobrando sua construção durante o governo de Juscelino Kubistchek, fundada em 1960, a cidade é classificada no filme como uma utopia da nova república, o lugar que abrigaria o sonho da democracia brasileira. Mas a arquitetura fria, moderna e descômoda do planalto central já é, por si só, um indicativo da grande distância entre o povo e seus representantes e a segregação sob a qual foi calcada toda a sua idealização. Nas palavras da diretora “a arquitetura perfeita esqueceu-se do principal ingrediente de uma democracia: o povo, que ficou ainda mais isolado do poder”.

Mas essa divisão não se observa apenas entre a classe política e a sociedade civil. O povo, com o passar do tempo, se dividiu em dois polos, separados pela força e convicção de suas ideias. O pôster do filme, uma foto aérea da esplanada dos ministérios, mostra as pessoas em lados opostos, identificadas pelo contraste de suas vestimentas vermelhas e amarelas e cercadas por muros de ferro feito trincheiras. As eleições de 2018 foram marcadas por essa rachadura, que Petra prova ter começado a se abrir anos antes.

Poster do Documentário em que se observa a divisão do povo em dois lados, em frente ao Congresso Nacional [imagem: reprodução]

Nas imagens, feitas pela própria cinegrafista e pelo fotógrafo Ricardo Stuckert, Petra brinca com as muitas faces de Brasília e como a massa viva que é o povo se contrasta com as frias e gigantes formas de concreto que ornam a capital. Sob novas perspectivas, sejam elas ideológicas ou técnicas, somos levados pelos corredores da política com novos olhos e uma curiosidade fruto do turbilhão de acontecimentos que nos distanciou mais ainda da verdade sobre quem nos governa.

 

Lula, antecessor e precursor

O surgimento e ascensão do PT são panos de fundo para as discussões trazidas pela diretora no documentário. Sua ligação pessoal com o partido nos dá acesso aos bastidores das batalhas para se manter no poder e disseminar suas ideias. Logo no início, somos surpreendidos por uma sensível conversa entre Marília Andrade, mãe de Petra, e Dilma Rousseff, e a identificação que sentem uma pela outra (mineiras, mulheres, foram presas no mesmo lugar durante a ditadura). Esse tipo de manobra acontece durante todo o longa e sustenta o tom pessoal e opinativo que a diretora leva.

Algumas imagens, recobradas da década de 1970, mostram Luiz Inácio Lula da Silva, “Lula”, ainda um líder sindical da região do ABC, em emocionado discurso. Sua imagem heróica é construída a partir daí, num estranho movimento em que Petra nos introduz a alguém que julga nosso conhecido, sem dizer quem é e de onde vem. Essa certeza sobre a história de Lula e sua indissociação com a história da política brasileira lança-o como protagonista da ascensão da classe trabalhadora e da esquerda. Mais que um líder político, Lula foi, e ainda é, o representante de ideias que despontaram na década de 1960 e se mantém, a duras penas, até hoje.

Lula sendo carregado pela multidão após discursar para os grevistas do ABC Paulista [imagem: fotografia de Márcio Arruda/ Agência O Globo]

Sua prisão, em abril de 2018, causou a comoção de aliados e de uma enorme massa de pessoas que o acompanharam até o momento em que se entregou para a Polícia Federal, no sindicato dos metalúrgicos do ABC. Os mal entendidos e furos que envolveram sua condenação foram motivo de muitas desavenças entre uma população já dividida pelo ódio ou compaixão pelo partido desse líder tão relevante. No documentário, temos acesso à cenas privilegiadas dos momentos que antecedem a prisão do ex presidente. Através de imagens de dentro do sindicato, sentimos próximos de nós o impacto da ausência de Lula para figuras conhecidas do PT, sua família e muitos de seus admiradores que rodeavam o local aos gritos “cercar! cercar! e não deixar prender!”. A proximidade de Petra com esse momento constrói uma narrativa, através de um novo ponto de vista, sobre um marco histórico na política, em que há a condenação de um ex presidente candidato às eleições e todos os esquemas que podem ter se concretizado a partir dessa prisão duvidosa.

