Home Na Estante Um útero é do tamanho de um punho — e o que mais cabe dizer sobre a mulher em linhas tortas
Um útero é do tamanho de um punho — e o que mais cabe dizer sobre a mulher em linhas tortas
Na Estante
28 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Audiovisual / Jornalismo Júnior

Por Samantha Prado (sampradogp@gmail.com)

“Um útero é do tamanho de um punho” é o segundo livro da poeta gaúcha Angélica Freitas, lançado em 2012. A obra é recheada de força simbólica revestida de versos inteligentes e bem humorados.

Sua poesia não possui nada de convencional. O livro pode ser entendido como uma grande mistura de estilos que corroboram a formação de uma crítica — ao mesmo tempo — clara e nas entrelinhas. Nada é dito de forma crua, direta. Entre a ausência completa de pontuação e maiúsculas, criação de uma língua do “i”, ditados, cantigas populares e invenção de onomatopeias, nasce o questionamento da violenta submissão feminina ao símbolo do útero.

A obra é dividida em sete partes — todas conectadas a partir do olhar sobre a mulher, evidenciando a violência naturalizada sobre ela. “Uma mulher limpa”, “Mulher de”, “A mulher é uma construção”, “Um útero é do tamanho de um punho”, “3 poemas com auxílio do Google”, “Argentina” e “O livro rosa dos corações dos trouxas” são os nomes das seções.  

O movimento feminista não é citado diretamente em nenhum momento, mas em todas as abordagens é possível identificar assuntos muito debatidos pela militância. É uma forma diferente de revisitar e repensar tais pautas e suas diversas facetas.

 

“A mulher é uma construção

deve ser

A mulher basicamente é pra ser

Um conjunto habitacional

Tudo igual

Tudo rebocado

Só muda a cor”

 

A parte que mais chama atenção é aquela que dá nome à obra: Um útero é do tamanho de um punho é um poema que se estende por oito páginas seguindo o mesmo padrão subversivo e imprevisível. O simbolismo do órgão feminino é destrinchado na contraposição que ele resguarda: sua potência e importância se voltam contra as próprias mulheres em forma de impotência. A forma feminina é sua prisão — seu corpo não pertence a si.

 

“Repita comigo: eu tenho um útero

Fica aqui

É do tamanho de um punho

Nunca apanhou sol”            

 

“Um útero é do tamanho de um punho

Num útero cabem capelas

Cabem bancos hóstias crucifixos

Cabem padres de pau murcho

Cabem freiras de seios inquietos

Cabem senhoras católicas

Militando diante das clínicas

Às 6h na cidade do méxico”

 

Tanto a forma de escrita da autora quanto sua abordagem é de extrema importância. Os poemas trazem uma subjetividade muito mais tocante que nos leva a incorporar questões feministas e olhá-las de maneira bastante pessoal. Muitas vezes acaba sendo mais difícil se identificar com situações degradantes (que se passa por simplesmente ser mulher) em textos explicativos e tradicionais, mas uma escrita como a desta obra permite a reflexão e a reavaliação de episódios pessoais — o que é muito significativo para todas as mulheres no geral, mas em especial para as mais jovens, lhes dando a oportunidade de conhecer pautas do movimento de maneira mais simplificada e cotidiana.

Por fim, a produção de Angélica Freitas é complexa. Sua leitura é rápida, mas não simples. Entre suas linhas — onde tudo é exposto mas nada é claro — os olhos acompanham com facilidade o vocabulário simples enquanto deixa um longo trabalho de reflexão, a fim de conectar todo conteúdo e experiências contidas em um pequenos livros de poesia. 91 páginas do cotidiano feminino pesado e invisível através de linhas tortas e imprevisíveis.

 

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