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Uma chuva, várias gotas

Uma palavra dialoga com cada um de forma única; a soma dessas formas traça um contorno tortuoso dela; e a análise de apenas uma parcela das formas já pode interessar

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12 fev 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Ana Gabriela Zangari Dompieri (anagabrielazd@usp.br)

Aprender uma palavra pode ser entendido como tornar-se capaz de usá-la e compreendê-la em dado contexto.

Abóbora, mão, amigo, meia, carro, livro… Sei o que são. Sem delongas, não é necessário explicar.  A comunicação é eficiente e efetiva. Fluida, dinâmica. Rasteira. Nada a desejar, podemos seguir com o funcionalismo cotidiano.

Mas desconfiei que as palavras não se encerravam por aí, não eram simplesmente utilitárias como outras ferramentas. Por isso, pensei em investigar as camadas de significação que as palavras podem ter.

Na opinião de Diego Toscano, mestre na área de Língua Portuguesa pela PUC, é quase inevitável que um ser humano, em processo de aquisição de linguagem, assimile significados mediante àquilo que experiencia. Tanto ao aprendermos a palavra, quanto ao atualizarmos continuamente sua significação à medida em que vamos vivendo e pensando coisas que se associem ao seu conceito.

Diego, com ressalvas por ser um sentimento, usa como exemplo a palavra “amor” e o processo de descoberta gradual de suas facetas. Maternal, paternal, fraternal. Ela pode, como as outras palavras, remeter a experiências positivas ou negativas, ou a ambas.

Imagino a situação em que um jovem filho ganha um microondas de presente da mãe. Talvez, então, para esta criatura, a palavra microondas passe a soar um pouco mais simpática. Até, sem que perceba, maternal. “Microondas” pode ser, silenciosamente, para alguém, maternal.

E não só isso. Se, porventura, quando o filho estreou o aparato, o eletrodoméstico resolveu estourar molho vermelho por todo seu interior, talvez “microondas” sutilmente o remeta à arte contemporânea.

E no limite: se o filho chama o molho de pomodoro e é chegado à mitologia grega, talvez se lembre de um trabalho de Hércules, o de roubar pomos de ouro (tomates) de um jardim. Então torna-se possível Hércules estar por trás de “microondas”.

Parece forçado – e, nesse caso, é. Mas pense em quantas referências temos em nossas cabeças. Mãe, pai, irmão. Acordes, cores, países, versos, personagens. Atrizes, memórias, cheiros, objetos. Guerras mundiais. Tipos de aves.

Quantas correlações fazemos ao longo de uma vida. Conceitos que sabemos que se ligam a outros conceitos; conexões que nem percebemos estarem ali. Ligações mentais inteiramente camufladas e, nem por isso, inexistentes. Experiências marcantes, traumas ou algo que achamos ter passado batido, mas, por algum motivo, não descartamos.

Tudo isso se mistura e dá um caldo bem diferente em cada pessoa. Se as palavras são unidade que temos para fazer referência e reconhecer referentes, então carregam, imprescindivelmente, as nossas próprias referências.

No dia a dia não percebemos que as palavras significadas por nós resguardam uma relação íntima conosco e com o que vivemos. De modo mais ou menos óbvio, as nossas vivências se aplicam a elas.

As nuances na significação de uma palavra variam ao longo da vida de uma única pessoa. Variam também de pessoa para pessoa. Isso ainda que, em sua camada prática, o conceito possa ser compartilhado.

Talvez seja possível reconhecer qual faceta de uma palavra se sobressai para uma pessoa. Foi isso que tentei, entendendo que tratar de uma só palavra seria um processo metonímico em relação às palavras no geral. E que, para uma mesma pessoa, diversas experiências compõem o significado de uma só palavra.

Quis explorar a palavra “chuva”, para além de: “a previsão é de chuva”; ou, se verbo, “vai chover”, “estamos na praia, mas está chovendo”. Pensei que perguntando às pessoas o que chuva as lembrava, conseguiria começar um delineado da gama de coisas a que “chuva” pode se associar. A princípio queria que me dissessem algo específico: uma música, uma cena, outra palavra, uma situação. Mas todos os entrevistados tiveram mais facilidade para lembrar da última opção, talvez a mais pessoal delas.