Considerada por muitos como política, essa prisão de fato não pode se dissociar da história brasileira e dos rumos que tomaram suas instituições. Uma vez que, mesmo que suas motivações não tenham sido comprovadas ideológicas, representa a retirada de um dos mais influentes políticos da corrida presidencial e se configura, em Democracia em Vertigem, num grande momento do Brasil como nação e a forma como as esferas de poder se relacionam entre si. Nas palavras de Barack Obama, ex presidente dos Estados Unidos da América, em um recorte que nos é apresentado já no trailer, ele diz “You are the man! The most popular politician in the world” (Você é o cara! O político mais popular da terra!) e daí percebemos o peso de prender alguém como Lula.

Fotografia do momento em que Lula deixa o sindicato dos metalúrgicos do ABC para se entregar à Polícia Federal, sendo impedido por um mar de pessoas à sua espera, na porta [imagem: Francisco Proner]

 

As rachaduras dos três poderes

O impeachment sofrido pela então presidenta da República, Dilma Rousseff, no ano de 2016, também é ponto de partida para grande parte das reflexões propostas pela diretora no documentário. Destrinchando seus reais objetivos, traçando perfis de figuras políticas envolvidas no processo e recuperando o passado de um país marcado por irregularidades e golpes de Estado, Petra consegue transparecer, sem parecer cega em sua ideologia, argumentos concretos para a crença de que esse acontecimento foi um golpe premeditado, e que suas consequências são, hoje, nossa realidade.

A parcialidade do poder Judiciário é também pauta importante, mas que figura timidamente nas linhas do roteiro. Apesar de anteceder os vazamentos publicados pelo The Intercept Brasil, de conversas entre o procurador Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, em meados de 2019, em que se revela a tendência do juiz (agora ministro da justiça do governo de Jair Bolsonaro) a condenar o ex presidente Lula sem provas concretas, o documentário já indica que esse tipo de esquema estava em curso desde que o PT decide se alinhar ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, hoje só MDB) para conquistar setores mais conservadores e abastados da sociedade.

Em uma das cenas mais emblemáticas e dramáticas, temos as imagens da posse da presidenta no Palácio do Planalto, em que desce a rampa acompanhada de Lula, sua esposa Marisa Letícia e o misterioso vice-presidente, Michel Temer. Um dos protagonistas do processo de impeachment, Temer foi a liderança peemedebista escolhida para ocupar esse cargo, como uma condição ao PT em troca de forças políticas dentro e fora do congresso. Petra brinca com os trejeitos e expressões corporais do “tenso” vice-presidente, que parece desconfortável e destoante da realidade de um país que mais uma vez seria governado pela esquerda e pela primeira vez, por uma mulher. Tomados pela narrativa conspiratória de Petra, cogitamos a possibilidade de que de fato ele já almejava o mais alto cargo do executivo e que deixava transparecer seus desejos desde o primeiro dia.

Dilma Rousseff recebendo a faixa presidencial de Lula em sua primeira posse, acompanhada do vice Michel Temer, de quem se desconfia da expressão nessas imagens, no documentário [imagem: reprodução]

Os desdobramentos dessa reflexão são retomados mais tarde com cenas de cobertura dos julgamentos e manifestações que deram forma ao período em que tramitava o segundo impedimento de um presidente na história do país. A aliança entre Temer e o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (hoje condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva) fica clara e escancara um esquema muito maior do que o próprio PT poderia prever. Um jogo de alianças entre os 3 poderes deixou o partido de mãos atadas, enquanto assistiam ruir sua imagem e suas conquistas dos últimos anos.

 

As Jornadas de Junho

As manifestações iniciadas em junho de 2013 são trazidas também como importante marco na construção desse processo político. Incendiada por revoltas populares contra o aumento da passagem do transporte coletivo no estado de São Paulo, as manifestações passam a fagocitar inúmeras pautas que estouram na face das figuras de poder que não viram chegando uma nova onda de insatisfações. A conjuntura econômica e as políticas externas pouco eficientes do governo Dilma a colocaram na mira dos manifestantes cansados de anos de uma classe política distante e pouco confiável. As manifestações, antes mais pacíficas e com objetivos claros se tornou uma confusa aglomeração de grupos violentos, trabalhadores, uma classe média pouco lúcida e uma misoginia que imperou do começo ao fim na oposição à Dilma Rousseff.

