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“Terra Sonâmbula”: a incrível viagem sonhambulante
Na Estante
24 jul 2017 | Por Jornalismo Júnior

Ao longo da nossa vida escolar, pouco se é abordado e discutido em livros didáticos os conflitos que assolaram alguns países africanos. Talvez, isso seja porque nossa cultura está pautada em moldes eurocêntricos, que não nos permite agraciar outras formas de olhar o mundo fora desse contexto.  E é neste cenário que Mia Couto escreve uma das  obras mais importantes da língua portuguesa.  
A narrativa de Terra Sonâmbula (Companhia das Letras, 2016) se desenvolve em meio à Guerra de Independência de Moçambique, que contou com diversos movimentos anticolonialistas desde o início da década de 1960. O conflito contra o governo português ocasionou milhares de mortos e gerou na população um forte sentimento antilusitano. Após a conquista da Independência, o país ainda entrou em uma intensa Guerra Civil.

Nessa conjuntura de fatores, somos levados a percorrer a saga de Muidinga, um garoto que está procurando os pais, mas não se recorda de nada do seu passado devido à doença que o acometera causada pela ingestão de mandioca tóxica. E Tuahir, um velho que resgata o jovem de um abrigo e passa a ter como único objetivo sobreviver, indo para o mais longe possível desse conflito armado. Juntos, percorrem lugares devastados pela guerra, dando gancho para todo o desenrolar da trama. Nessas andanças um machimbombo (ônibus), no qual fora encontrado vários corpos carbonizados, se converte no palco para uma segunda história dentro do livro. O diário de Kindzu, um dos jovens mortos na tragédia, torna-se o alento para os dois companheiros, que passam a lê-lo conforme vão avançando na jornada.

Um aspecto interessante dessa obra deve ser ressaltado, o modo como tudo é ambientado. A natureza se mostra presente em todos os capítulos, quase como se fosse o único elemento a possuir vida realmente. Em várias passagens ela se mostra única e onipotente, capaz de se renovar de todas as desgraças. Punindo ou recompensando as pessoas conforme suas escolhas. É incrível o modo como Mia utiliza o realismo fantástico para a construção da psique das personagens. Coisas que podem parecer absurdas, se transformam em ideias palpáveis e racionais. O uso constante das tradições moçambicanas, presentes na oralidade, permite que a palavra invada e tome conta do texto. O livro contém também alguns neologismos que não podemos deixar de relacionar ao escritor brasileiro Guimarães Rosa, sua grande fonte de inspiração, nos mostrando que aquela situação só pode ser dita daquela maneira.

Sem dúvidas é nessa confluência de enredos que o autor nos captura para dentro do texto. Apesar da narrativa estar inserida em um contexto pesado, onde a morte se mostra sendo a única alternativa viável para se alcançar a paz, somos levados a esperar que as personagens tenham um desfecho feliz. Em vários momentos há o despertar da empatia ao refletirmos sobre toda aquela situação que o ser humano estava sendo exposto. Isso se deve a maestria com que Mia Couto escreve. Cada capítulo é claramente ordenado para instigar o leitor a não abandonar de maneira nenhuma a leitura.  

Por Wender Starlles
wenderstarlles@usp.br

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