Eu mesma, no decorrer das entrevistas, recordei sem querer cerca de dez experiências que percebi me ajudarem a consolidar qual é meu significado da palavra “chuva”. Meu recorte dela.

O processo de cada conversa se deu afeiçoando-se a uma raspagem. Apareceu o percurso das pessoas de, quando indagadas a respeito, abandonarem o nível banal das palavras e caminharem para o nível pessoal delas, mais profundo e raro. A resposta mais frequente entre os entrevistados se dava em três etapas. A primeira, de estranhamento e reflexão: “uma história com chuva? Nossa, espera aí…” A segunda, de dizer algo genérico enquanto o cérebro ainda está matutando alguma coisa: “hum, chuva me lembra minha infância.” E, por fim, a terceira: “Ah, eu tenho uma história com chuva!”…

Carrossel – altos e baixos, equinos e infância

“JP” é um menino muito simpático que, após hesitar um pouco, concedeu-me a graça de sua entrevista. Não o culpemos por tal hesitação. Era domingo à noite, o cenário era um ginásio em Osasco e a situação era a do fim de um jogo de vôlei. O time dele contra o meu; ambos torcedores saudáveis. A derrota do meu, creio eu, me concedeu créditos para pedir: “me conta uma história?”. Após pensarmos um pouco e fazermos pequenos malabarismos para garantirmos nossas respectivas caronas, pude conhecer um pouco mais do que esse evento meteorológico simbolizava para o universitário.

A memória narrada ambienta-se em Campos do Jordão e é vista através de pupilas de onze ou doze anos.

Na época ele, seus irmãos e primos iam muito para lá, porque é onde sua avó morava (e mora). Certa vez, foram fazer uma trilha a cavalo – pelo que posso imaginar e pelos detalhes que se seguem – por verdes sobes e desces da região. Em dado momento, começou a chover. Uma chuva sem relâmpagos ou trovões, mas uma chuva forte. A princípio, diversão. Os cavalos deslizavam ligeiramente sobre a descida e alegravam a criançada pelo caráter incomum daquele momento.

Em onomatopeia, JP sonorizou a aquaplanagem dos animais e, sem querer, mostrou-me uma fresta da criança que presenciara a cena. Pouco depois, tensão: já a uns trinta minutos de casa, começou uma confusão com os cavalos. “Estava tudo enlamaçado, eles empinavam, faziam barulhos… Eu tava desesperado, achei que ia cair! O cavalo do meu primo realmente caiu” “ de lado?” “sim, de ladinho, assim” e me ilustrou a posição final pós-queda… “Deve ter durado dez segundos, mas pra mim foi eterno.”

Após o que lembra serem dez minutos, ele olhou para o pai e viu que sua meia  “estava toda vermelha”, conta aterrorizado. Eu pedi por mais detalhes cinematográficos.  Mas não obtive mais entranhas da cena.

“Descobri que, quando os cavalos tomaram sustos, meu pai tinha levado um coice. Eu falei ‘pai, você sangrando’ e ele, ‘eu sei, filho’ – na maior serenidade que eu já vi na minha vida – ‘tá doendo?’ ‘tá, por isso estamos voltando para casa.’” Traduzindo em fala a sua impotência na posição de filho pequeno, desatado de grandes possibilidades de ação, continuou: “ah, tá… Então tá bom…”, entre breves risos.

Estamos agora na casa da avó. Finalmente chegaram, provavelmente de carro, pelo esforço das mãos do pai sobre o volante. Se pensarmos bem, das mãos e pés! Pés como aquele ensanguentado de instantes anteriores. Ao fim desse raciocínio, JP concretiza: “é, coitado do meu pai”.

Pelo que ele se lembra, o pai se deitou e uma tia, médica, foi averiguar a situação. Morre aí o pai. Calma, não ele mesmo. O personagem. Não falarei mais dele. Digam tchau. Tchaaau.

Enquanto isso, a versão de JP feito criança, e seus primos – provavelmente também reduzidos na época, mas não tanto quanto ele, o caçula – voltaram para a chuva. Do lado de fora da casa, havia barro. Por conta dele, os meninos torciam para que chovesse, afinal, gostavam de brincar com a lama. Referência essencial para essa brincadeira era um desenho do Pateta:  “minha mãe falava: ‘mas vocês vão se sujar de lama?’, e a gente: ‘não, mãe, banho de lama faz bem pra pele’”, segundo conhecimentos adquiridos do programa.

