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Tereza Batista cansada de guerra: as questões de gênero em Jorge Amado
Na Estante
14 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

As personagens femininas singulares são marca registrada das obras de Jorge Amado. Há, em cada uma delas, uma mística e uma força próprias de uma construção que envolve questões religiosas, sociais, raciais e de gênero. Tereza Batista é mais uma dessas personagens. É talvez a que mais une força e misticismo. Sua história é narrada na obra Tereza Batista cansada de guerra (Companhia das Letras, 2008). O livro, em uma narrativa que vai e volta no tempo, trás à tona questões intrínsecas às relações sociais da Bahia de meados do século XX, principalmente no que tange a mulher como sujeito social deste local e desta temporalidade.

Logo no início da obra, nos deparamos com uma Tereza já crescida, a Tereza mulher feita. Ela regressou a Sergipe por intervenção do advogado Lulu Santos e está pronta para estrear em um dos maiores cabarés de Aracajú. Na noite de estreia, uma cena enfurece Tereza: um homem na pista de dança bate em sua esposa. Bastou para que Tereza, que “não aguenta ver homem bater em mulher”, fosse para cima dele, causando enorme tumulto que levou a polícia ao cabaré. A briga atrasou sua estreia, comprometeu-lhe os dentes, mostrou a indignação de Tereza com a forma com que a mulher da sua sociedade era – e é – tratada e já nos prepara para a valentia que marca as ações da personagem.

O espírito de inconformismo de Tereza relaciona-se a dois aspectos principais: seu passado, marcado pela pobreza, pelo abandono e pela exploração sexual, e as influências dos orixás Iansã, de quem ela herda a coragem e a impetuosidade, e Omolu, de quem herda a obstinação de quem ajuda sem esperar nada em troca. É Oxalá, pai de todos os orixás, quem salva Tereza de ser presa na ocasião da briga no cabaré.

Do cabaré, a narrativa regressa então ao passado. Ainda menina, a orfã Tereza perdeu repentinamente sua infância. Aos doze anos, e por uma irrisória quantia, foi vendida pelos tios a Justiniano Duarte da Rosa. O capitão Justo era conhecido na região, para além dos roubos e das corrupções, pelos assédios e estupros. A maioria de suas vítimas eram adolescentes que mal tinham tido a primeira relação sexual. Tereza tornou-se sua propriedade e foi violentada sexualmente, todos os dias, durante anos, até conseguir escapar, em uma cena que, mais uma vez, combina força e misticismo. Do tempo na casa de Justiniano, Tereza carregou para a vida as cicatrizes das violências físicas e psicológicas a que foi submetida.

Por sua valentia, Tereza foi para a prisão. Tornou-se amante de um coronel que a libertou. Depois da morte deste, Tereza tornou-se prostituta para poder se sustentar, até que juntou-se com um jovem médico, que a levou para uma cidadezinha no Sergipe. É lá que Tereza, mais uma vez, mostrou-se uma verdadeira guerreira. Tal qual Omolu, orixá conhecido pela cura de doenças, combateu, sem medo, uma epidemia de varíola, ao lado das prostitutas da pequena cidade de Buquim. Em Salvador, mais uma vez de volta à prostituição, envolveu-se em outra batalha: mobilizou e liderou uma greve das prostitutas contra a violência policial e a destruição forçada dos prostíbulos mais pobres.

A escrita é construída sobre memórias que são relembradas, ao que tudo indica, por diversos narradores, pessoas comuns que repassam oralmente tudo o que ouviram da boca do povo. É como se a vida de Tereza tivesse sido transformada em um cordel e sua história tem veracidade justificada por essa oralidade.

“Peste, fome e guerra, morte e amor, a vida de Tereza Batista é uma história de cordel”, adianta a epígrafe da obra. Apesar da preciosidade da forma como é contada, sua história não é bonita e, se tem o intuito de representar uma camada social das mulheres nordestinas, ela nem deveria ser. As páginas em que são detalhadas as violências sexuais que Tereza menina sofreu desafiam o moralismo e apresentam uma narrativa incômoda de se ler. Não é bonita, mas é a história que está contida na memória de uma geração baiana que conheceu muitas Terezas e muitos coronéis, seja nos sertões, seja nos prostíbulos da capital. Terezas que não tiveram a mesma sorte que nossa protagonista que não se deixa sucumbir.

Tereza Batista carrega em suas costas as experiências de meninas e mulheres brasileiras vítimas das mesmas violências e condicionadas a um futuro de escolhas limitadas. Mulheres que são sexualizadas desde pequenas, vítimas da pobreza, impedidas de ter acesso à educação. Tereza é um grito desesperado de denúncia na obra de Jorge Amado. Por isso é importante que a personagem ou seu desfecho na obra não sejam vistos de forma romantizada. Toda essa a esperteza e força de Tereza, aspectos fáceis de serem romantizados, são, na verdade, frutos de uma vida de violências acarretadas por uma sociedade machista, patriarcal, desigual e violenta. A obra mobiliza importantes questões de gênero, questões específicas de uma época e região e questões atemporais da sociedade brasileira. O olhar crítico durante a leitura é imprescindível para pensar nelas.

Por Giovanna Costanti
giovannacostanti@gmail.com

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