Manifestantes ocupam as ruas das principais capitais do país em junho de 2013 [imagem: reprodução]

Desde então, um PT que se construiu ao longo de mais de 30 anos de lutas sociais se viu destruído pelo envolvimento de muitos de seus membros em esquemas de corrupção e da baixa aceitação da população, que agora virava as costas para seus objetivos. O distanciamento da base eleitoral e das premissas de combate a desigualdade social abriram caminho para o discurso anti-petista e anti-socialista de uma classe média que nunca se identificou com os projetos propostos pelo partido. Esse ódio e a aversão à política é tido por Petra, no longa, como a principal causa da ascensão de figuras da direita brasileira, que encontravam-se esquecidas nas cadeiras do senado e do congresso, mas que estiveram sempre na espreita do momento de emergir.

Jair Bolsonaro, atual presidente, só aparece no final do filme. Podemos entender essa sutil aparição como uma metáfora para seu “despertar” no cenário da política brasileira. Antes um deputado federal como outro qualquer, famoso por suas declarações polêmicas e conservadoras, começa a despontar como inimigo do PT, da esquerda e de “tudo isso que está aí”, em suas próprias palavras. A singela aparição dá um rápido pulo para sua grande visibilidade nos anos que seguem o impeachment e sua escalada impressionante até o poder. Pelos olhos da diretora, vemos um Bolsonaro reflexo de todos os episódios que foram narrados antes e um desfecho lógico para os acontecimentos dos últimos anos.

Os argumentos da anti-política e do discurso de massas ficam bem evidentes como opinião de Petra Costa sobre a eleição do atual presidente em 2018. O enfraquecimento de uma esquerda pouco articulada é o estopim para um regresso em conquistas das quais o Brasil carecia no passado. A volta de pensamentos conservadores, tanto os que concernem políticas públicas quanto os que concernem o cotidiano do cidadão brasileiro, são a toada mais trágica de todo o documentário, em que nos deparamos com o desmantelamento de uma democracia ainda crua e jovem.

 

O discurso autocrítico e os desfechos

Mas, muito além de uma análise da direita brasileira e das investidas que sofre o PT e seus aliados, se faz o tempo todo um movimento de autocrítica, tendo em vista a explícita ligação da diretora com a esquerda brasileira, sobretudo ao Partido dos Trabalhadores. Mais de uma vez, Petra volta seu olhar para as lideranças do partido e seus erros para que o projeto democrático no qual acreditavam caísse no esquecimento, no imaginário do povo e da própria classe política, dentre os quais muitos subverteram sua ideologia em nome do dinheiro e do poder. Apesar de parcial, há grandes questionamentos sobre os dois gumes da faca que cortou anos de um processo político que se interrompeu e que agora caminha na direção oposta.

Democracia em Vertigem é a história do hiato democrático que viveu o Brasil desde o período pós ditatorial até os últimos sopros do PT. A sacada da narrativa está em apontar o trajeto da história política num arco, em que se atingiu um cenário de esperança, mas que numa derrocada, retoma as características de um país agrário, dominado pelas elites e com grandes desigualdades sociais e políticas. A grande tensão do filme está em perceber a rapidez dos fatos e a repetição de cenários que levaram à anos de repressão e incertezas, como na ditadura.

O protagonismo do longa à época em que foi lançado joga uma luz sobre a necessidade de se falar sobre o passado, mas também dialogar sobre o presente. O registro dos acontecimentos recentes da política brasileira serão o espelho da sociedade daqui à alguns anos e contribuirá como narrativa histórica para essa reflexão. Mesmo que em tom pessoal, Petra Costa compõe um ato político em forma de documentário, e usa toda a sua sensibilidade, já vista antes em outras de suas produções, para instigar o debate sobre os rumos que toma nossa história: a do país e de cada um de nós, que nele vive. E vota. E luta.

Aí reside sua importância, a de falar sobre o passado, mexer nas feridas ainda abertas de um Brasil ainda enfermo de suas injustiças e questionar quais foram os eventos que nos fizeram regredir. O registro, seja ele parcial ou não, é a alma da verdade e a garantia da liberdade no futuro. Nas palavras do poeta russo Maiakovski, citado pela ex presidenta Dilma Rousseff em seu último pronunciamento oficial:

 

 “Não estamos alegres, é certo,

Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado

As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,

Rompê-las ao meio,

Cortando-as como uma quilha corta as ondas”

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09 maio 2020
 
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