Então com suas galochas devidamente colocadas e pais devidamente bravos, os meninos partiam para a ação. Jogaram futebol na chuva, subiram em árvores, pularam nas poças…

“Nesse dia também (a gente estava aventureiro), eu e meu primo tivemos coragem de tentar entrar em uma mata mais fechada que tinha no condomínio. A gente tinha medo de ir lá, ainda mais na chuva. Mas ‘não, a gente andou a cavalo na chuva… Hoje é dia!’”

O lugar em si foi decepcionante. Ainda assim, se divertiram jogando lama um no outro.

E no dia seguinte, ficaram todos doentes.

Divina vinda da vida

Alguns dias depois, umas cinco horas da tarde, eu voltava da faculdade. Isso com a expectativa de encontrar alguém no trem para entrevistar no caminho de casa. A este sentimento, se somava a frustração de uma tentativa já feita nesse contexto. Mas, sem pensar muito, fui compelida a sentar-me do lado de uma senhora no último vagão, no assento preferencial. Não me preocupei com uma possível interrupção futura de algum senhor ou uma gestante. No fim, me impressionou que nenhum desses perfis nos apareceu.

Dona Elza é a segunda pessoa desse “nos”. Numa conversa mansa aproximamos nossas palavras e então, estranhamente, floresceu, de um espaço hostil à essa hora, a memória dela.

Em palavras ligeiras, de uma poesia quase natural, como a dos cordelistas, ela começa a rabiscar sua perspectiva sobre a chuva.

“Eu morava na roça, né? No meu tempo, naquele tempo… Aí quando começava a chover a gente gostava tanto que na hora a gente saía correndo para ir pra chuva, não querendo desistir da chuva”. E continua: “Eu queria tomar chuva, era muito bom quando a gente saía correndo assim, lá no interior, lá na minha mãe, lá na Bahia… E era um calor assim… Botava a cara pra cima e ficava ‘Ai que delícia, meu Deus, ai que chuva boa! Que chuva maravilhosa!’”.

Por mais alguns versos, Dona Elza contou sobre o quanto ela gostava, não só, mas como adorava esses momentos. Ela nunca reclamava e nem o faz até hoje.

“Eu gosto, sabe? Ela é limpa, né? A água que cai, ela espalha… “

   À época ela era pequena, uns “doze, dez anos”. Ela era da cidade de Salvador, mas sua mãe tinha um sítio mais para o interior. Lá sim havia a seca forte. Com a falta de chuva por muito tempo, a terra e o mato secavam. “Você pegava assim, já tava tudo se quebrando. Não tinha uma folha, ficava tudo sequinho… Um calor, a gente pedia a Deus pra chover. Mas também quando vinha um trovão, misericórdia, saía correndo. Medo!!”

Depois da chuva, por conta da umidade na terra, tudo voltava. As plantações, como a de mandioca, de laranja e de banana da mãe de Elza, cresciam. Aliás, cresciam e ficavam grandes, diferença sutilmente pontuada no discurso dela quando cita os dois termos em encadeamento.  

Ela sintetiza o papel da sua chuva: “e quando ficava tudo seco ali, os animais, coitados, dava até dó! Aí, quando começava a chover ficava tudo bom e a gente ficava feliz… Quando subia aquele cheiro de terra… Quando a gente saía correndo, era muito bom”. Imagine a força do tão exaltado “começo” da chuva, que, chamariz, não atraía só as tão comentadas pessoas para fora de casa, mas a vida em si. Símbolo puro de alívio e euforia entrelaçados, se faz o fenômeno.

Da riqueza demonstrada do bem água, nesse caso, decorrem os seguintes episódios. Dona Elza conta que já na cidade de Salvador, quando estava seco daquela forma, se “juntava” água da chuva em baldes para lavar o quintal e a casa, porque “era muita seca, nossa… Seca demais!”

Aqui por São Paulo ela ainda o faz nas épocas que há falta de água.

No mais, segundo ela, quando eu quiser encontrá-la por cá, devo, mais ou menos às cinco da tarde, procurá-la no último vagão do trem.

