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Contemplar a valsa de Zelda
Na Estante
29 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: recorte da capa do livro / Reprodução

Por Matheus Souza (souza.matheus@usp.br)

Nós nos treinamos para deduzir uma lógica de nossas experiências. Quando uma pessoa chega à idade em que saberia escolher um rumo, a sorte já está lançada e o momento que determinou o futuro já passou há muito tempo. Crescemos baseando nossos sonhos na infinita promessa da propaganda americana. Eu ainda acredito que se pode aprender piano pelo correio e que a argila torna a pele perfeita.

Alabama Knight

O passado é sempre coberto por uma aura. Em especial, o passado que não vivemos, geralmente revestido de admiração ou espanto projetados por idealizações. Olhar o passado é olhar através de uma cortina, fina o suficiente pra sabermos o que há por trás, mas não o bastante pra conhecermos os detalhes. Anos 20: o grande período de otimismo depois da Primeira Guerra, um tempo marcado por crescimento cultural e econômico. Nos Estados Unidos, prosperidade. Na Europa, reconstrução.

Do outro lado da cortina, uma garota chamada Alabama.

Nascida no sul dos Estados Unidos no início do século XX, Alabama é filha de um renomado juiz da região. Uma menina comum, exceto a ousadia e desejo de independência pouco aceitáveis para a época.

A protagonista de Esta Valsa É Minha (Companhia das Letras, 2014) é um alterego da autora, Zelda Sayre, que fez do livro ‒ o único que escreveu ‒ uma autobiografia, contando sua vida da infância à idade adulta.  Zelda, assim como a personagem, foi uma criança um tanto mimada, mas mesmo assim sempre em busca de algo além do que lhe era oferecido. Filha mais nova de várias irmãs, tinha um pai rígido e uma mãe excessivamente passiva. Era bastante conhecida no círculo social da família e não tinha vergonha do seu interesse por alguns dos meninos com quem convivia, embora isso rendesse comentários maldosos a seu respeito.

Como era exigido, ela cresceu e se casou. Na história ficcional, o pretendente era David Knight, um jovem aspirante a pintor de sucesso. Na vida real, Zelda casou-se com o escritor Francis Scott Fitzgerald, que viria a publicar clássicos como O Grande Gatsby e se tornaria um dos nomes mais importantes da literatura nos Estados Unidos.

Tornou-se então Zelda Fitzgerald.

É impossível falar de Esta Valsa É Minha sem pensar em Zelda e Scott. Com o sucesso dele, os dois tornaram-se verdadeiras celebridades, emblemas da época, com todo o peso e glamour que isso pode trazer. A maior parte do livro faz referência à época em que o famoso casal viveu em Paris, um período de paixão e turbulências para a vida de ambos. Anos mais tarde, a situação era muito diferente. O romance foi escrito enquanto Zelda estava internada num sanatório, com diagnóstico de esquizofrenia. A escrita era incentivada pelos médicos como auxílio ao tratamento, e assim, em apenas seis semanas, ela terminou a primeira versão.

Esse cenário talvez explique muita coisa. Caio Fernando Abreu, no prefácio para a edição brasileira de 1986, disse o seguinte: “Sempre imagino assim: um dia, daqueles dias longos, chapados e doloridos da clínica psiquiátrica, Zelda sentou e escreveu […]”. Para o leitor, são perceptíveis as marcas de uma narrativa colocada no papel num fluxo tão intenso e em tais condições. Esta Valsa É Minha tem um texto extremamente denso, cheio de metáforas complexas com as quais é difícil se acostumar. É cheio de cortes temporais bruscos, cenas e diálogos inconclusivos que sem dúvida incomodam.

Zelda, junto ao marido F. Scott e a filha Scottie, também retratados no romance autobiográfico (Foto: Reprodução/Rex Features)

Mas não pare por aqui. Você consegue imaginar o quão difícil deve ter sido sentar e escrever?

A história de Alabama, além de ser a história das pessoas reais que lhe deram origem, é também o retrato da época sob um ponto de vista pouco valorizado: o de uma mulher. Muitas das aflições apresentadas são comparáveis às de outras personagens do mesmo período, como a própria Daisy, de O Grande Gatsby. Entretanto, Zelda é mais incisiva ao retratar as dificuldades sofridas pelas mulheres. Ao mesmo tempo em que desenha uma crítica à cultura da classe social a qual pertence, ela também expõe o modo como os homens aproveitam-se dessa condição para levar vantagem.

Graças à abundância econômica do pós-guerra, Alabama e David partem dos Estados Unidos para morar na Europa. Lá, eles mantém uma vida de ostentação até que as festas, a bebida e todos os luxos tornem-se um vício, e ambos passam a existir quase que unicamente em função dos próprios exageros.

Exageros estes que nunca atingem a satisfação. Nesse ponto, o romance de Zelda lembra bastante os de Scott, mostrando personagens constantemente angustiados com a realidade em que se encontram, por mais ricos, bonitos e invejáveis que possam parecer. A autora mostra isso em diversos momentos através de diálogos ao mesmo tempo sarcásticos, melancólicos e talvez um pouco autodepreciativos, reconhecendo neles alguns de seus problemas.

Ao longo de sua vida, Zelda dedicou-se a diferentes atividades no mundo das artes, sendo uma delas a pintura. Na imagem, o quadro Marriage at Cana. (Imagem: Reprodução)

Esta Valsa É Minha não tem exatamente algo que possa ser chamado de clímax. Como um livro de memórias, é cheio de momentos de marasmo e pequenos conflitos que nem sempre se resolvem. Um ponto que se destaca são as longas descrições dos cenários, pessoas e situações. A partir delas, é possível quase visualizar Zelda no hospício se esforçando para lembrar dos mínimos detalhes de toda a sua vida, refletir e escrever. Onde que as coisas deram errado? Como chegamos até aqui? Quem sou eu depois de tudo o que passou? O livro parece ter sido, para ela, um grande exercício de autocontemplação.

Durante toda a sua vida adulta, Alabama lutou de várias maneiras contra a tendência de ficar à sombra do marido. Velha demais para se tornar uma grande dançarina, desenvolve uma obsessão pelo balé que acaba tornando-se motivo de novas frustrações. Mesmo assim, ela não desiste.

Quanto à Zelda, o desfecho foi mais trágico. Quando publicado, em 1932, seu livro não foi bem recebido pela crítica estadunidense. Sua relação com Scott, assim como os problemas mentais, foi ficando cada vez pior. Ela passou por novas internações em diferentes momentos, até que, em 1948, morreu após um incêndio atingir o sanatório onde se encontrava.

Mais tarde, Esta Valsa É Minha foi publicado na Inglaterra, dessa vez recebendo consideráveis elogios. Atualmente, a história de Zelda Fitzgerald têm sido resgatada com outros olhares, considerando as nuances de uma figura tão emblemática, que poderia ter tido um destino melhor numa outra época ‒ ou não. Quem sabe?

Pouco se pode afirmar com certeza olhando o passado através de uma cortina.

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