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Querido mundo, como vai você? – um menino ambicioso, um livro que poderia ser mais
Na Estante
30 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Toby Little é uma criança ambiciosa. Aos cinco anos, o menino inglês, depois de ler um livro sobre a história de uma carta, pensou que seria interessante se fosse possível mandar cartas para pessoas de todos os países do mundo. Sabine resolveu realizar o desejo do filho e começou, despretensiosamente, enviando cartas para parentes e amigos de amigos que viviam em outros países. No entanto, a ideia do pequeno Toby se tornou um enorme projeto. O intitulado Writing to the World cresceu de forma surpreendente e a sua página no Facebook aumentou em curtidas da noite para o dia. De repente, eram várias as pessoas que queriam receber uma carta de Toby. Sua mãe, inclusive, criou um site para poder falar mais sobre o projeto e também hospedar as cartas que Toby envia e recebe.

Uma ideia tão boa quanto essa não poderia ficar apenas na internet e suas redes sociais. Dessa forma, Toby resolveu, junto com a ajuda de sua mãe, compilar as principais cartas dentro de um livro, o qual recebeu o nome de “Querido mundo, como vai você?” (Fontanar, 2017). E até aqui, não há problema algum. Seria até uma injustiça não criar um livro sobre um projeto tão bem sucedido. No entanto, para um livro ser bom, não basta ter uma ideia boa, é preciso saber fazer e organizar, e é aqui que Querido Mundo começa a pecar.

O conteúdo é considerado a parte mais importante de um livro. Até porque, já dizia o velho ditado, “não se deve julgar um livro pela capa”. Entretanto, dificilmente alguém irá, sem conhecer o conteúdo, gastar seu dinheiro comprando um se sua capa for totalmente mal feita. E realmente a capa do livro de Toby é linda, na verdade, chama bastante atenção e aguça a curiosidade de leitor. O que de fato decepciona é a diagramação do livro, o que prejudica o próprio conteúdo.

O livro é um pouco confuso, já que não apresenta uma organização tão boa. Apesar das cartas para cada país e suas respectivas respostas estarem divididas entre os continentes, como se fossem diferentes capítulos, as imagens que são anexadas no livro são o pior erro. Ao invés de uma imagem referente a determinada carta vir logo depois dela ou ao final das cartas daquele continente, elas aparecem do nada, no meio de uma outra carta aleatória. Você pode, por exemplo, estar lendo uma carta escrita por uma garota que mora na Suazilândia e ser interrompido por imagens que se referem a cartas que vieram da Índia, da Austrália e de Cingapura. Ou então estar lendo uma resposta vinda da Tailândia e ser surpreendido por fotos de cartas, entre elas uma enviada para o Equador. Tal organização não faz nenhum sentido, quebra totalmente o fluxo de leitura e faz com que o leitor não tenha tanto interesse pelas imagens, já que é até difícil lembrar ao que ela se refere.

No entanto, o livro, em relação ao seu conteúdo, merece elogios. Trata-se de um livro que faz as pessoas terem contato com diferentes culturas, cotidianos e hábitos. Estão presentes no livro, por exemplo, várias indicações de pontos turísticos e receitas de comidas típicas – que Toby e sua mãe por vezes faziam.  É notória também a preocupação da mãe de Toby com o respeito pelas diferentes culturas e países, sempre tomando cuidado e explicando as decisões de organização do livro em países e continentes – já que isso poderia resultar em algumas polêmicas.

Além disso, é necessário apontar a importância do livro e do projeto em si para o próprio menino, que é incentivado por Sabine a pesquisar mais sobre os países antes de enviar uma carta. Toby viu imagens de pontos turísticos que nunca tinha visto antes, conheceu diferentes culturas e até começou a ter interesse por línguas novas como francês e alemão. Com as cartas, o menino pode não só aprimorar a sua escrita, mas também aprender que nem todos no mundo têm os mesmos privilégios que ele e que a situação em alguns lugares, como países da África e do Oriente Médio, são bem delicadas. O projeto fez Toby inclusive se engajar com uma instituição de caridade chamada ShelterBox, para qual constantemente arrecada dinheiro. Ele até conseguiu que uma das caixas com utensílios de primeira necessidade fosse entregue para um menino sírio que estava refugiado no Iraque e que se voluntariou para receber uma de suas cartas. Assim, o projeto chama atenção para assuntos que não devem ser esquecidos, além de mostrar o olhar de uma criança sobre eles.

Apesar disso, o próprio conteúdo também é passível de críticas. Por vezes sentimos falta da explicação do que são alguns pontos turísticos. O leitor constantemente fica confuso e não sabe se aquele lugar tratado na carta é um parque, um museu, um monumento ou qualquer outra coisa do tipo. Então, se você quiser ler, aqui vai uma dica: leia sempre com um celular ou um computador por perto, sempre vai acontecer de você ter que pesquisar algo para poder entender melhor o que Toby está falando. O que também não deixa de ser bom, por colocar o leitor em contato com o novo.  Além disso, todas as cartas são precedidas de uma breve introdução, a qual, muitas vezes são insuficientes para se entender o conteúdo da carta, fazendo com que ela seja confusa para o leitor que não conhece bem aquele país e sua cultura.

Por fim, também no que se refere às imagens do livro, o leitor, às vezes, sente falta de algumas fotos que poderiam ter sido anexadas. Quem não gostaria de ver a foto de um elefantinho que recebeu o nome de Toby e que sempre está visitando o quintal de uma família do Chade que recebeu a carta do menino? São várias as pessoas que mandam imagens para Toby e poucas as que são divulgadas. O leitor precisar lidar com a curiosidade. Mas seria injusto não ressaltar que, as duas imagens mais importantes foram, de fato, adicionadas ao livro. São elas a de pessoas no Polo Sul segurando uma grande faixa desejando parabéns para Toby na época de seu aniversário e uma cópia da resposta oficial que Toby recebeu após enviar uma carta para o duque e a duquesa de Cambridge.

Sendo assim, apesar dos graves erros, Querido Mundo, como vai você? é um livro  leve, ideal para ficar do lado da cabeceira da cama e ser lido aos poucos e antes de dormir. As cartas deliciam o leitor com a visão infantil e inocente de um mundo complexo e que, na verdade, não vai tão bem assim.

Por Fernanda Teles
fernanda.teles@usp.br

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