Lusíadas recomendado para menores de seis anos

Diego foi meu professor de língua portuguesa no Ensino Médio. A ele regressei para saber mais sobre o tema que tanto me interessou. Estávamos em minha antiga escola, acho que era quarta-feira. Eu tinha que perguntar para ele também por onde andava seu caso com a dona chuva.

De frente para uma pilha de provas rosa em processo de correção, ele avista uma primeira memória.

   “Antigamente, quando chovia muito forte lá na casa de praia, era muito comum os ralos não suportarem a vazão da água, então o quintal ficava parecendo uma piscininha”. Essa era a hora em que sua bisavó pegava jornais do cesto da sala e fazia barquinhos de papel. Diego, um tom acima, continua: “Eu colocava os barquinhos e achava o máximo eles lá, numa espécie de mar… O que estava a duas quadras dali parecia estar no meu quintal.” Em uma nova frase, parece que roubada da boca dele, caracteriza a chuva como muito forte e barulhenta, resgatando a cena gostosa da inundação. Especialmente gostosa porque até hoje ele não sabe fazer esses barquinhos, “não tenho a menor competência para mexer no papel e ela fazia isso com uma destreza incrível”.

E é nessa parte da história em que se justificam as preocupações de quem era contra a audácia portuguesa. Porque, pouco após a despedida dos barquinhos, eles de fato encontraram a tormenta. Diego e a bisavó colocavam vários deles na água, mas os barquinhos se despedaçavam e, após segundos, pela força das gotas, já estavam destruídos. O monstro dessa história fôra mais pragmático. Mas Diego não se abalava tanto assim, esse drama foi meu, não dele. “Tinha uma parte do quintal que era coberta, então eu conseguia parar no limite do coberto para o descoberto e ficar vendo e colocando os barquinhos dali…”

Mais pra frente na conversa, descobri que esse que olhava ao descoberto era um menino de menos de seis anos.

Cheiro estonteante

Acompanhando outra repórter, tive a oportunidade de conhecer a Casadalapa e alguns membros do coletivo de artistas homônimo. Dentre eles, conheci “o Sato”. Na própria casa, diante de uma janela com vista para as plantas e intervenções de arte no jardim, tive a oportunidade de perguntar a ele sobre uma experiência sua com a chuva. Eis que a palavra experiência assumiu um caráter mais químico do que eu havia premeditado.

Sato conta que fez um trabalho, já há certo tempo: a parte artística do Museu do Perfume. Tratava-se de uma sala especial, que deveria mostrar as várias possibilidades de fragrância – “em tudo pode ter cheiro e todos os cheiros podem ser reproduzidos.” Sato não quis colocar perfumes de árvores ou de flores, por exemplo. Ele fez um filme. Mais que isso, na verdade. Havia alguns totens que soltavam fragrâncias específicas que acompanhavam a evolução do vídeo. Sobre puffs,  as pessoas podiam sentir.

Tudo começava com um nenê nascendo, acompanhado do cheiro de talco; depois que a criança crescia um pouco e começava a desenhar, havia o cheiro do giz de cera. “Você sente isso e vai para aquele tempo em que desenhava, lembra desse cheiro. Você não lembra? Eles são muito presentes…”. Vinha então o cheiro do mato cortado, entre os seis e os oito anos, quando, segundo Sato, se vai muito para o interior em casa de tios ou avós e se sente muito esse cheiro pela proximidade com a natureza. Dos dez aos doze ele colocou o cheiro da chuva, de quando, nessa idade, morava na Zona Norte, onde ainda não havia tantos prédios e era possível “ter a percepção de uma paisagem maior.” Isso porque ele conta que ao sentir esse cheiro pré-chuva, ele a procurava no horizonte, podendo acompanhar seu avanço – o que não acontece mais nos dias de hoje, já que muitas vezes ela apenas passa por nós, por conta da altura das construções que nos cercam.

“Nós testamos, vinha em um negócio e você passava em um negocinho e você cheirava e era o cheiro de chuva”- Aparentemente, qualquer cheiro desse planeta poderia ter sido feito pela equipe. Da perspectiva deles, no limite somos os elementos que nos compõem, e os odores não seriam diferentes. “Eles conseguiram fazer exatamente aquele cheiro. E as pessoas lembraram”.

Abismada com o fato da reprodutibilidade humana do que para mim seria o cúmulo do natural, – o cheiro da chuva – questionei o artista. Ele respondeu: “É isso, o cúmulo do natural pode ser reproduzido pelo cúmulo da química e da tecnologia. Mas você não pode perder o lance de ir lá fora e sentir…”

Aos interessados, como eu, os cheiros seguintes foram, na adolescência, o de algodão doce, referindo-se ao espaço do parque de diversões e, um pouco mais à frente, o cheiro chamado de segunda pele, relacionado ao início da vida sexual. Tudo recomeça quando a pessoa tem um filho e tanto a cena quanto a fragrância retornam ao estágio inicial.

   

 

Depois de aquecido, Sato lembrou-se de uma nova história.

No primeiro dia de um feriado prolongado, em Camburi, nosso entrevistado com sete graus de miopia aproveitava as idas e vindas da sauna ao rio. Já devia ser noite, porque ele e seus amigos receberam lanternas para fazer essa travessia. Em dado momento, Sato estava à beira do rio, quando alguém o chamou e ele voltou-se para trás “Nisso eu desequilibrei, comecei a cair dentro do rio e falei: FUDEU A LANTERNA OU OS ÓCULOS, A LANTERNA OU OS ÓCULOS? Aí eu joguei a lanterna, fui segurar os óculos, já tava na água, perdi eles… Não enxergava nada”. Isso tudo durante uma tempestade. Conseguiu sair da água. Com o rio enchendo e a escuridão, eles foram obrigados a voltar para casa. Naquela noite, ele foi muito prejudicado quando jogaram cartas e quando tentou “fazer o rango”.

Chega seu amigo Renato e diz: “não, Sato, calma! Não fica assim, eu sou um cara que acha óculos. Eu acho, é impressionante.” E contou casos passados que corroboravam a hipótese de seu talento. Ainda não estavam acreditando totalmente nisso. No dia seguinte, após uma noite inteira de tempestade, ele “achava que já estavam no Atlântico os óculos!” Quando Renato foi ao rio, “em tempo real: entrou” – passaram-se quatro segundos de silêncio – “saiu com os óculos.”

   Ao contar a resolução do caso, Sato soltou uma gargalhada e afirmou: “é muito louco esse tipo de coisa”. Concordo olhando através das grossas e imprescindíveis lentes da relíquia.

Superego de castigo

Essa foi provavelmente a entrevista mais difícil de fazer. Minha mãe era a entrevistada e o momento em que ela narrou sua memória se deu no sofá da nossa sala. O problema foi que eu participei da história que ela contou e para ela o episódio foi tão marcante quanto para mim. De tão marcante, ele sempre ressurge em nossas conversas, em comentários que assumem a forma de lembretes. Esse estilo de conversa, que se finda ao pontuar o ocorrido, parte da premissa que a coletividade de pessoas que viveram aquele momento o vivenciaram da mesma forma. Como se a realidade fosse um filme e cada um que esteve presente o fosse dirigir da mesma maneira, se pudesse.

Entretanto, quando tive a oportunidade de ver recontada a experiência de minha mãe, percebi o embate de versões que se estenderia à minha frente – coisas que ela lembrava e eu não, coisas que eu lembrava e ela não. Isso fora a exposição de uma perspectiva sensível que eu nunca tinha percebido que ela teve.

Uma porção de coisas que ela dizia eu sentia vontade de contrapor. Então eu me fiz duas: eu criança, outro narrador personagem da mesma história; eu hoje, tentando o profissionalismo. A segunda, ponderaria que para o objetivo do texto pouco importava a verdade exata da realidade contada, mas sim a pessoalidade, a forma como aquela pessoa assimilou sua experiência. Além disso, eu nem tive como discordar do que os outros entrevistados disseram, fazê-lo com uma só tiraria a homogeneidade da apuração da matéria.

A primeira também esteve lá. Eu criança queria dizer “pera lá, mãe, isso não foi bem assim”, e justificar minha postura trazendo todos os motivos que via para ela.

Na hora, a racionalidade da jornalista, mesmo com todas as regras e argumentos lógicos a seu favor, não pôde segurar a vivacidade da pequena indignada. Mas, no texto, tentarei prevalecer a versão da entrevistada, driblando as interferências que acabei tendo que deixar a menina fazer.

   Estávamos em Peruíbe, na praia – eu e mais dois primos, além de nossas mães -, quando começou a trovejar e o céu escureceu. Então, “o pessoal começou a falar esse papo aí de trovão, de raio e de perigo e de perigo e de perigo…” Ela lembra que meu primo ficou com muito medo e seguiu, como alguns outros de nós, o conselho que meu pai antes dera: fazer seu corpo ‘virar uma bolinha’ para tentar evitar ser atingido por raios.

   Começamos a subir a rua da casa e, com isso, iniciou-se uma chuva que ela caracterizou como “de pingos grandes, pesados”. Ela e minha tia estavam achando aquilo uma delícia, “parecia que a gente estava se libertando de uma coisa que crescemos ouvindo que não podíamos fazer, e foi muito bom, parecia criança.”

  O que ela mais lembra é da energia delas, acredita que estavam sentindo a mesma coisa: “e daí? Estou tomando chuva”.

   Sobre as crianças, lembra-se do papel repreendedor: “a gente queria dar risada, se divertir, dançar na chuva, mas não podia, ficava levando bronca das crianças: ‘para de ser feliz, cadê o seu juízo?’”.

   Depois disso, notei que toda vez que remontávamos a esse episódio em família, os comentários breves, das ex-crianças, falavam em tragédia, em momentos de desespero e desamparo. E os das mães desabafavam críticas às crianças por terem reprimido incessantemente o momento de prazer das duas. O que de fato aconteceu deve ter se perdido entre essas duas perspectivas.

  Talvez a memorabilidade dessa situação tenha sido construída justamente pela sua estranheza, sentida pelos dois pólos. De um lado, naquela única vez na vida me senti em uma situação de perigo na qual minha mãe, podendo me fazer sentir acolhida, não o fez. De outro, uma ocasião rara, em que, depois de mais velha, ela não se sentiu no papel de mãe e aproveitou o momento como se fosse uma criança. E transpareceu em sua fala certo tom de desobediência, recorrente entre os filhos, não entre os pais.

   Apesar da racionalidade estar, nesse episódio estranho, do lado dos filhos pequenos – uma vez que os raios realmente são perigosos – o impulso da minha mãe criança não pôde ser freado.

Na hora, a função de mãe, mesmo com todas as regras sociais e avisos sobre os raios a seu favor, não pôde segurar a vivacidade da pequena ela, por bastante tempo guardada.

  Trilha de ninar pontilhista

Bem no meio da semana, dentro do carro, na garagem do meu prédio. O entrevistado da vez, com toda a pessoalidade que essas entrevistas permitiram, foi meu pai. Ele me trazia, depois de mais uma longa quarta-feira, da faculdade. Ouso dizer que havia sido um dia difícil. Já passava da meia noite quando, entre conversas de quem não quer deixar o pai ir, pensei em mais uma desculpa para estender nossa reunião.
Eis que ele, extrapolando o limite da reconfortância paterna até ali, se é que possível, me conta a seguinte história.

“Quando eu morava na rua João Cachoeira, entre 64 e 69, entre os três e os oito anos, eu dormia em um quarto com meu irmão. Esse quarto tinha uma sacadinha…” Disse que havia nela uma porta e uma janela, o que justificava sua seguinte postura: “não assustado, mas preocupado”. Ele via sombras na janela às vezes, possivelmente de uma árvore balançando em frente à luz da rua. Ele tentava adivinhar por tais sombras se aquilo era algo inofensivo ou não. Isso porque tinha medo que um ladrão pudesse subir aquela parede e entrar na casa por ali, de cara para o quarto dos meninos.

Ele ficava olhando, olhando… E, bom, tinha essa preocupação. “Aí você acaba ficando com sono e dorme, tudo dissipa… Mas a chuva entra nessa história porque quando chovia eu achava que o ladrão não saía de casa para roubar, então eu dormia tranquilo.”

Para ele, a paz que a chuva ainda traz à noite, na hora de dormir, vem daquela época, associação consciente e assumida na conversa.

“E eram duas coisas: a chuva e o apito do guarda noturno que passava na rua. Era isso que me tranquilizava… Que me fazia ter certeza de que não ia acontecer nada de ruim à noite.”

No mais, perguntei a ele sobre o meu tio, o outro menino no quarto. “Ah, o tio já estava roncando há tempos!”

Aconteceu que o efeito da chuva sobre ele foi o efeito da história sobre mim. Com seu tom de cafuné, ou de criança que cresceu e, sublime, reconhece sua antiga inocência, eu subi com os ouvidos mornos e com a mente acalmada.

Anfiteatro particular

Quando eu era bem pequena, tinha medo de chuva, porque com ela vinham os trovões. Aquele barulho, aquela força que estremecia tudo. Mesmo de dentro de casa, sinto que procurava esconderijos para me proteger do estrondoso fenômeno.

Meu quarto era o que dá pra frente do prédio. Tenho o relance de um dia estar em um dos cantinhos do cômodo, amedrontada. A sensação é a de escuridão em volta de mim. Olhos fechados, pedindo para aquilo não me atingir de nenhuma forma. Era muito alto, muito potente, uma demonstração de poder em escala superior à com que os pequenos lidam.

Pequenos: aqueles para os quais o mundo costuma ser apresentado em tons de lilás, para que a introdução não seja tão chocante assim.

Desse canto, alguém veio me salvar. E eu acho que nem era o que eu estava esperando ao esconder-me; sinto que havia uma espontaneidade intocada nesse meu impulso. A mão que se estendeu não era prevista. Acabou me fazendo olhar pra cima, e levantar, e então andar junto.

Logo estava em outro cômodo, a sala. Lembro-me de estar entre minha mãe e meu pai, todos ajoelhados no sofá, olhando para fora da janela na qual o móvel se encostava.

Vista noturna do céu, da silhueta dos prédios no horizonte, algumas árvores ocupando menos espaço da janela do que ocupam hoje.

Tempestades viraram a nova diversão. Quanto mais raios e trovões, melhor. Temos grandes janelas que se estendem ao longo de toda a sala. Assistíamos a um espetáculo, toda vez.

Do nosso terceiro andar, tínhamos uma visão muito privilegiada. Na verdade a visão era apenas uma parte do privilégio. Tínhamos a companhia um do outro, éramos uma unidade para qualquer coisa externa que se colocasse à nossa frente e sabíamos nos proteger com toda a alegria.

Me ensinaram, em relativamente poucas palavras, que quando se observa os próprios medos em segurança, é provável convertê-los até mesmo em gostos.

E então, não só o azul escuro do céu e as linhas luminosas dos raios que tomavam forma à frente dele – o que passava longe de ser “só” -, começamos a observar detalhes que nos faziam criar mais e mais apreço por aquele momento.

A chuva que, quando contava com pingos inclinados, enchia o trilho da janela de água gelada (a parte do gelada já delata que eu punha meus dedinhos nela e, com ela, brincava).

A partir daí eu torcia pra chover muito e em direção a mim. Um dia, ou até mais de um, surpreendi-me quando, de tanta água, o meu riozinho chegou a transbordar.

Eventos, eventos…

O fato é que eles, ao me pegarem pela mão e me levarem à frente da janela, me fizeram olhar o mundo, desvencilhando-me dos meus medos para dar uma chance às intensidades que se apresentam. Entusiasmo é uma opção de resposta.

Limparam o olhar da criança e mostraram a ela que as coisas lá de fora, por maior que seja o aspecto vilanesco que possam assumir, podem ser divertidas quando aqui dentro está tudo bem. Quando se tem a segurança necessária para enfrentar o que quer que venha por aí.

Estando ao meu lado nas noites chuvosas, eles, sem dizer isso, me disseram que estariam para sempre assim, de mãos dadas comigo, para onde quer que eu olhasse. Aqui e ali, quando tivesse medo de aranha ou de escolher uma profissão. De morrer.

Se tornariam dois conselheiros quase infalíveis e ouvidores, no mínimo, assíduos. Nas tantas noites, e também dias, que se seguiriam, com as futuras evoluções do medo de chuva.

Por isso, percebo, “chuva” não me lembra frio, cinza, desalento; galocha, guarda-chuva, plástico. Pra mim parece com segurança, com regresso, com casa.

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